David Carson é um dos designers gráficos mais influentes das últimas décadas. Destacou-se de todos os outros pela abordagem inovadora sobretudo no segmento das revistas e são conhecidos os seus trabalhos em que usa e abusa de tipografias experimentais. O que para uns pode parecer uma mistura caótica de caracteres difícil de perceber, para outros é uma obra de arte com a assinatura de um mestre.
Sobretudo na década de 1990 e no início dos anos 2000, David Carson foi uma verdadeira ‘rock star’ para todos aqueles que gostam de design em geral. Ficaram famosos os seus trabalhos para a revista Ray Gun, dedicada ao rock alternativo, e há alguns rasgos de criatividade que ainda hoje são exemplos do espírito livre de Carson - por ter considerado uma entrevista da revista aborrecida, alterou a fonte da letra para Dingbat, que substitui as letras por símbolos, tornando o artigo ilegível.
O lado irreverente não afastou o interesse das grandes marcas - bem pelo contrário. Multinacionais como a Pepsi, Nike, Ford, Microsoft, Quicksilver e MTV recrutaram David Carson para comunicar as suas marcas como até aí nunca tinham comunicado.
David Carson está em Portugal para participar no festival Bold Creative - fala esta sexta-feira ao final da tarde, em Lisboa - e em entrevista ao Dinheiro Vivo, o norte-americano mostrou-se pouco contente com o caminho que o design tem seguido.
“O design gráfico tornou-se muito conservador nos últimos dez a vinte anos. Aquilo que eu chamo de gentrificado ou modernizado, é tudo muito seguro e tem sido assim há quase duas décadas”, salientou.
O especialista não tem dúvidas em apontar a tecnologia como um dos motivos para este estado do design gráfico que considera mais mortiço. “Parte disto acontece porque o software e os computadores têm os mesmos programas, as mesmas ferramentas, os mesmos ‘brinquedos’, e muito do trabalho começa a parecer o mesmo. É tudo seguro, feito rapidamente e não muito experimental. Como designer, penso que tem sido uma coisa má”.
A área das revistas, uma que diz especial respeito a Carson, é das que mais tem desiludido o perito. “Se aconteceu alguma coisa, foram as revistas que ficaram aborrecidas e o mundo digital mais interessante. Talvez esteja na hora de as revistas melhorarem o seu jogo, porque ficaram muito genéricas e muito menos interessantes. São profissionais e está tudo bem, mas não tão interessantes”.
Apesar do espírito crítico, David Carson ainda não esgotou toda a esperança de ver o ressurgimento daquilo que ficou conhecido como o ‘design grunge’, mais agressivo, mais alternativo, mais emocional.
“Agora começo a ver coisas a libertarem-se um pouco outra vez, talvez a não serem tão perfeitas todas as vezes. Quando publico algo mais feito à mão, mais solto, estou a ter mais reações outra vez e penso que talvez esteja a voltar um pouco. Não como era nos anos 1990 ou noutros tempos, mas as pessoas estão preparadas para mais sentimento humano no design”.
Pode parecer um cliché, mas David Carson é um artista que gosta de sentir com os olhos. Defende que antes de as pessoas lerem um artigo, por exemplo, devem senti-lo só de olhar para ele. É, no sentido mais lato das palavras, um crente na emoção do design.
Apesar de vivermos num mundo que é orientado para e pela tecnologia, David Carson diz que não há tecnologia que valha aos que ambicionam ser designers gráficos. “Se não tiveres um sentido de design, a tecnologia não te vai dar isso. O que permite é que quem não tem um sentido intuitivo de design consiga desenhar de uma forma normal, mas não os tornará designers”.
“Para mim é sobre decisões básicas, como o posicionamento, a escolha final, o cortar - e estas coisas não são determinadas pelo software. Tens de tomar estas decisões e é assim que surge o melhor trabalho. Certamente não sou anti-tecnologia, mas estou sempre à procura de formas para alcançar um sentimento mais humano e esse é o desafio para os programadores e para os designers à medida que avançamos”, acrescentou o norte-americano, agora com 62 anos.