Numa altura em que se assiste, de forma dramática, à saída das tropas americanas e da NATO do Afeganistão, vale a pena refletir sobre as várias formas de exercício do poder neste mundo cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo.
A intervenção militar naquele país ao longo das duas últimas décadas e as eventuais sanções económicas que possam vir a ser impostas no futuro são exemplos daquilo que se designa por hard power. Contudo, não é a única forma de exercício do poder na cena internacional pois, a par desta, há opções menos coercivas que vale a pena ter presente - sem que isso signifique, no caso em apreço, que sejam as mais adequadas no país dos talibãs.
Soft power é a capacidade que um país tem para influenciar a atuação dos players internacionais (como outros Estados, grandes empresas ou grupos de pressão) através, não da força das armas ou do dinheiro, mas da persuasão. A este respeito vale a pena olhar para o relatório publicado recentemente pela Brand Finance onde se faz uma análise dos países com base nesta perspetiva.
Portugal surge na 28.ª posição num ranking que é liderado pela Alemanha e Japão (curiosamente, ou talvez não, as duas grandes potências derrotadas na Segunda Guerra Mundial), a que se seguem o Reino Unido, o Canadá e a Suíça. A referida classificação tem por base um conjunto de critérios que vão desde o potencial económico à cultura e qualidade de vida, passando pela notoriedade, reputação e grau de influência na cena internacional.
Das múltiplas conclusões, sobressaem duas que vale a pena salientar. Em primeiro lugar, a imagem que Portugal tem junto de especialistas estrangeiros (gestores, jornalistas, políticos, académicos...) é melhor do que a que consegue junto do público em geral. O que evidencia bem a necessidade de uma política mais agressiva em termos da gestão da Marca Portugal. Por outro lado, os domínios onde o nosso país se encontra melhor posicionado prendem-se com a cultura, a história e, em especial, as pessoas. O que vem na linha daquilo que já tem sido referido neste espaço: o melhor de Portugal não é a sua economia, não é o seu modelo de governação nem tão-pouco a sua política de relações internacionais. O melhor de Portugal são os Portugueses.
Somos um país de 10 milhões de habitantes com uma economia que, sendo desenvolvida, não tem o músculo financeiro de outras. Isto não significa que a nossa capacidade de intervenção na cena internacional seja limitada. Certamente que não o será pelas armas ou pelo dinheiro - terá de ser pelo exercício do soft power.
Termos um português como secretário-geral da ONU ou assumido a presidência da Comissão Europeia (para não falar de outros bons exemplos) mostra que estamos no bom caminho. Mas com uma presença cultural, feita de ligações económicas, sociais e políticas centenárias, em praticamente todos os continentes, o reforço da capacidade de intervenção de Portugal na cena internacional não é uma oportunidade, é uma obrigação.
Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense