Pergunte-me qual é o meu filme favorito e eu digo logo: Rocky
(1976). Sylvester Stallone a correr pelos 72 degraus acima do Museu
de Arte de Filadélfia, fato-de-treino cinzento-ratazana, velho e
gasto, fita encarnada e encardida à volta da cabeça, mãos atadas
com gaze branca a desprender-se, dezenas de crianças a correr atrás
do herói italo-americano. Haverá alguma coisa mais aspiracional?
Já sei: se estamos a falar de filmes de boxe, o Touro Enraivecido
(1980), com Robert de Niro na pele de Jake LaMotta - o triturador de
adversários -, talvez seja melhor do ponto de vista cinematográfico.
Entre Scorsese e Stallone, inclino-me logo para Scorsese - mas depois
hesito, paro, olho e escuto. E volto a correr para Rocky. Acho até
que o canal Hollywood foi inventado só para que pudéssemos ver pelo
menos uma vez por mês Rocky e lembrar aquele uivo do pugilista
quando se recorda da mulher, a mosca-morta Adriana: "Adriaaaaana!"
Uau! A partir desse instante percebi que é possível encontrar
razões para admirar um tipo chamado Silvestre. Quando o canal
Hollywood não passa o filme - o que, lamentavelmente, já aconteceu
-, vou ao YouTube rever a cena e receber a minha dose mínima de
optimismo simplório, mas muito gratificante.
Não me interprete mal. Eu nem sou particularmente fã de
pugilismo. Nunca vi nenhum combate ao vivo nem nunca quis ir ver um,
apesar de, todos os anos, quando há o habitual combate do século (o
boxe é um desporto tão duro que um ano vale cem dos nossos), faço
sempre o impossível para não perder nada do que se escreve e mostra
sobre o assunto. Esta madrugada, por exemplo, quero ver o combate
entre "Money" Floyd Mayweather e o mexicano Victor Ortiz
(Sport TV2, 02.00).
Se não sabe quem é este senhor impressionante, leia o último
parágrafo do perfil que publicamos na página 12. Leia e saboreie,
palavra a palavra, e vai ver que volta logo ao início para ler a
história toda. Escrita a partir do ginásio que "Money"
tem na zona pobre de Las Vegas, entre putas e tóxicos, a vida de
Mayweather interessa-me pela mesma razão que Rocky ainda me faz
estremecer. A palavra é simples: aspiracional. Alguém que, contra
todas as probabilidades, encontra um caminho e finta o destino.
"Eu ficava na cama, na altura com nove anos - conta o
pugilista -, e dizia: 'Quero ser o homem mais rico do mundo.'
Percorri um longo caminho desde aí. Certo, sou pretensioso. Mas
tenho razões para isso. Continuo zangado e dedicado. Pertenço ao
grupo de pessoas muito fortes."
E sabe que mais? Mayweather, com a habitual troika de calamidades
- mãe drogada, pai bêbedo, família desgraçada -, juntou-lhe outra
praga de gafanhotos. Ele tinha e tem as mãos pequenas, mesmo
pequeninas. Mínimas. Eu também tenho as mãos pequenas, mas não
ganho a vida ao murro. Para um pugilista, não é um grande sinal.
Imagine as dificuldades: "O miúdo é rápido, mas já viste bem
as mãos dele? Onde estão? Ficaram nas calças?" Floyd ignorou
as sentenças que lhe diminuíam a vontade. E ganhou tudo. Limpou
todos os títulos. Derrubou todos os que lhe apareceram pela frente.
(Precisamos de um ministro das Finanças assim.) As mãos de Floyd
são pequenas, mas ele tem um orgulho brutal nelas.
Escrevo sobre isto porque as mãos são instrumentais: simbolizam
as pessoas que fazem e têm vontade. Mãos concretizadoras e
curiosas, mãos que vão à luta. Com o tempo, sei que corro o risco
de me tornar uma espécie de evangelizador (aleluia!) das pessoas
(aleluia!) que fazem coisas (aleluia!) e lançam ideias (duplo
aleluia!). Aceito a observação, talvez haja aqui alguma histeria.
Mas, repare bem: o assunto desta crónica está realmente nas suas
mãos. Com a economia de joelhos, só há dois resultados: ou dá ou
leva. Como diz Rocky, o filósofo: "Porque quero lutar? Porque
não sei cantar ou dançar." Simples, não é?