Como incentivar as crianças a poupar

É algo fácil de intuir que as crianças seguem aquilo que os pais lhes vão transmitindo desde tenra idade, e a poupança é um desses princípios.
Crianças a passear na Fundação Serralves
Crianças a passear na Fundação SerralvesFundação Serralves
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Começar a poupar pode ser com 1 cêntimo, o que é o mesmo que dizer que, para começar, qualquer quantia serve. O que é preciso é ganhar o hábito, ou melhor, as boas orientações que os progenitores vão dando aos filhos ou aos netos.

Poupar na ótica das crianças está longe da poupança de um adolescente, e muito menos de um adulto em idade ativa. Poupar começa por ser uma brincadeira, em que a criança a partir dos três anos deve entrar. Pode ser um monopólio, um dos jogos mais antigos e que se pode tornar didático com compras, vendas, negociações e poupanças. Ou o jogo de ir arrecadando uma moeda de cada vez, que são ofertas dos avós, dos pais, dos amigos dos pais, e que vão enchendo o mealheiro, que geralmente é em forma de porquinho, pois é fácil a ligação da imagem de um animal simpático à riqueza.

A criança pode não saber o valor do dinheiro, mas saberá que quando tiver o seu porquinho cheio de moedas, pretas ou brancas, será mais forte. E com a idade dos cinco anos vai aperceber-se de que está mais rico.

Mas esta aprendizagem da criança que passa pela importância de ter o seu primeiro mealheiro, tem de ser envolvida em outros jogos. Por exemplo, ir ao supermercado com a mãe/pai e fazer o pagamento em numerário, com cartão ou com a aplicação. Começa por ter a noção de que trazer alimentos, roupas, ferramentas ou brinquedos exige dar algo em troca e isso é dinheiro. Começa a aperceber-se de que as moedas e notas permitem ligar o desejo à possibilidade de comprar. A partir do momento em que tenha a noção dos números, a aprendizagem passa pela inclusão da criança no processo de compras da alimentação, com a obrigação de comparação de valores para conseguir o mais barato, ou a comparação de produtos idênticos, mas com preços diferentes.

É outro jogo e pode prosseguir com a realização da lista de compras se, entretanto, começar a escrever ou, se ainda não sabe, poderá desenhar. Vai perceber que ao lançar compras para o carrinho vaio ter de entregar dinheiro. E, por falar em dinheiro, pode aos cinco anos perceber que notas, cartão ou telemóvel significam dinheiro que tem de estar em algum sítio e tem de ser ganho.

Ganhar é uma palavra esquisita, mas a criança apercebe-se que os pais saem de manhã para um trabalho, enquanto ele é entregue no pré-escolar ou no colégio. Ele vai aprender e os pais vão trabalhar porque é necessário ter o tal dinheiro que permite trocar por compras. A sequência está montada, e a criança percebe que o dinheiro resulta do trabalho dos pais ou dos avós, e que o dinheiro não chega para tudo e, daí, terem de ser feitas escolhas. A criança vai ouvir falar do que é mais barato, onde se pode gastar durante o mês e o que tem de ficar para o mês seguinte. A criança acaba a perceber que uns têm produtos e outros o dinheiro para trocar por esses produtos.

Entretanto, fala-se das dificuldades em comprar tudo o que se gosta. Há crianças que vão ao supermercado e colocam no carrinho um chocolate ou as bolachas de que gostam, e os pais reconhecem que durante esta semana não é possível levar aquilo que deseja. Temos os primeiros desgostos, o que irá acontecer ao longo da vida. Mais um dia de aprendizagem do que é o dinheiro e do que é a poupança.

Aliás, esta palavra incómoda vai surgir desde muito cedo, pois será necessário poupar para os livros escolares, para a viagem de estudo, para a roupa de inverno/verão, ou para as férias junto da praia. Com certeza que ainda será cedo para a criança intuir que os pais estarão a pensar no futuro da reforma, e muito antes disso estarão a pensar no custo da universidade e na ajuda que terão de dar à criança quando esta atingir a maioridade e precisar de carro e/ou casa.

Há crianças que vão ao supermercado e colocam no carrinho um chocolate ou as bolachas de que gostam, e os pais reconhecem que durante esta semana não é possível levar aquilo que deseja. Temos os primeiros desgostos, o que irá acontecer ao longo da vida.

O que deve ser ensinado

 Gerir dinheiro e começar a poupança não é um “bicho de sete cabeças”. Como já aqui dissemos, é preciso começar. E como falamos de crianças precisamos de pensar nas idades. A literatura sobre educação financeira atravessa todas as idades e facilmente se encontra, em plataformas online, caso do Plano Nacional de Formação Financeira, ajudas imprescindíveis. Para quem pode é sempre bom aproveitar iniciativas públicas ou de algumas instituições financeiras sobre formação financeira, e algumas são dedicadas aos muito jovens.

Aquilo que especialistas têm dito é que na idade do pré-escolar é preciso perceber a diferença entre necessidades e desejos e faz-se com a ida ao supermercado e com a explicação do que é necessário no dia a dia e aquilo que pode ficar para a semana ou para o mês que vem. Depois, esta é a idade para perceber o que são notas e moedas, é bom deixá-los explorar a moeda brilhante ou os desenhos da nota, e até incentivá-los a fazer o pagamento na caixa e a receber o troco. O progenitor irá perguntar se o troco está correto e como a criança não saberá responder é uma boa altura, depois em casa, de explicar o valor de cada moeda.

Já no primeiro ciclo, ou seja, acima dos seis anos, é revelante que a criança perceba que o dinheiro vem do trabalho que todos os dias, o pai, a mãe e os avós fazem. Saem cedo para ir trabalhar e voltam à noite, o resultado no final do mês é dinheiro e com esse dinheiro vão ao supermercado. Também é uma idade onde cada moeda de 10 cêntimos conta e, por isso, pode haver incentivos de moedas em troca de limpezas em casa, arrumação de roupas ou a na lavagem da louça do pequeno-almoço. E de preferência oferecer um mealheiro porquinho para colocar a moeda. A criança ficará entusiasmada a vê-lo “engordar”, ou seja, a enchê-lo de moedas. Ficará ainda mais entusiasmada se também os amigos dos pais lhes oferecerem uma nota pequena ou se os avós lhes derem uma nota “das grandes” para encher o mealheiro mais rápido. E nesta idade também entramos na poupança para comprar o que se quer. Pretende um jogo, vai ter de poupar durante todo o ano, esperar pelo reforço de aniversário e do Natal, e fazer a compra, devidamente acompanhado pelos pais. Também já aprendeu na escola o que são números, o que é um valor e que qual a importância do dinheiro, e até pode ir ao supermercado sozinho fazer a compra do pão. Estará a assumir uma “grande” responsabilidade. E, por fim, nesta idade a criança percebe que aquilo que deseja nem sempre é possível, e é bom que se restrinja os desejos, sob pena de na adolescência o jovem não perceber o valor da poupança e da remuneração num emprego.

O segundo ciclo ou a idade a partir dos 10 anos é a mais complicada. A exigência vai ao nível do telemóvel topo de gama, um smartwatch, uma mesada para ir a uma viagem de escola com amigos, mas onde decide onde vai tomar as refeições, e o que leva de roupa. Os jogos deixam de ser o Monopólio para passarem a ser as consolas caras, com atualizações que custam dinheiro, ou os jogos de telemóvel, mas com aplicações que deixaram de ser gratuitas. Nesta altura a melhor solução é os pais entregarem uma mesada e o jovem ganhar consciência de que a mesada só chega até determinado nível de compras. O jovem acabou de entrar na vida real, em que tudo o que se deseja tem um custo e para assumir o custo ou lhe dão dinheiro ou ganha dinheiro. Deve ser acompanhado para ter a noção de que o esforço em trabalho pode dar algum dinheiro, mas também não pode ir para o mais caro, tem de comparar preços, e possivelmente é altura de fazer um orçamento mensal simples através de uma app, claro, e ser rigoroso.

Para os progenitores que podem, esta é a altura de acabar com o mealheiro e abrir-lhe uma conta poupança onde só poderá ter acesso aos 18 anos. Pelo meio é possível que este jovem use um cartão com pré-carregamento de dinheiro para efetuar algumas compras, ou possa ter mesmo um cartão de débito, mas com fundos limitados. Também entrou na idade de aprender conceitos, assumir alguma literacia financeira, e perguntar sobre o que se fala nos jornais e nas televisões sobre preços, juros, poder de compra, inflação, desemprego e muitos mais termos com os quais irá lidar o resto da vida.

*Esta secção tem o patrocínio do Credibom. Os textos são produzidos pelo Dinheiro Vivo com total independência editorial. Conheça as regras do DN relativas à elaboração de reportagens sobre produtos financeiros.