Desde ovelhas de peluche para adormecer crianças até coleiras para interpretar cães, carros autónomos e frigoríficos topo de gama, tudo o que apareceu na CES 2017 pareceu ter algo em comum: inteligência artificial. Deep learning, machine learning e IA foram jargões em praticamente todas as conferências de imprensa, conversas informais e entrevistas improvisadas na exposição. Uma das maiores feiras tecnológicas do mundo, a CES termina amanhã a edição em que assinalou 50 anos. E aqui se levantou o véu do futuro, mais que em edições anteriores.
“Estamos a assistir a avanços extraordinários na inteligência artificial, carros autónomos de realidade virtual, biometria e muito mais”, disse Gary Shapiro, presidente da Consumer Technology Association, que organiza o evento. “Não devemos temer a mudança”, arriscou, assumindo que a associação pretende trabalhar de perto com a administração de Donald Trump.
Na CES, a Nvidia anunciou a construção de um carro autónomo com inteligência artificial em parceria com a Audi, a Nissan e a BMW, que vão pôr o assistente por voz Cortana nos seus carros. A Samsung pediu desculpa pelo falhanço com o Note 7, a Bosch revelou que vai lançar o robô doméstico Kuri e a Intel detalhou que os seus óculos de realidade mista chegam ao mercado no outono. Na sua keynote, a Huawei revelou que o smartphone Mate 9 está pronto para a plataforma de realidade virtual Daydream, da Google, e passará a integrar o assistente digital por voz da Amazon, Alexa - que, de resto, foi uma das grandes vencedoras do certame. A integração de Alexa em tudo o que é aparelho está na ordem do dia. Porquê? Inteligência artificial é a resposta. De tal forma que a Huawei está a desenvolver um super- -chipset para a nova era. A intenção da empresa, diz o CEO da divisão de consumo Richard Wu, é “acelerar a evolução dos dispositivos inteligentes” com os líderes da indústria: “Smartphone não é suficiente, estes são dispositivos baseados em inteligência artificial.”
Este é também o foco das empresas que estão a investir em carros autónomos. Foi, de resto, a grande tendência de um evento onde houve portáteis de quatro mil euros, wearables para cães, cadeiras de massagem, drones, robôs domésticos, máquinas de lavar conectadas, colunas de som que levitam e auriculares impressos em 3D na hora.
Este ano, a CES recebeu várias empresas portuguesas, todas estreantes à exceção da Aptoide, que já vai no quarto ano de participação. A B2Cloud e a Smartidiom estiveram em Las Vegas pela primeira vez, com stand e vários colaboradores, e duas startups portuguesas de Braga, a Findster e a Criam, marcaram presença na zona Eureka Park. A B2Cloud foi a que mais investiu no evento: “Sendo a maior feira mundial do mercado, achámos que havia todo o interesse em mostrar cá o nosso produto”, diz ao Dinheiro Vivo Amândio Silva, CEO da empresa.
O produto que levou à feira é o Izum, um aparelho da Internet das Coisas todo produzido em Portugal, em Paredes. O utilizador é que escolhe a funcionalidade que quer, parametrizando os sensores através de uma aplicação. “A partir daí, o dispositivo é colocado numa porta se for para segurança, numa braçadeira se for um desportista, etc.” Os sensores de temperatura e humidade podem ser usados para notificar quando o ambiente revela valores fora dos padrões normais de funcionamento e indicam se uma gaveta foi aberta. O produto custa 80 euros, com subscrição que vai de seis euros por mês até 54 euros por ano. “Uma das vantagens é ter diferentes formas de comunicação e a outra é o número de sensores num dispositivo tão pequeno.” A B2 Cloud recebeu mais de cinco milhões de euros no âmbito do Portugal 2020, em dois projetos separados, e tem 16 pessoas.
É um pouco menos em relação à dimensão da Smartidiom, que também se estreou na CES, mas num mercado totalmente diferente. É uma fornecedora de serviços de tradução e interpretação, com foco em áreas técnicas e tecnologias da informação: “O serviço é todo feito por tradutores e linguistas nativos. Toda a nossa equipa de produção é formada na área de tradução”, explica Tiago Cruz.
Ao contrário de outra startup de sucesso portuguesa, a Unbabel, a Smartidiom não usa tradução automática. Na CES, apresentou o novo serviço Plus’n’Go, que simplifica e acelera o processo de contratação. “Para este ano gostaríamos de ultrapassar o meio milhão de euros, um crescimento de 10% em relação a 2016”, adianta o responsável. O volume está a aumentar e, por isso, a empresa, que tem clientes em 22 países, está a contratar. Investiram cerca de 15 mil euros na CES porque esta será “uma porta aberta” para o passo em frente que a Smartidiom quer dar.
Quem já está perfeitamente estabelecida mundialmente é a Aptoide. A empresa de Paulo Trezentos está no top 3 das maiores lojas mundiais de aplicações Android, com cerca de 160 milhões de utilizadores ativos em 2016 e 700 mil apps disponíveis. Estiveram em Las Vegas à procura de fabricantes de dispositivos Android que queiram lançar lojas de apps com a sua própria marca. “Estamos a crescer bastante na parte da Ásia, onde temos operadoras que querem distribuir uma loja de aplicações com a sua própria marca e nós fornecemos a tecnologia e o conteúdo”, explica Carolina Marçalo, diretora de parcerias da empresa. A distribuição é global, mas os mercados mais fortes são a América Latina, Índia, Estados Unidos e Europa.
“Há muitos mercados em que a Google Play não entra. Depois há aplicações que não estão disponíveis no Google Play, e nós temos um mercado em que todo o tipo de apps pode ser disponibilizado”, diz. “Mas o que é mais interessante para uma empresa é que nós somos mais flexíveis. Eles podem ter uma app store com a marca deles, em que têm acesso a um backoffice onde controlam o conteúdo, criam categorias e enviam notificações.”
A empresa tem 70 funcionários em Lisboa, faturou quatro milhões de euros e conta crescer em 2017, com foco na Índia e China. Aproveitou a feira para apresentar a versão 8 da loja e a 3 da plataforma para televisão.
A presença de novas empresas portuguesas na CES confirma o bom momento da indústria tecnológica nacional. Esta é a montra que define o resto do ano, com mais de 175 mil participantes de todo o mundo - e que há muito rompeu as fronteiras da eletrónica de consumo, para se assumir como um farol high tech que guia todas as áreas do mercado.