Deputado do PCP faz Lisboa-Estrasburgo de comboio para "denunciar propaganda" europeia

João Pimenta Lopes vai precisar de quase 57 horas e de cinco transbordos para chegar ao Parlamento Europeu. Há recados para distribuir ao Governo português e à Comissão Europeia.
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O eurodeputado do PCP João Pimenta Lopes vai viajar de comboio entre Lisboa e Estrasburgo. A deslocação começa na manhã de sábado, dia 11, na estação do Oriente e apenas termina na segunda-feira ao final da tarde na cidade francesa que acolhe o Parlamento Europeu. As quase 57 horas de trajeto sobre carris vão servir para "desmontar o projeto de propaganda que foi o ano europeu do transporte ferroviário".

Em 2021, é necessário apanhar seis comboios para a ligação entre Lisboa e Estrasburgo e passar duas noites em hotéis. Dia 11, o comboio regional parte do Oriente (8h23) até ao Entroncamento (9h23), seguido de outro regional entre Entroncamento (10h24) e Badajoz (14h14, hora espanhola). É o dia mais lento, pois a automotora diesel entre Entroncamento e Badajoz não circula a mais de 100 km/h.

No dia seguinte, há mais dois comboios, um pouco mais rápidos: de Badajoz (8h45) a Madrid Atocha (13h47) e de Madrid Atocha (14h25) até Barcelona Sants (17h21). Na segunda, 13, outras duas deslocações: de Barcelona Sants (9h10) até Paris Gare de Lyon (15h46) e de Paris Est (17h25) até Estrasburgo (19h13).

Por ter de apanhar seis comboios, a viagem vai custar um total de 398 euros. Se a deslocação fosse feita de avião, demoraria sete horas e 15 minutos e pagaria menos de 50 euros, mesmo com uma escala na cidade francesa de Toulouse. O problema é que a deslocação aérea iria poluir muito mais.

Até março de 2020, seriam necessárias 24 horas para a viagem de comboio e era possível dormir na carruagem com compartimentos-cama. O Sud Expresso partia de Lisboa Santa Apolónia pelas 21h25 e chegava à estação de Hendaia pelas 11h33 (hora francesa). Depois, pelas 13h28, era possível apanhar um TGV até Paris Montparnasse (chegada às 18h08). A última etapa seria apanhar o comboio TGV entre Paris Est (19h13) e Estrasburgo (22h17).

Só que nunca fui tão complicado fazer uma viagem internacional de comboio, apesar de 2021 ser o ano europeu do transporte ferroviário e de a Comissão Europeia querer incentivar as deslocações amigas do ambiente.

"Quando falámos com a agência e pedimos um plano de viagem, eles ficaram surpreendidos e estupefactos. Uma das senhoras com quem entrámos em contacto falava num retrocesso de 30 anos: na altura, chegou à estação de Bruxelas e comprou um bilhete para Lisboa. Foi muito simples e na altura não havia a facilidade dos computadores", recorda o deputado.

Se a situação já foi difícil para uma agência profissional, a tarefa torna-se ainda mais complicada para um passageiro. Em 2021, "se pretender comprar um bilhete de Lisboa a Estrasburgo não há nenhum site que lhe forneça uma ligação única, mesmo com transbordos", lamenta Pimenta Lopes.

A última vez que um comboio fez a viagem entre Lisboa e a capital espanhola foi em março de 2020. A ligação internacional direta que então existia (Lusitânia) foi suspensa e nunca mais retomada por desacordo entre os operadores CP e Renfe. Entre 2 de setembro e 7 de outubro, a Comissão Europeia realizou um comboio especial (Connecting Europe Express) entre Lisboa e Paris - com passagem em 26 países - mas estava reservado a convidados.

Mas a viagem de 57 horas não vai servir só para "constatar a falta de ligações internacionais". Também será momento para falar sobre da "degradação da capacidade ferroviária em Portugal".

Pimenta Lopes começa logo por recordar "a supressão, nas últimas décadas, de mais de 1000 quilómetros de linha férrea, eliminando um conjunto muito significativo de ligações com uma parcela importante do território nacional". Bragança, Vila Real e Viseu foram as três capitais de distrito que perderam o transporte sobre carris.

Além disso, "também há insuficiência de comboios", com o eurodeputado comunista a recordar as imagens de "comboios à pinha em pleno período pandémico", que aconselhava o distanciamento social. Em abril, o PCP apresentou uma proposta para investir 250 milhões de euros por ano em material circulante nos próximos 15 anos, no valor total de 3,75 mil milhões de euros.

O eurodeputado culpa ainda a Comissão Europeia pela perda de importância do comboio nas últimas décadas. "Os quatro pacotes ferroviários e a liberalização do mercado não se desligam destes processos. Há uma visão estritamente de mercado e direcionada para o lucro e não para a necessidade de garantir as ligações ferroviárias, pela importância que têm, até do ponto de vista da coesão territorial e da oferta nesta dimensão."

A viagem servirá ainda para defender "a dimensão pública" no setor dos transportes, a "única que pode garantir que em situações onde não há o interesse económico, pode ser garantida a continuidade da oferta desse serviço público".

Voltando ao exemplo do comboio entre Lisboa e Madrid, Pimenta Lopes lembrou que "o contrato de serviço público da CP não prevê verbas para as ligações internacionais, uma contradição com o empurrar de responsabilidades para o outro lado da fronteira".

Depois da viagem de comboio, o eurodeputado vai dar uma conferência de imprensa no Parlamento Europeu na terça, pelas 9h30 (hora francesa). No dia seguinte, à tarde, haverá um debate na sessão plenária sobre o ano europeu do transporte ferroviário, a pedido do PCP.