

As taxas de juro de referência da Zona Euro, cuja principal é agora a taxa de depósito, foram reduzidas em 0,25 pontos percentuais, esta quinta-feira, anunciou o Banco Central Europeu (BCE). Trata-se da primeira grande descida transversal de taxas desde início de 2016, ou seja, há mais de oito anos que não acontecia algo desta magnitude.
Olhando apenas para a taxa de depósito (taxa depo), é a sua primeira redução em quase cinco anos e a maior desde o pináculo da crise do euro, em meados de 2012, vai fazer 12 anos.
Em setembro de 2019, o BCE reduziu a facilidade ou taxa de depósito para o valor mais baixo de sempre (uma taxa negativa de 0,5%), de forma a incentivar os bancos a não depositarem reservas no BCE e fornecerem antes crédito muito barato à economia, famílias e empresas. Para consumir, comprar casas ou investir.
No entanto, nessa altura (2019) o corte na taxa depo foi de apenas um décima percentual. É preciso recuar a julho de 2012 para encontrar uma redução da mesma magnitude da que foi hoje decidida (-0,25 pontos percentuais).
Segundo o BCE, esta taxa de depósito passou a ser o indicador mais adequado para medir o custo efetivo, de facto, do dinheiro que circula na zona euro e que, no fundo, serve para emprestar ou aforrar, bem como uma forma de monitorizar o poder de transmissão da política monetária. Mais detalhes e explicações aqui.
De acordo com o que foi decidido esta quinta-feira, em Frankfurt, a taxa depo desce do atual máximo histórico de 4% para 3,75%.
Em comunicado, o conselho do Banco Central Europeu (BCE) reunido em Frankfurt "decidiu hoje reduzir as três taxas de juro diretoras em 25 pontos base [0,25 pontos percentuais]".
Razões
Tendo avaliado "as perspetivas de inflação", "a dinâmica da inflação subjacente [que não conta com os preços da comida e da energia]" e "a força da transmissão da política monetária", o BCE diz que "é agora apropriado moderar o nível de restritividade da política monetária, após as taxas de juro terem sido mantidas constantes durante nove meses".
As três taxas estavam em máximos históricos (desde que o BCE nasceu, em 1998) ou quase históricos desde setembro do ano passado.
Com a decisão desta quinta-feira, as três taxas de juro do BCE caem 25 pontos base, como referido.
A taxa de juro das operações principais de refinanciamento [taxa refi], a taxa de juro da facilidade permanente de cedência de liquidez e taxa da facilidade permanente de depósito [taxa depo] "serão reduzidas para, respetivamente, 4,25%, 4,5% e 3,75%, com efeitos a partir de 12 de junho de 2024".
O BCE observa que desde a reunião de setembro de 2023, "a inflação desceu mais de 2,5 pontos percentuais e as perspetivas de inflação melhoraram significativamente".
"A inflação subjacente também abrandou, reforçando os sinais de enfraquecimento das pressões sobre os preços, tendo as expectativas de inflação baixado em todos os horizontes".
Frankfurt congratula-se pelo facto de a política monetária ter mantido "as condições de financiamento restritivas.
"Ao atenuar a procura e manter as expectativas de inflação bem ancoradas, deu um contributo importante para a descida da inflação", afirma o BCE.
Salários preocupam, inflação prevista sobe, crescimento também
No entanto, apesar deste sinal de descida nos juros, que muitas famílias, empresas e políticos há muito tempo reclamavam, o BCE alerta que "não obstante os progressos realizados nos últimos trimestres, as pressões internas sobre os preços permanecem fortes, dado que o crescimento dos salários é elevado".
Assim, para o BCE é "provável que a inflação se mantenha acima do objetivo durante grande parte do próximo ano".
"As mais recentes projeções elaboradas por especialistas do Eurossistema para a inflação global e a inflação subjacente foram revistas em alta para 2024 e 2025, em comparação com as projeções de março."
Os economista desta rede formada pelo BCE e restantes bancos centrais nacionais "projetam agora que a inflação global seja, em média, de 2,5% em 2024, 2,2% em 2025 e 1,9% em 2026".
"Relativamente à inflação excluindo preços dos produtos energéticos e dos produtos alimentares [subjacente], projetam uma média de 2,8% em 2024, 2,2% em 2025 e 2% em 2026", revela o banco central presidido por Christine Lagarde.
Já a vitalidade da economia parece estar a ganhar alguma cor, mas muito pouca tendo em conta o ritmo muito baixo da atividade, sobretudo este ano.
Esta quinta-feira, o BCE revelou que, segundo as novas previsões de junho, o crescimento económico da Zona Euro deverá aumentar para 0,9% em 2024 (em março previa 0,6%), mas o crescimento previsto para 2025 foi revisto em baixa ligeira de 1,5% para 1,4%. O valor de 2026 ficou na mesma (1,6%).
Esvaziamento dos programas de dívida pública continua
Os programas extraordinários lançados desde 2014 (crise do euro) e 2020 (pandemia) continuam a ser esvaziados, com o BCE e restantes bancos centrais nacionais a venderem o que ainda têm em dívida pública dos países.
Estes programas, que muito ajudaram países como Portugal a conseguir baixar as taxas de juro soberanas e a despesa com juros (fazendo menor pressão sobre as contas públicas), estão na sua fase final.
A carteira do APP (o gigantesco programa de compra de ativos, APP - asset purchase programme, lançado para terminar com a crise do euro) "está a diminuir a um ritmo comedido e previsível, dado que o Eurossistema deixou de reinvestir os pagamentos de capital de títulos vincendos [que chegam à maturidade]", reafirma o BCE.
Quando ao enorme programa de compras de dívida erguido para ajudar os governos a pagar as medidas de combate aos efeitos da pandemia, logo a partir de março de 2020, o esvaziamento continua, mas de forma mais suave pois o BCE ainda não terminou a fase dos "reinvestimentos" das obrigações até que elas atinjam a maturidade.
Assim, "o BCE confirmou hoje que reduzirá as posições do Eurossistema em títulos adquiridos ao abrigo do programa de compra de ativos devido a emergência pandémica (pandemic emergency purchase programme – PEPP), em média, em 7,5 mil milhões de euros por mês durante o segundo semestre do ano".