

Num cenário de escalada global das tensões geopolíticas, que estão a desacelerar o comércio global, a Boston Consulting Group (BCG) prevê “disrupções substanciais”, com o aumento de custos e da imprevisibilidade. Mas Carlos Elavai, numa entrevista por escrito ao Dinheiro Vivo, considera que também há oportunidades que Portugal deve aproveitar. “Portugal tem características chave que nos podem ajudar a beneficiar de algumas destas disrupções, servindo de base às cadeias de abastecimento do futuro”, afirma o partner da BCG.
Quais os principais riscos geopolíticos à atividade empresarial global nesta altura?
Atualmente, as perturbações empresariais de origem geopolítica estão a aumentar em volume e intensidade. Desde a guerra na Ucrânia até aos confrontos militares no Médio Oriente, as tensões com a China, bem como as mudanças políticas nos Estados Unidos da América e na Europa, o potencial para mais disrupções é significativo. Os riscos geopolíticos centram-se na crescente fragmentação global e exigem uma resiliência acrescida do lado das empresas, uma vez que podem provocar transtornos severos nas cadeias de abastecimento e aumentar a volatilidade da procura. Neste contexto, no estudo “Geopolitical Risk Is Rising. Here’s How CEOs Can Prepare”, a BCG desenvolveu quatro potenciais cenários evolutivos das tensões geopolíticas - regresso ao futuro, proliferação de conflitos regionais, rivalidade multipolar e escalada global de conflitos -, que procuram ser quadros informativos para avaliar a direção das dinâmicas globais e ajudar os líderes empresariais a reforçarem o seu sentido de orientação e estratégia numa economia global imprevisível. Dada a atual conjuntura, o cenário mais plausível é a rivalidade multipolar, onde vários blocos de países coexistem numa dinâmica reequilibrada, as grandes potências evitam conflitos diretos, as rotas comerciais adaptam-se a novas estruturas políticas e económicas e a inflação é superior aos níveis pré-pandémicos, com a maior fragmentação a gerar alterações significativas no comércio mundial. A par deste, outro quadro verosímil é a proliferação de conflitos militares regionais específicos, com um envolvimento limitado das grandes potências, onde as cadeias de abastecimento são afetadas pela instabilidade geopolítica em curso e é gerado um risco acrescido de volatilidade nos preços das matérias-primas.
Que impacto prevê que possa vir a ter o resultado das próximas eleições norte-americanas na economia global?
Tendo em conta que os Estados Unidos da América são um ator importante no tabuleiro militar, no comércio internacional, nos fluxos de investimento e nas tendências económicas, é expectável que as eleições que se aproximam tenham impactos na economia global, podendo afetá-la profundamente consoante as políticas adotadas pela nova administração. Desta forma, é esperado que existam decisões estruturantes relacionadas com políticas industriais, tarifas comerciais, alianças geopolíticas e regulação de cadeias de abastecimento que irão intensificar ou aliviar as atuais tensões e influenciar diretamente a atividade económica, o comércio global e a estabilidade política.
As tensões geopolíticas estão a conduzir a uma desaceleração do comércio global? As taxas de crescimento hoje em dia já não são o que eram?
Sim, as tensões geopolíticas estão a desacelerar o comércio global. As taxas de crescimento não são as mesmas de décadas passadas por vários fatores, entre os quais se destaca a fragmentação das rotas comerciais e crescente rivalidade entre blocos económicos. Um outro estudo recente da BCG, intitulado “Jobs, National Security, and the Future of Trade”, prevê que o comércio deverá crescer a um ritmo mais lento do que a economia durante a próxima década, sendo expectável que o seu incremento seja de 2,8% ao ano, enquanto o PIB mundial deverá subir 3,1% ao ano no mesmo período. O cenário de “rivalidade multipolar”, previsto no mais recente estudo da consultora sobre esta temática, “Geopolitical Risk Is Rising. Here’s How CEOs Can Prepare”, vai ao encontro destas conclusões e espelha a adaptação das rotas comerciais à atual realidade global, e potencial agravamento da mesma, o que acaba por resultar em menor crescimento e em pressões inflacionárias.
São de prever novas disrupções nas cadeias de abastecimento globais?
Sim, é provável que existam novas disrupções. A fragmentação política e económica a nível global, assim como o potencial aumento de conflitos regionais, colocam uma pressão acrescida no acesso a matérias-primas e capacidade produtiva, bem como nas cadeias de abastecimento a jusante, o que conduz à necessidade de reavaliar as rotas comerciais e adaptá-las com base numa antecipação de possíveis impactos decorrentes destes conflitos. No cenário de escalada global das tensões geopolíticas, projetamos disrupções substanciais, especialmente no que concerne ao comércio de bens essenciais, aumentando os custos e a imprevisibilidade.
Como se devem preparar as empresas para esse perigo sempre à espreita?
Perante uma realidade global económica e geopolítica imprevisível e volátil, é fundamental que as empresas desenvolvam o “músculo” de monitorizar continuamente os desenvolvimentos e criem/atualizem planos de contingência robustos. A BCG recomenda a criação de equipas especializadas em geopolítica, a diversificação das cadeias de abastecimento e o desenvolvimento de sistemas de alerta precoce para mitigar potenciais riscos, uma vez que a capacidade de resposta rápida e flexível será essencial.
Identifica desafios específicos para as empresas em Portugal?
Em Portugal, a dependência de mercados externos e a exposição às cadeias globais de abastecimento representam um desafio significativo. A possibilidade de existir uma escalada de tensões pode dificultar o acesso a mercados internacionais e afetar setores exportadores, nomeadamente os relacionados com os produtos ou países mais impactados. Neste sentido, é imperativo que as empresas avaliem os riscos e impactos mais prováveis, bem como as situações em que estão mais dependentes de uma única origem/fornecedor para colocarem em prática ações de diversificação, de substituição de matérias-primas, de revisão dos mercados em que estão presentes e do respetivo modelo de distribuição, de estabelecimento de novas parcerias, de adequação das relações comerciais e respetivos contratos, entre outros.
A atual configuração política em Portugal pode ter impacto sobre as decisões de investimento por parte das empresas?
As recentes eleições legislativas em Portugal trouxeram alguma instabilidade política, nomeadamente devido às dificuldades na formação do Governo, e à incerteza sobre a sua continuidade face às dificuldades de viabilização do Orçamento de Estado para 2025. Não obstante, do ponto de vista económico, Portugal tem-se mantido em crescimento e a atrair investimento. Recentemente, várias agências de notação financeira, como a Moody’s, a Fitch e a S&P, decidiram manter o rating económico de Portugal em níveis sólidos de A3 (no caso da Moody’s) e A- (Fitch e S&P), prevendo alguma estabilidade e uma evolução positiva, nomeadamente o crescimento do PIB em 2024, refletindo um progresso contínuo na redução da dívida pública e uma política fiscal prudente que reduzem as vulnerabilidades do país. Estes fatores são, em geral, favoráveis ao investimento. No entanto, a implementação de políticas que possam responder adequadamente às exigências geopolíticas globais, como a relocalização de cadeias de abastecimento e a transição energética, é crucial para aproveitarmos possíveis oportunidades de mercado.
Quais devem ser as prioridades dos CEO em Portugal nesta altura?
As prioridades dos CEO devem incluir a construção e ativação de uma estratégia transformadora e adaptável às mudanças globais, antecipando diversos potenciais cenários. Os mercados internacionais devem continuar a fazer parte do caminho de crescimento, e Portugal tem características chave que nos podem ajudar a beneficiar de algumas destas disrupções, servindo de base às cadeias de abastecimento do futuro. A organização deve estar mobilizada para materializar estas oportunidades apoiados numa abordagem sistemática de gestão de riscos. Assim, a BCG recomenda que se concentrem na diversificação geográfica das cadeias de abastecimento, na gestão dos níveis de dependência e no desenvolvimento de competências internas para analisar os cenários geopolíticos emergentes, de modo a conseguir traçar as melhores respostas de forma atempada.
As condições externas para as empresas nacionais que exportam estão a degradar-se, é de esperar um agravamento do contexto internacional?
As condições para as empresas exportadoras estão, de facto, a tornar-se mais desafiantes, numa economia global que é cada vez mais competitiva e num momento em que existe grande incerteza sobre o crescimento da procura e sobre o acesso e os custos das matérias-primas. Também o aumento do protecionismo pode agravar-se devido aos conflitos em curso e no contexto de mudanças políticas importantes nos EUA e na Europa. Dito isto, existem também cenários mais favoráveis que podem beneficiar a relocalização de atividades produtivas em Portugal, bem como aumentar a preferência por produtos portugueses.
Como é que as empresas se devem preparar para que as suas exportações não sejam afetadas?
Com a atual incerteza, o fundamental para as empresas será ir mitigando riscos via diversificação e reagindo de maneira rápida mas ponderada e sistemática aos acontecimentos, que certamente nos continuarão a surpreender. Além disso, deverão continuar a investir em inovação e eficiência, aumentando o valor acrescentado dos seus produtos para se diferenciarem no mercado global. Por fim, qualquer ação depende dos recursos humanos, de talento e de processos ágeis e flexíveis que permitam reagir rapidamente a disrupções nas cadeias de abastecimento.