Capacitar a moda portuguesa para crescer

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Temos, em Portugal, um conjunto irrefutável de talentos na área da moda que carregam consigo a nossa bandeira em eventos internacionais, tais como as semanas de moda de Milão, Paris ou Londres e abrilhantam as semanas de moda nacionais. Cativam uma audiência interna crescente e de interesse transnacional, que se materializa em parcerias históricas como a que recentemente a ANJE (Associação Nacional de Jovens Empresários), como entidade responsável pelo Portugal Fashion, celebrou com o Afreximbank para a promoção cruzada das Indústrias de têxtil e vestuário Africanas e Portuguesa.

Somos referência Mundial no que toca à Indústria Têxtil e exemplo no que se refere a práticas de sustentabilidade, certificação, inovação e "know-how" beneficiando de um Cluster Têxtil, bastante concentrado no Norte de Portugal. Conseguimos garantir a marcas de todo o Mundo o acesso a uma cadeia de valor completa num raio de pouco mais de 50km que lhes proporciona a melhor qualidade disponível, com preços competitivos e uma experiência de compra com condições excecionais, enquanto reduzem a pegada de carbono pela proximidade entre as várias partes envolvidas e menor risco de exposição a condições logísticas e condicionantes geopolíticas. Numa altura em que os dados mais recentes indicam um aumento das exportações desta Indústria, em especial para mercados como o americano, vemos reforçada esta mais-valia da concentração da Indústria e a promoção de sinergias entre os vários intervenientes que promovam Portugal como o destino perfeito para que a nova tendência de "Nearshoring" se concretize com sucesso.

Torna-se visível a nossa capacidade criativa, industrial e de empreendedorismo, que nos permite transportar para uma escala Global uma área de negócio tão específica desenvolvida num país com imensa experiência, mas que enfrenta as dificuldades de escala normais de quem tem a dimensão que Portugal. Distinguimo-nos e somos reconhecidos pela nossa experiência, pela nossa capacidade de produzir talentos, pelo investimento realizado em práticas de sustentabilidade e pelos projetos inovadores desenvolvidos com recurso a um trabalho exemplar e multidisciplinar de Inovação e Desenvolvimento que beneficiam de centros tecnológicos de excelência como o CITEVE ou CENTI.

Contudo, quando pensamos na partilha de conhecimentos e sinergias entre as várias partes da cadeia de valor, temos ainda um caminho enorme a percorrer. Há ainda muito conhecimento técnico e prático, que a Indústria domina mas que escasseia na formação de base dos nossos designers e das equipas das nossas marcas de retalho. Há ainda muito caminho a percorrer para que a Indústria compreenda, valorize e integre o processo criativo que requer a conceptualização e desenho de uma peça ou coleção completa. Há ainda muita partilha que devemos por realizar para que todos os intervenientes no processo conheçam, compreendam e se adaptem aos calendários de retalho e distribuição, bem como aos requisitos inerentes à crescente necessidade de customização que o negócio online tem promovido. É necessária uma visão e um conhecimento mais holístico, que inclua todas as partes da cadeia de valor.

Para todas estas questões, a resposta está connosco. Somos nós, detentores de todo este conhecimento em cada ponto da cadeia de valor que temos o dever de partilhar, questionar e sermos curiosos para aprender mais sobre o que se passa a montante e a jusante do ponto em que nos encontramos. É esta partilha de conhecimento que nos vai permitir ultrapassar os desafios de dimensão, escalabilidade ou financiamento para, sem receios, vestir o fato de conquistadores e dominarmos o Mundo através de um sector que para nós é como uma arte que nos é inerente e cujos instrumentos detemos sem restrições, mas que carecem de organização.

O conhecimento é um ativo, partilhemo-lo entre nós para que, pelo menos neste sector, o crescimento seja de referência!

Nuno Malheiro, co-diretor da Pós-Graduação em Fashion Management da Católica Porto Business School