1000 dias depois

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Há datas que são um marco. Há 1000 dias começava uma pandemia que trouxe um tempo incerto e complexo de confinamento - infelizmente agravado agora por uma guerra fria e sem sentido. Para ajudar a passar melhor este período, tivemos então a ideia de promover uma rede colaborativa com gestores, académicos e outros especialistas para partilharmos ideias, visões e desafios para o futuro. Com esta crise, tudo passou a ser diferente e nada passou a ser igual. Mil dias depois de ter sido criada, a rede informal de partilha Sharing Knowledge mantém vivo o seu objetivo de ajudar a construir soluções inteligentes para o futuro que aí vem.

Charles Leadbeather, um dos mais interessantes pensadores na área da inovação, ficou célebre pela frase - "We are what we share". Esta frase é muito clara - nós somos muito aquilo que somos capazes de partilhar e ao fazê-lo estamos claramente a dar um sinal muito positivo em relação à nossa integração numa sociedade que se quer aberta e focada no futuro. A sociedade de que nos fala Karl Popper e em que muito acreditava Diogo Vasconcelos, um empreendedor e campeão da inovação que muito marcou uma geração portuguesa e era também amigo de Charles Leadbeather.

Estes tempos incertos e complexos que vivemos estão a trazer novos desafios à nossa sociedade. E para que possamos encontrar as respostas adequadas às muitas questões que passámos a ter, a importância de saber partilhar ideias e de participar no espaço público de que nos fala Daniel Innerarity. Nunca como agora foi tão importante reforçar a dimensão interpessoal das nossas relações humanas com um sentido muito claro de estar em rede e ter uma atitude positiva para aprender com os outros e partilhar com os outros a nossa visão das coisas e o conhecimento que temos e que deve ser a base de uma reflexão conjunta inteligente sobre os desafios que temos pela frente. Ao fazermos da partilha diária de ideias e conhecimento uma forma de ser e estar, sinalizamos um sinal de confiança no futuro.

As organizações em que estamos são muito o que nós somos. E apesar desta nova revolução digital que está a alterar a cadeia de valor dos negócios e a agilizar a dinâmica das articulações em rede, a capacidade de antecipar o futuro é algo que continua muito a depender do sentido de oportunidade e de abertura para ser inovador e eficiente. A partilha de informação e de conhecimento deve ser um contexto e um conceito que emerge desta capacidade natural de sermos livres e podermos contribuir com ideias para uma maior qualidade das nossas instituições e uma maior realização individual dos cidadãos. Nós somos muito o que partilhamos e nós vamos continuar a partilhar porque acreditamos no futuro e queremos fazer parte dele. Como muito bem defende Geoff Mulgan, precisamos de uma nova inteligência coletiva que nos habilite a ser mais competentes naquilo que fazemos e a injetar um maior capital de confiança nos ecossistemas em que nos vivemos.

O conhecimento não se constrói por decreto. Passa por um processo colaborativo, em rede, de partilha de ideias e de informação, com o objetivo de ajudar a encontrar novas pistas de abordagem inteligente para um tempo novo que aí vem. O Sharing Knowledge é isso mesmo -um contributo simples e prático para fazer da partilha um instrumento de construção de novas abordagens estratégicas focadas no valor, na inovação e na criatividade como enablers de distinção competitiva para uma nova agenda com sentido. Sharing Knowledge - a state of mind.

(Nota: o autor escreve segundo o Antigo Acordo Ortográfico)

Francisco Jaime Quesado, Economista e Gestor - Especialista em Inovação e Competitividade

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