"Bons sinais" da América dão fibra à Polopiqué

Grupo têxtil reforça instalação de energias renováveis, com investimentos de 10 milhões de euros até 2024. Atrasos na assinatura do contrato do PRR geram descontentamento
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Apesar da recessão que se avizinha no mercado europeu, a Polopiqué, um dos principais grupos têxteis nacionais, encara 2023 com um otimismo "pouco habitual", em resultado dos "bons sinais" que chegam do outro lado do Atlântico, onde duplicou vendas. Além disso, o grupo de Caldas de Vizela está "bem posicionado" para beneficiar da estratégia de deslocalização de encomendas da Ásia para a Europa

Um otimismo que se prende também com o facto de 2022 ter sido um "ano terrível", e com a convicção de que pior do que os últimos anos (com a pandemia e agora o disparar da inflação fruto da guerra na Ucrânia) é difícil. "Também, o que nos poderia acontecer mais?", questiona o CEO da Polopiqué, Luís Guimarães.

Com um volume de negócios de 110 milhões em 2021, a Polopiqué deverá, este ano, registar uma quebra na ordem dos 10%, em resultado da incapacidade de passar para os clientes todos os aumentos de custos suportados. Só a fatura energética foi de 10,5 milhões, no acumulado de janeiro a outubro, quando o normal era rondar os quatro.

Já para não falar no triplicar dos preços dos materiais. "Há matérias-primas na área da tinturaria e acabamentos que continuam a aumentar todos os dias, são autênticos cartéis, fazem o que querem", diz Luís Guimarães.

Com uma taxa de exportação de 97%, a Polopiqué tem em Espanha o seu principal mercado, que vale cerca de 65 dos 100 milhões que deverá faturar este ano. Destes 65 milhões, o grupo Inditex assegura 80%, o que não preocupa o empresário. "Somos parceiros há muitos anos e continuaremos a ser. Temos é de crescer noutros países. Temos capacidade e estamos a investir para isso", diz.

O mercado americano, para onde vende vestuário e tecidos, vale 15% das vendas do grupo, e é maioritariamente no segmento dos tecidos que a Polopiqué está a crescer, duplicando vendas nos EUA. "A pandemia impediu-nos de visitar clientes e isso gerou uma certa estagnação dos negócios, mas este ano já voltámos a sentir o crescimento da procura."

E depois de cinco milhões investidos, em 2021, em equipamentos na área da tinturaria - é dos poucos grupos totalmente verticalizados na têxtil, assegurando desde a fiação à confeção -, a Polopiqué tem um plano ambicioso de investimentos, de oito a dez milhões de euros, até 2024, todos dedicados à sustentabilidade. Ano em que espera estar a faturar 130 milhões.

Além de projetos para o reaproveitamento total das águas na tinturaria, o grupo vai investir na instalação de painéis solares e de caldeiras de biomassa. "Temos 2 MW (megawatts) de painéis já em funcionamento e estamos a pensar colocar mais 4 a 5 MW. Não ficamos ainda autossuficientes, mas já será um apoio muito grande", frisa Luís Guimarães. Além disso, a Polopiqué lidera um projeto de 97 milhões no âmbito das Agendas Mobilizadoras do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que prevê o desenvolvimento de soluções tecnológicas de ponta e a criação de fiações para a produção de fibras naturais e de fibras recicladas.

Dos 97 milhões, as empresas envolvidas, designadamente a Calvelex, Paulo Oliveira e Riopele, assumem a responsabilidade de 82,7 milhões. Luís Guimarães não esconde o seu desagrado com o impasse no projeto, apontando "falta de vontade política": "Está tudo tratado já há algum tempo, estamos para assinar o acordo com o governo há não sei quantos meses para avançarmos", diz.

A criação da única fiação de linho 100% natural na Europa é uma intenção ainda anterior à pandemia, mas a covid-19 impediu o seu desenvolvimento, já que os equipamentos virão de Wuhan, a cidade na China onde terá começado a disseminação do coronavírus. "A covid atrasou-nos e complicou-nos um sem número de coisas. Mas, para o ano, teremos já o serviço da dívida estabilizado e, a partir de 2024, estaremos numa situação mais cómoda para avançarmos, sozinhos ou acompanhados, com PRR ou sem ele", sustenta.

As novas fiações deveriam estar a funcionar em 2025, mas o empresário já duvida. E, caso avance sozinho, admite que a linha de reciclados ficará algum tempo em stand-by. "Fomos dos primeiros em Portugal a fazer um acordo com um fundo americano que comprou uma patente em Espanha para a transformação [de tecidos] em fios reciclados, mas não estamos a ter o sucesso que esperaríamos. Fala-se muito de sustentabilidade e de reciclagem, mas atua-se pouco", frisa.

A falta de mão-de-obra disponível, sobretudo de costureiras, é um dos principais problemas apontados pelo CEO da Polopiqué, que subcontrata 85% da confeção de vestuário em Marrocos. "Trabalhamos com séries grandes, temos que ir para locais com empresas com muita gente. Gostaríamos muito de produzir mais cá, mas é impossível. Falta músculo às unidades em Portugal. O que existe são tudo micro e pequenas empresas e isso não dá escala às operações", diz.

Por isso, Luís Guimarães admite, a curto prazo, começar a trazer trabalhadores da Índia, Paquistão, Nepal ou Sri Lanka, para manter as suas unidades a funcionar em pleno. "A sobrevivência da têxtil depende de se conseguir importar trabalhadores. É uma indústria que está envelhecida e cansada, porque se trata de gente que começou a trabalhar muito cedo. Tenho funcionários que têm 60 anos e trabalham há 50, tinham todo o direito a já estarem reformados", defende.

O empresário não poupa críticas à "falta de visão" dos políticos, que não percebem que o país precisa de indústria para sobreviver. "Vi os dados há dias, só 18% do nosso PIB é assegurado pela atividade industrial, isso é baixíssimo, não faz sentido. A base de sustentabilidade de um país é a produção, sem ela não se cria riqueza. E assim continuaremos endividados toda a vida", argumenta.

A elevada carga fiscal é outra das suas discordâncias. "Não são os salários, baixos ou altos, que vão afetar a têxtil. As empresas só têm a lucrar em pagar bem aos seus funcionários. Não podemos é ter trabalhadores bem pagos e, ao mesmo tempo, estar a pagar encargos brutais", afirma. Além do aumento salarial no início do ano, e face ao disparar da inflação, a Polopiqué reforçou o subsídio de alimentação dos trabalhadores, a partir do verão, que passou a ser pago em cartão, para evitar agravamento fiscal para os funcionários. E tem outras medidas em estudo, que apresentará brevemente.

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