Dom Fernando III, presidente do Brasil?

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Depois de 21 anos de trevas sob uma ditadura militar, o Brasil elegeu um presidente pelo voto popular, finalmente, em 1989. Chamava-se Fernando, de nome próprio, Collor de Mello, de apelidos, e prometia "caçar os marajás" que viviam à conta do estado. O maior marajá caçado, ironicamente, foi o próprio, derrubado por impeachment depois de um governo catastrófico, logo em 1991.

Itamar Franco, o vice-presidente de Collor, subiu ao Planalto, sem ser eleito, para servir de mero tampão entre o presidente anterior e o seguinte, Fernando Henrique Cardoso, vencedor da eleição de 1995 (e depois da de 1999).

FHC, como ficou conhecido, ganhou capital político e popularidade enquanto ministro da Economia de Itamar. No seu ministério, um grupo de hábeis economistas liberais inventou o Plano Real, que teve o mérito de mudar e estabilizar a moeda do país, de derrubar de vez a inflação de três e quatro dígitos que atormentava os brasileiros e de inaugurar uma série de reformas estruturais para a modernização das finanças públicas.

O sucesso de FHC como um ministro liberal e moderno surpreendeu os donos do dinheiro do Brasil à época, tendo em conta o seu passado de professor de ciências sociais, com obra académica e teses influenciadas pelos textos de Karl Marx, de Max Weber e de Herbert Marcuse, legítimos representantes do pensamento de esquerda.

O segundo Fernando da dinastia pós-democracia do Brasil era o que se convencionou chamar de típico "intelectual de esquerda", com tudo o que de assustador esse epíteto representa para os mercados.

Depois dele, houve 13 anos de PT, um outro vice tampão, Michel Temer, e a palhaçada do bolsonarismo até ao regresso de Lula da Silva, num "comeback" com laivos de realismo fantástico sul-americano. Entretanto, de outubro, data da vitória eleitoral do antigo sindicalista, até à posse, em janeiro, a dúvida que corroeu os economistas do Brasil foi: quem vai ser o ministro da Fazenda (finanças).

Lula nomeou o seu delfim Fernando Haddad, olhado com a mesma desconfiança com que Cardoso foi olhado ao assumir o cargo na década de 90. Tem sólida formação académica - é bacharel em direito, mestre em Economia e doutor em Filosofia - e defendeu, como tese de mestrado em Economia, "Um Debate Sobre o Caráter Socioeconómico do Sistema Soviético", título só por si capaz de deixar os empresários e os operadores da bolsa à beira do vómito.

No entanto, na semana passada, Haddad apresentou o novo marco orçamental do Brasil, as regras que vão orientar a política económica do terceiro governo de Lula, ou "o arcabouço fiscal", conforme as palavras do próprio autor.

A apresentação conseguiu conter os mais assanhados comités do Partido dos Trabalhadores, formação à qual o ministro, o presidente Lula e a maioria do executivo pertencem, e teve o condão de sossegar os mais assanhados representantes do dinheiro pesado e das bolsas.

Com Lula, 77 anos, a garantir que não se recandidata, observadores mais entusiasmados já veem em Haddad, 60 anos, o seu inevitável sucessor, surfando no "arcabouço fiscal" como FHC surfou no Plano Real. É cedo? Claro: Lula ainda pode reconsiderar, o arcabouço ainda pode falhar e a proverbial volatilidade da política brasileira ainda pode mudar tudo num instante. Mas quem apostar na eleição de Dom Fernando III, presidente do Brasil em 2026, tem chances de ganhar.