1% das escorrências nacionais dá para regar 100 mil hectares

José Pereira Palha, da SEDES, pede urgência na aplicação do Plano de Eficiência Hídrica do Alentejo, no âmbito do combate à seca no país
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Preocupado com a seca que o país atravessa, José Pereira Palha, coordenador do Observatório da SEDES para a Agricultura, lamenta que "1% das escorrências nacionais" [águas que se escoam à superfície do solo] se percam, quando poderiam "regar cerca de 100 mil hectares".

E recuperou outro exemplo recente para ilustrar perdas pouco convenientes em contexto de escassez hídrica, lembrando que nas cheias do último mês de novembro, no Tejo, "num só dia, passou para o mar a mesma quantidade de água utilizada em Alqueva numa campanha de rega, que representa cerca de 1,4% das escorrências totais".

"As escorrências médias em Portugal continental andam em cerca de 48 mil hectómetros cúbicos. Em todas as utilizações (consumo humano, indústria e agricultura) utilizamos cerca de seis mil hectómetros cúbicos, cerca de 12% do total das escorrências", pormenoriza.

Em declarações ao Dinheiro Vivo, mencionou estas situações para reforçar uma ideia que tem vindo a defender: "Não temos um problema de falta de água, temos um problema na sua distribuição".

Por outro lado, "tendo em conta que as secas fazem parte da nossa história", considera "indispensável olhar para este fenómeno e tomar todas as ações ao nosso alcance para dotar o país com capacidade para enfrentar as próximas décadas."

Ou seja, defende que é preciso "pôr em prática todas as medidas já estudadas - e algumas até orçamentadas - para mitigar estes efeitos climáticos e fazer com que exista água em todo o território, como as dessalinizadoras, mais armazenamento com charcas e barragens, o aproveitamento das águas residuais ou os transvazes", na convicção de que "sem água não há vida, não há economia, não há desenvolvimento, há abandono e desertificação".

Apesar de reconhecer que, "nos últimos dez a 20 anos, o setor agrícola deu um salto tecnológico enorme" e de considerar que "Portugal está na vanguarda do que melhor se faz no mundo ao nível da utilização eficiente dos recursos, especialmente a água", reafirma que "é fundamental aumentar o armazenamento de água", recorrendo "à inteligência e à engenharia", para encontrar "soluções técnicas que evitem os danos ou muitos impactos negativos".

Ciente dos custos financeiros que tais soluções possam acarretar, José Pereira Palha contrapõe: "Mas quanto custa a um país ter metade do seu território deserto, sem pessoas, sem economia, sem vida? Estas contas têm de ser feitas."

No contexto, viu com agrado a aprovação no Conselho de Ministros do Plano de Eficiência Hídrica do Alentejo, considerando-a "uma excelente notícia para o setor agrícola e para o país", mas manifestou esperar que "o documento seja discutido e implementado rapidamente", tendo em conta que "grande parte dos investimentos propostos são urgentes".

Assinalou que "dos cerca de mil milhões de euros anunciados para este plano, 79% serão dedicados ao setor agrícola, essencialmente para aumentar o armazenamento de água e a eficiência hídrica das obras existentes".