Coordenadas desordenadas

Como diria o meu Tio Olavo: “Viver é simples: inspire, expire. Faça o que for possível entre uma coisa e outra.”
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Dezembro está ao virar da esquina. As decorações de Natal já enfeitam (ou enfeiam, depende do gosto) as ruas. Outro dia era Carnaval e a procissão ainda ia no adro. Alguém deixou a porta aberta e o ano fugiu.

Já fez o balanço de 2016? Cedo ou tarde essa tarefa vai ter de ser encarada. Porque não como começar agora?

O balanço do ano (de qualquer ano) é importante. Sem isso os meses emendam-se uns nos outros e quando reparamos já não estamos em 1986, o “Verão Azul” já não passa na TV, os mullets saíram de moda e a fartura do seu cabelo é diametralmente oposta à da sua barriga.

O tempo passa, o tempo não para, quem não anda, morre.

Como diria o meu Tio Olavo: “Viver é simples: inspire, expire. Faça o que for possível entre uma coisa e outra.”

Não sou de grandes nostalgias mas quando penso no fim de um ano e no começo de outro lembro-me de um texto que escrevi há tempos e que servia de manual para viajantes ou, metaforicamente falando, como guia para quem quer viver bem a vida.

O texto dizia mais ou menos assim:

“Meu amigo, a geografia pode ser uma ciência inexata. Cérebros não andam, pernas não pensam, não me perguntem sobre os princípios e os fins da nossa grande jornada. Mas, se é para tirar ilações pueris, dou aqui algumas coordenadas de maneira desordenada.

Se o precipício é lindo, caia. Se a queda é longa, voe. Se autocarro atrasa, cante. Se uma solidão aperta, durma. Se a insónia atrapalha, dance. Pare, olhe, avance.

Nunca deixe para fazer hoje o que poderia ter sido feito em outra encarnação. Rasgue mapas, deite café quente sobre o GPS, conhaque sobre o iPhone, ofereça o BlackBerry ao primeiro passante. Entre dois destinos, escolha o mais distante. Entre dois desígnios, o mais interessante.

Coma sopa. Use cachecol. Olhe muito para o céu, deixe os olhos cegar pela luz, evite óculos escuros em dias de Sol. Prefira sempre a bicicleta ao carro. Saia na chuva sem chapéu, não tenha medo de água, você já não é feito de barro.

Se a companhia é chata, desande. Se ela for boa, faça-a constante. Se há mar, mergulhe. Se há montanhas, mova-as. Se há desertos, regue-os, nem que seja de suor, lágrimas ou sangue. Só não fique eternamente estanque à espera do comboio, do avião ou de Godot”.

Ainda há um mês para fazermos de 2016 o melhor ano das nossas vidas. Não é muito, nem pouco. Mas é o que temos.

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