A evolução das competências profissionais tem levado a uma escassez de mão-de-obra mais qualificada, nos últimos anos e que em 2023 bateu máximos. Para trás tinha ficado a pandemia, que foi uma prova de resiliência e resistência para muitos profissionais, que em muitos casos se reinventaram para não desaparecerem. É certo que a aceleração da transformação digital, em muitos setores, levou a mais qualificação e ao surgimento de novas competências, que funcionaram também como uma oportunidade.
A instabilidade internacional, marcada pela invasão da Ucrânia pela Rússia, pelo conflito Israel-Hamas, e pela política monetária do Banco Central Europeu, com a subida terrível das taxas de juro para travar a escalada da inflação, está já a pressionar o mercado nacional de trabalho e o desemprego começou a subir. Há cinco meses que estão a aumentar os inscritos no IEFP.
O ano de 2024 promete, por isso, ser desafiante para os recursos humanos. Num país com baixos salários e com a subida do custo de vida, com uma crise brutal na habitação e com os apoios do Estado a não serem suficientes para amparar, principalmente, uma classe média já demasiado espremida, só aumentamos a produtividade se tivermos especial atenção aos trabalhadores.
A qualidade das lideranças em Portugal é crucial. Um estudo da investigadora Sara Midões, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP), revela que a empatia é a qualidade mais referida como necessária numa liderança, com três em cada quatro pessoas a apontar esta competência como sendo essencial. Neste quadro de instabilidade económica e social para as famílias portuguesas, como podemos classificar líderes sem empatia, que são incapazes de se pôr no lugar do outro? Sem ações decisivas que combatam a pobreza e as desigualdades sociais, destrói-se também o tecido empresarial, condena-se a economia nacional e empurra-se os mais qualificados para a emigração.
A má liderança tem impacto no bem-estar dos trabalhadores, o que é prejudicial também para as organizações. Para 88% dos inquiridos neste estudo, a liderança tem um impacto na sua satisfação com o trabalho. É por isso imprescindível uma gestão humanizada, culturas de elevada confiança, a aposta em políticas de equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal, e formação dos quadros com novas competências - em linha com as exigências do futuro - e remunerações mais competitivas, sem nivelar por baixo.
Mais do que falar-se na escassez de mão-de-obra, que existe de facto, em 2024 é importante que se avalie a credibilidade das empresas e da gestão empresarial em Portugal, medindo-se também pela relação com os seus trabalhadores. Já não se pode discutir a retenção de talento, a produtividade, não se pode falar de uma sociedade justa sem se avaliar as lideranças e a empatia com os trabalhadores.
Bom Ano, caros leitores!