A coca-cola de Alvor

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Era uma vez um jovem alvoreiro que inventou uma soda fantástica. Com um travo a caramelos de Badajoz, a coca-cola de Alvor tinha ainda a vantagem de ser artesanal, biológica, vegana, e vitaminada com as famosas laranjas algarvias. Assim, mal foi comercializada, tornou-se um fenómeno viral!

Ora, entre os melhores clientes do produto estava um imigrante marroquino, dono de um shisha bar em Albufeira, e que, certo dia, à conversa com o jovem, resolveu dar-lhe um conselho aparentemente estapafúrdio:
- Epá, uma invenção dessas merece outra escala. Devias procurar um business angel e montar isso nos EUA.
O empreendedor ainda se conteve, antes de se escangalhar a rir:
- Estados Unidos da América? Era o que faltava... Não há nada melhor do que os Estados Unidos da Europa. Viva a UE! Viva Portugal! Ninguém precisa de business angels neste paraíso de bazucas económicas."

Talvez tivesse razão, nem que seja porque, ao contrário de Marrocos, e mais de 80 países no mundo, Portugal nem vistos E1 e/ou E2 tem para empresários e investidores que queiram empreender na América.

As gargalhadas, todavia, foram-se esmorecendo à medida que o rapaz foi fazendo contas à vida. O IVA a 23%, o imposto sobre o açúcar e os custos de operação e logística, agravados pela constante subida dos preços da eletricidade, tornavam a sua quimera menos competitiva. Quanto aos funcionários que havia contratado, mais parecia que os havia subcontratado ao Estado, já que este levava pelo menos 1/3 da folha salarial. Isto para não falar dos pagamentos a 90 e a 120 dias, ou mesmo dos que ficavam por receber. Além dos tribunais, que levavam balúrdios em custas e séculos para resolver os mais pequenos diferendos.
Empreender, afinal, era mais difícil do que pensava. Mas, como da fama de capitalista já não se livrava, não demorou muito até a ASAE lhe bater à porta. Claro que o jovem ainda tentou contestar.

Porém, debalde. A multa foi de tal ordem que resolveu fechar tudo e vender por mil euros a receita da soda ao marroquino.

Ao que parece, entretanto, o tal marroquino vive agora no Texas, usufruindo do seu visto E2, tendo já feito capa na Forbes 30 under 30.

Mas, não pensem que essa é a lição da história. Quem realmente aprendeu foi o nosso jovem empreendedor. Hoje é operador de telemarketing e sabe melhor do que ninguém como ficar quietinho numa Europa - e sobretudo num país - onde a dívida é soberana e os unicórnios não nascem... nem que inventem uma coca-cola em Alvor.

Economista e Investidor

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