Passar o estreito portão da Casa da Pérgola é como cruzar um portal. Ali no recém-estreado Bougain, a frescura do jardim é intemporal e uma refeição nunca é coisa singela. O que ajuda a explicar que, desde o dia em que abriu, a 13 de abril, o irmão caçula do histórico Café de São Bento não tenha tido mesas livres - há até lista de espera para alturas mais concorridas, como os fins de semana. Às mãos de Miguel Garcia, que fez a primeira vida a gerir hotéis de luxo e há um par de anos decidiu mudar-se para a restauração pela porta grande - a tempo de cumprir os 40 anos do Café de São Bento com as melhores razões para celebrar -, a bonita moradia implantada num luxuoso jardim no centro de Cascais tornou-se num dos mais extraordinários restaurantes da região..O efeito selva de luxo não se esgota no exterior, estendendo-se a uma sala que parece casa, em que é difícil resistir a instalar-se e deixar-se ficar a conversar à lareira. É cortesia do olho de Miguel, aliado ao engenho da arquiteta Inês Moura, que desafiou para idealizar o espaço que quis construir com os traços de base do quarentão São Bento, mas à medida do que uma localização e um público diferentes pediriam.."Foi tudo feito com enorme detalhe, escolhido a dedo e sem pressas, desde os fornecedores de loiça e talheres aos mosaicos que fazem aqui o bar", conta, apontando e manuseando cada peça conforme me conta como os pratos foram encomendados a uma empresa portuguesa da região centro (que foi obrigada a reforçar a produção porque nunca tinha tido tanto trabalho), as facas conseguidas num leilão em que se despachava o conteúdo completo de um antigo castelo de família em França..O detalhe estende-se ao serviço de luxo, supervisionado atentamente pelo gerente. Cadu (Carlos Eduardo Silva) trabalhou com Miguel Garcia no Copacabana Palace, depois no Tivoli, e porque precisava de quem lhe assegurasse uma sala correspondente à ambição de oferecer um nível que ainda pouco se vê por cá foi a ele que recorreu assim que começou a materializar-se a ideia de abrir em Cascais um espaço que fosse exclusivo e servisse a melhor comida, com preceito..Contas feitas, o investimento no novo espaço de Miguel Garcia - que, apesar do hotel-boutique de 12 quartos que se mantém a funcionar nos pisos superiores da moradia, é feito para portugueses - ascendeu a cerca de 600 mil euros. Mas julgando pela capacidade de atrair e fidelizar clientes à primeira vista, será recuperado sem dar grandes dores de cabeça..Uma selva tropical que convida a perder-se ."A comida é o centro de tudo, é o mais importante", sublinha Miguel, sem desviar os olhos do que se passa à sua volta, afinando ainda a intervalos uma bebida, a posição de um talher. Nada é deixado ao acaso e o Cadu, apresentando sugestões e propostas em português açucarado, "é o cúmplice ideal" para assegurar a excelência que quer ter na nova casa..Essa excelência descontraída, na sedutora esplanada murada em que o vento não entra - e que mesmo no inverno terá serventia assegurada pelos cogumelos aquecedores e robustos chapéus que protegem dos céus - tem sido um chamariz ímpar para uma camada alargada. "Temos desde grupos de amigos ali nos 30 até famílias e casais a puxar os 60", descreve Miguel Garcia, que tem vontade de ali fazer casa habitual para todos eles, moldando a oferta à faixa que cada hora ali atrai. "Por exemplo, ao cair da noite, ao fim de semana, ter boa música mas que permita conversar, servir uns cocktails...".Uma carta de bar com mais de 40 opções à escolha - incluindo uma dezena de gins e uma dúzia de whiskies é sem dúvida um bom princípio. E a arte tranquila de Manuel Frazão afina a orquestra do garden bar com mão de ouro..Comida portuguesa, com certeza."Não inventar" é palavra de ordem para Miguel Garcia - cozidos desconstruídos e caldeiradas reduzidas a espuma não são coisa que o atraia. Peixe fresco, marisco de alta qualidade e carne de primeira linha, pratos clássicos que puxem e valorizem os sabores que temos na riquíssima gastronomia portuguesa são a receita que a chef de serviço, Diana Roque (que já passou por êxitos incontestados como o Feitoria, em Belém, ou o Aldea, em Nova Iorque), leva muito a sério. E que se traduzem em pratos de vender a alma ao diabo, como os camarões com alho e chilli ou as costeletas de borrego, macias como manteiga, como o lírio curado ou o clássico bife tártaro, preparado à moda antiga à frente dos clientes, como o pato confitado ou um arroz de coentros de comer e chorar por mais..Na hora da sobremesa, os gelados Santini são a proposta mais corriqueira, entre a bomba de chocolate e a panna cotta de coco..Uma casa à imagem de Miguel Garcia."O que quero aqui no Bougain é que as pessoas se sintam bem, que estejam confortáveis e fiquem, não se limitem a comer e ir embora", explica Miguel Garcia, traduzindo o efeito que o ambiente ali criado asseguram à primeira vista. Tropical e vintage nunca casaram tão bem e as equipas coordenadas por Cadu, Diana e Manuel não destoam. São mais de duas dezenas de pessoas numa orquestra que nunca toca uma nota fora de tom..Aos 43 anos e a estrear um novo negócio da sua nova vida, Miguel Garcia é a imagem de um empresário realizado. Não sem esforço, mas com a certeza de que cada grama de energia empreendida nos projetos em que pôs a alma são feitos à sua imagem.