O Ciclo Natural da Água precisa de ajuda para enfrentar as persistentes alterações climáticas, o aumento populacional no planeta e as crescentes necessidades de consumo, nomeadamente dos bens escassos essenciais, como a água de origem.
Não podemos tirar a "água" das nossas preocupações sempre que começa a chover por umas horas. A água deve estar sempre presente na agenda da década, numa perspetiva circular e sustentável. Todos os alertas que foram feitos ao longo da 6ª edição do "O Caminho da Inovação", que decorreu na Fábrica da Água de Alcântara, em Lisboa, no passado dia 4 de outubro, ilustram com casos reais e soluções testadas que a mudança de mentalidade face ao uso e produção de água é fundamental para a sustentabilidade económica, social e do Planeta. É imperativo não esquecer o aviso do Ministro do Ambiente e Ação Climática, Duarte Cordeiro, para o "efeito devastador" que uma redução em 15% da precipitação em Portugal poderá ter. É crucial relembrar os números revelados pelo fundador do Instituto de Marketing Research, João Ferreira: só um em cada três portugueses adota comportamentos para poupar água, embora praticamente 80% da população esteja muito preocupada com as alterações climáticas e o impacto na água. É urgente agir e inverter esta realidade: passar de "preocupação" para "ação"!
A tendência é para que a chegada da chuva adormeça o tema da seca até ao início do verão do ano seguinte, altura em que se volta outra vez a discutir soluções para combater a falta deste recurso. Mas hoje é preciso pensar nesta temática durante todo o ano o que, infelizmente, com o tempo quente que se vai sentindo em pleno outono, o próprio "clima" obriga-nos a estar ligados a este tema praticamente todo o ano.
Tudo muda muito depressa e no período de transição que estamos a viver (de modelos lineares para circulares) torna-se cada vez mais essencial fazer ter uma ação coletiva e envolver em parcerias dinâmicas municípios, setor privado e academia. Todos temos em comum os mesmos desafios básicos.
Depois de dois anos em formato digital de "O Caminho da Inovação", este ano pudemos trazer fisicamente oradores que personificam percursos de sucesso neste paradigma da economia circular e juntar parceiros com quem estamos a desenvolver projetos inovadores.
São exemplos de projetos pioneiros a rega com água+ (água reciclada) na zona onde vai decorrer a Jornada Mundial da Juventude em agosto de 2023 ou reutilização de água reciclada para a rega do aproveitamento hidroagrícola da Várzea de Loures - a que se juntam outras iniciativas já existentes como a reutilização da água no Parque das Nações ou a rega de campos de golfe na região do Oeste. Estes exemplos fazem-nos afirmar com orgulho "nós temos água+", uma alternativa credível para fins não potáveis.
A água reutilizada está no centro destes projetos, não fosse esta uma forma de combater a escassez deste recurso com uma matéria-prima que nos chega mesmo aqui ao lado. A água reciclada tem qualidade, é tratada e pode servir para usos não potáveis, como a limpeza das ruas, na climatização das indústrias, rega de espaços verdes e na agricultura e zonas urbanas. Esta reutilização retira pressão sobre o sistema de consumo humano e permite salvaguardar a origens de água natural para os fins mais nobres: as pessoas! Que sentido faz gastar água potável a lavar o carro ou nas descargas das sanitas, quando todos os anos a Fábrica da Água recicla 2,5 milhões de metros cúbicos de água que podem servir para estes propósitos?
Esta solução não é uma novidade, mas sim uma realidade por todo o mundo, destacando Israel onde cerca de 70% da água residual é tratada e usada para rega.
Como forma de consolidar esta cultura de cooperação, este foi mais um ano em que premiámos ideias emblemáticas através dos Desafios à Inovação que fazemos às comunidades envolventes todos os anos., onde o projeto "Aplicação da Realidade Aumentada em Fábricas da Água" conquistou o terceiro lugar! Em segundo destacou-se o projeto "SASA - Conceção e Desenvolvimento de um Sistema Automático de Separação de Amostras" e o primeiro prémio foi para o projeto "EcoTelas - Reutilização das Telas do Filtro de Banda". No próximo ano e nos seguintes, queremos voltar a entregar troféus a empresas, investigadores ou qualquer indivíduo que apresente soluções que vão ao encontro dos nossos desafios, que são muitos e novos.
Impõe-se continuar a trabalhar para simplificar os processos de tratamento de águas residuais, otimizando o consumo de recursos e valorizando as matérias-primas ao reintegrá-las na economia e sociedade. Diminuir a quantidade de energia que consumimos ou o número de intervenções que temos permitirá poupar custos e, consequentemente, investi-los onde é mais necessário e tornar-nos mais sustentáveis e resilientes. Há um potencial muito grande de desafios que podem servir de arranque ou inspiração a soluções inovadoras. A Tejo Atlântico está presente na inovação e no futuro do setor da água, porque nós temos água+!
Alexandra Serra, Presidente do Conselho de Administração da Águas do Tejo Atlântico