Os portugueses com habilitações superiores que emigram chegam a ganhar três vezes mais nos países que os acolhem do que em Portugal. Conseguem empregos estáveis e progressão profissional, e os que partiram a pensar no regresso, dizem, agora, que a saída é permanente. São os novos emigrantes e estas conclusões estão no estudo Êxodo de competências e mobilidade académica de Portugal para a Europa.
"Faz-se um investimento na formação dos jovens, que depois não têm o devido reconhecimento na sociedade portuguesa e acabam por emigrar. Não há o devido retorno para o desenvolvimento do país", lamenta João Teixeira Lopes, um dos autores do estudo. Esclarece: "Do ponto de vista do indivíduo é perfeitamente racional, mas não do país. Estamos a perder a geração mais qualificada, é um absurdo."
A investigação envolveu os jovens qualificados que emigraram para a Europa, e que representarão um quarto dos portugueses que deixaram o país na última década, segundo o sociólogo, professor e investigador do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto. Discorda do uso do termo "fuga de cérebros", preferindo a designação "emigração qualificada".
A maioria dos jovens que deixa o país não tem um curso superior, apesar da qualificação ser cada vez mais elevada. Mas o número de emigrantes qualificados subiu 87,5%. O seu peso era de 6,2% do total de emigrantes em 2000, atingindo os 11% em 2015.
Para o estudo, os investigadores realizaram entrevistas em videoconferência e questionários online, a que responderam 1011 pessoas. Uma das razões apontadas para emigrar é o nível salarial. "Estamos a falar de pessoas que ganhavam mil euros [em Portugal] e nos países de destino vão ganhar três mil ou mais euros". Segundo o documento em Portugal, 70% ganhava menos de 1000 euros. No destino, mais de 50% passou a receber mais de 2000 e 26,5 %% acima de 3000".
Uma segunda conquista no estrangeiro é a estabilidade profissional. Pesa muito o facto de, finalmente, terem condições financeiras e profissionais para saírem de casa dos pais. "Estavam cansados de ser jovens, de viverem num limbo, naquela transição para a vida adulta e que nunca mais se completava. Estavam cansados da precariedade".
Ou seja, de não terem a garantia de manter o emprego, desconhecerem o que vai acontecer depois do estágio profissional, não saberem se a bolsa de investigação será renovada ou terá uma concretização no mercado de trabalho. E sentem-se mais reconhecidos nos países de destino. "Os fatores profissionais (remuneração, carreira ou progressão) são referidos por 63% dos inquiridos, seguindo-se as oportunidades de emprego e os fatores pessoais e familiares (44,4% das respostas)."
Relativamente a Portugal, é também a família e as questões pessoais que os atrai, mas é mais forte o que os afasta. Justificam que não têm as mesmas oportunidades de emprego (63%) e condições profissionais (29,6 %).
Por isso, a maioria não pensa em voltar. "As gerações anteriores tinham como objetivo o regresso. Saíam do país para conseguirem meios para fazer uma casa em Portugal, amealhar dinheiro para regressar. Agora, estes emigrantes sabem que dificilmente conseguem ter em Portugal as mesmas condições que usufruem lá fora, mais depressa pensam em mudar de país", salienta João Teixeira Lopes.