A pandemia atirou milhares de portugueses para o trabalho remoto durante meses a fio e assim poderá continuar nos próximos, mas são poucas as ocupações que poderão ser desempenhadas totalmente à distância.
Ontem, em 45 concelhos do país, onde vivem quase 4 milhões de portugueses, voltaram a ter teletrabalho obrigatório "sempre que as funções o permitam", ou seja, que a atividade permita o desempenho à distância, em casa ou noutra morada. Neste caso, não há necessidade de acordo entre o trabalhador e a empresas.
A crise sanitária de covid-19 veio acelerar uma tendência que já vinha de trás, defendem os especialistas. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE), por exemplo, acredita que a pandemia pode ser "um catalisador" para "maior adoção de práticas de teletrabalho também após a crise", apesar de reconhecer que os "efeitos líquidos sobre a produtividade e outros indicadores são incertos", refere num relatório publicado no ano passado.
De acordo com os cálculos do Instituto Nacional de Estatística (INE), no ano passado, o potencial de teletrabalho abrangia 33,6% dos empregos, mas apenas foi utilizado por 15,6%, ou seja, praticamente metade.
"A gestão da pandemia no contexto nacional tem sido pautada pelo estabelecimento de medidas específicas para limitar a propagação que procuram, sobretudo, diminuir os contactos sociais, restringindo as movimentações das pessoas, mas também incidindo em novas formas de organização do trabalho, fazendo prevalecer, sempre que possível, o teletrabalho", começa por indicar o gabinete estatístico nacional. "Neste contexto [de pandemia] importa analisar o indicador relativo ao potencial de utilização do teletrabalho e da sua diferenciação em termos regionais e de acordo com a intensidade de urbanização dos territórios", acrescenta.
Para chegar a este valor, o INE utiliza o índice de teleworkability usado pela OCDE, considerando o nível 2 da Classificação Internacional de Profissões (ISCO) que abrange profissões qualificadas e altamente qualificadas, sem necessidade de exercício da função presencialmente.
Neste lote incluem-se atividades de informação e comunicação, banca, seguros, consultoria ou administrativas. Mas é no primeiro caso em que a prevalência do teletrabalho é mais expressiva. De acordo com o INE, mais de dois terços (66,9%) dos trabalhadores das atividades de informação e comunicação estiveram em regime de trabalho à distância, entre abril e dezembro do ano passado. Também fora do escritório estiveram quase metade dos trabalhadores das atividades financeiras e de seguros (47,6%).
Na repartição territorial, a potencial de utilização do teletrabalho é maior nas áreas urbanas, com a região de Lisboa a surgir como a única acima da média nacional, e o Alentejo a apresentar a "menor expressão", assinala o INE.
"A segmentação de acordo com a intensidade de urbanização mostra que este potencial era mais elevado nas áreas predominantemente urbanas (36,7%) do que nas áreas predominantemente rurais (22,6%) ou do que nas áreas medianamente urbanas (25,6%), sugerindo maior potencial de utilização do teletrabalho na população empregada em territórios mais urbanizados", indica o gabinete de estatística.
No ano passado, cerca de um terço dos empregos tinha potencial para passar a regime de teletrabalho, "tendo em conta as diferentes características das profissões e do seu exercício, sendo certo que existem atividades que não podem ser exercidas à distância e outras que, fazendo uso das novas tecnologias e plataformas digitais de comunicação, podem facilmente ser exercidas a partir de casa", assinala o INE.
Desde 2011 até 2020, o gabinete de estatística nota um aumento "da população empregada em profissões com maior potencial de utilização do teletrabalho, registando este indicador 33,6% do total de população empregada em 2020, mais 6,1 pontos percentuais do que em 2011". Tendo em conta este valor e o número de pessoas empregadas em 2020, estamos a falar de 1,6 milhões de trabalhadores.
Ao longo do ano passado, entre abril e dezembro de 2020, em média, 15,6% da população empregada esteve em teletrabalho, indicam os dados do INE divulgados em abril.