A vida continua

O ano de 2016 é um ano desparafusado. Creio que é algo que todos sentem como verdadeiro
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A vida continua”, digo a frase sem muita convicção, ela sai-me da boca sem ter passado antes pelo coração. Mas fica a ecoar no meu ouvido. “A vida continua”, claro, para os que ficam.

O taxista com quem converso insiste nos pêsames. Ele está verdadeiramente tocado com a notícia da queda do avião com a equipa de futebol do Chapecoense. Pergunta-me se já fui a Chapecó. Sinto--me um pouco culpado ao responder que não, que o Brasil é muito grande, Santa Catarina é um estado lá do Sul e outras platitudes do género.

Quando morreu o Ayrton Senna foi o mesmo. Passei dias a ser reconfortado por desconhecidos assim que o meu sotaque denunciava as minhas origens. É notável a capacidade dos portugueses em sentir empatia com as dores alheias. Não conheço mais nenhum povo assim. É um dos motivos que me dá tanto gosto viver aqui.

Ao pensar nisto recordo-me que estou a fazer 26 anos de Portugal. Mais de um quarto de século separa-me daquele frio 1 de Dezembro de 1990 quando saí do aeroporto da Portela direto para o Marquês de Pombal.

A minha Lisboa começou a existir quando vislumbrei o prédio do Diário de Notícias. Não imaginava que ainda iria lá trabalhar, além de preencher com os meus textos centenas de suas páginas em muitos anos como cronista.

“A vida continua”, repito mentalmente a olhar para fora pela janela do carro. Reparo num cartaz de um anúncio que criei. Uma das coisas boas de ser publicitário é poder ter o seu trabalho exposto na rua. Modéstia à parte, acho o cartaz bonito. Sinto uma ponta de orgulho e um certo agradecimento por estar vivo.

É essa gratitude que remete-me outra vez para a tragédia do avião. Há algumas semanas havia aqui escrito que 2016 estava a ser “o ano de todos os lutos”. Era uma crónica com algum humor. A frase continua a fazer sentido, embora não tenha mais graça alguma.

O grande Ferreira Fernandes escreveu no DN que 2016 é o ano desparafusado. Creio que é algo que todos sentem como verdadeiro. Há algo neste ano que não bate certo, falta-lhe mesmo um qualquer parafuso.

O taxista para o carro, olha-me pelo espelho retrovisor e avisa: “Chegamos ao seu destino.” Não é sua intenção mas devido ao contexto a frase soa-me com um imenso duplo sentido.

Ou como diria o meu Tio Olavo, citando um poema de Mário Quintana: “Nos acontecimentos, sim, é que há destino:/ Nos homens, não - espuma de um segundo.../ Se Colombo morresse em pequenino,/ O Neves descobriria o Novo Mundo.”

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