Arrancou há poucas horas mais uma edição da Web Summit, que regressa ao Parque das Nações, em Lisboa, depois de várias semanas marcadas pelas polémicas declarações do seu ex-CEO, Paddy Cosgrave. Depois das boas-vindas pela nova CEO da cimeira tecnológica, Katherine Maher, subiram a palco Vasco Pedro, cofundador e CEO da Unbabel, e Cristina Fonseca, administradora da Indico Capital Partners, para debater os desafios e as oportunidades da inteligência artificial (IA).
Para Cristina Fonseca, o facto de Portugal ocupar a segunda posição dos países europeus em que as empresas mais utilizam ferramentas de IA (apenas atrás da Dinamarca) é uma surpresa "fácil de justificar". "Portugal tem um ótimo ecossistema de inovação e é muito forte no B2B, com muitas das startups bem-sucedidas a utilizar muito bem os dados e a IA", disse. O país tem, na sua perspetiva, os ingredientes essenciais para continuar este caminho de liderança: tem inovadores, talento e uma boa taxa de adoção da tecnologia no setor privado.
Vasco Pedro acredita mesmo que "é parte do nosso ADN" e relembra que Portugal tem sido, com frequência, um país de early-adopters em várias inovações tecnológicas, mas diz também que a pandemia acabou por incentivar uma aceleração da transformação digital na economia. Sobre o receio generalizado de que a IA possa vir a roubar empregos, o cofundador da Unbabel desdramatiza e prefere falar na "cognição aumentada" que estas ferramentas vêm trazer aos trabalhadores. "Em todas as revoluções tecnológicas que atravessámos, não houve nenhuma em que o PIB não tenha crescido e provocado a criação de novos trabalhos", reforça.
E há muitos motivos para que os trabalhadores olhem para a IA como um aliado e não como um inimigo, considera Cristina Fonseca, que diz que "há trabalho que é demasiado manual e que poderá ser feito de forma muito melhor por uma máquina". A especialista acredita também que este processo de adaptação "será difícil", em especial para as pessoas que estão há muitas décadas no mercado de trabalho e que olham com maior desconfiança para este tipo de inovações. "Nos próximos anos, vamos todos aprender a fazer o nosso trabalho com assistentes virtuais", assegura.
Vasco, do lado dos empreendedores que têm vindo a contribuir para a disrupção nesta área, e Cristina, do lado de quem financia o crescimento de novas ideias, concordam que será preciso apostar na regulação como forma não só de mitigar eventuais riscos da tecnologia, mas também para construir uma relação de confiança com a população. "Acho que é importante fazermos um esforço para regular a IA. A Europa tem falado muito sobre isso e tem feito um esforço", reconhece o CEO da Unbabel, que alerta, porém, para a falta de capacidade da política em acompanhar as cada vez mais rápidas evoluções tecnológicas. "A cada três meses há algo que é lançado e que cria disrupção novamente. Isso é um desafio".
Cristina Fonseca faz parte do consórcio para o desenvolvimento de IA responsável liderado pela Unbabel, que prevê um investimento de 78 milhões de euros para criar um quadro que promova a adoção de boas práticas nesta área. O objetivo, recorda a responsável da Indico Capital Partners, é "resolver problemas com a IA, desenhar uma framework e garantir que é usada de forma responsável".
A Web Summit decorre em Lisboa até quinta-feira, dia 16, e pode continuar a acompanhar os principais destaques no site do Dinheiro Vivo.