

Os pratos alaranjados e semitransparentes que ocupam as nossas memórias - e os louceiros dos nossos avós - estão mesmo, parece, em vias de extinção. E nem o ousado movimento de transformar a Duralex numa cooperativa parece ter sido suficiente para operar o milagre da sobrevivência à globalização, à subida dos custos de energia e, sobretudo, à ofensiva chinesa de produção barata.
Mas recuemos ao século passado para entender o que aconteceu. A Duralex, fundada em 1945 pela Saint-Gobin, no pós-II Guerra Mundial, representava o melhor da indústria francesa. Foi pioneira na produção de vidros temperados, com uma loiça que sempre primou por um design simples, clássico, intemporal e, acima de tudo, muito resistente. Dos copos Gigogne aos pratos laranja, há quem reconheça os produtos desta marca mesmo que não saiba como ela se chama.
Nos anos 60 e 70, a Duralex viveria o seu período de esplendor, e de Portugal ao Brasil, passando por Espanha, conquistou corações e casas de consumidores que a tornaram um ícone das cozinhas. Manteve-se no Saint-Gobin até 1997, altura em que, empregando mais de 1000 pessoas, seria vendida a um grupo italiano.
Em 2005, nova troca de mãos, desta vez para as de um empresário turco, Sinan Solmaz. Em 2008, a segunda fábrica da empresa em França, criada no apogeu e empregando mais de 100 pessoas, teve de fechar, depois de falhar os pagamentos aos trabalhadores. Na sequência disso, foi colocada em liquidação judicial e, após uma queixa apresenta da pelo administrador judicial desse processo, foi aberta uma investigação.
As autoridades descobrem então que desde o início de 2007 e até julho de 2008, Sinan Solmaz organizou o envio para a Turquia de máquinas, moldes e 85 contentores de mercadorias da Duralex, em vendas feitas com descontos de 80% - as perdas de receitas para a marca foram superiores a 4,5 milhões de euros, com esta operação.
A mesma investigação revelou que Solmaz aumentou artificialmente a dívida da Duralex em benefício das suas empresas na Turquia, através de manobras contabilísticas. O empresário foi condenado a três anos de prisão efetiva e a uma multa de 200 mil euros pelo Tribunal Comercial de Orleães. A mesma instituição entrega, então, a marca a Antoine Ioannidès, após um processo que implicou várias propostas de aquisição.
O industrial franco-britânico era apoiado por dois quadros da Duralex e pela família Boulos, composta por importadores libaneses que operavam na região do Médio Oriente. Da proposta de aquisição constava o investimento de 36 milhões de euros e a manutenção de 200 dos 236 postos de trabalho da empresa. Nos primeiros dois anos, recebeu um investimento aproximado de 6,2 milhões de euros, sem recursos a financiamento bancário e as contas pareciam estar a equilibrar-se: ao fim de 18 meses apresentou resultados positivos de 2,7 milhões e, até 2017, reforçou o seu caráter exportador, encontrando no Médio Oriente clientes importantes que fizeram a marca prosperar.
Animados pelos resultados, os proprietários anunciaram, a compra de um novo forno, num investimento que atingiu os oito milhões de euros, e que tinha como principal objetivo modernizar a produção. Problema? O equipamento começou a dar problemas por falhas na instalação e a capacidade produtiva caiu praticamente 80% em poucos meses.
A incapacidade de dar resposta à procura e o aumento da dívida começaram a pressionar a empresa que levaria outro duro golpe com a chegada de 2020 e do Grande Confinamento. Nesse ano, a empresa francesa deu conta de que perdeu cerca de 60% do volume de negócios graças às quebras na exportação. À época, exportava 80% de toda a produção. Foi o golpe final para Ioannidès, que decide alienar todo o capital da empresa - colocada num processo de recuperação judicial.
Em 2021 a esperança renasce, quando o grupo francês Cookware - produtor da marca Pyrex - assume o controlo da Duralex, adquirindo-a por 3,5 milhões de euros, e comprometendo-se a criar um plano de recuperação sensato que, entre outras coisas, previa a manutenção da maior parte dos postos de trabalho. O conhecimento da Duralex e a força da sua marca só precisavam de ser rejuvenescidos, acreditava a Cookware, que não contava com outro duro golpe: a subida dos preços da energia que, em 2022, obrigaram mesmo à cessação das atividades durante cerca de cinco meses.
O Estado Francês ainda injetou 15 milhões na empresa para ajudar a recuperação, mas em abril de 2024 é aberto novo processo de recuperação judicial da Duralex, que se via incapaz de fazer face ao aumento galopante dos custos da energia.
Mas quando todos os empresários pareciam baixar os braços e deixar a Duralex seguir o seu rumo, foi a vez de os trabalhadores se fazerem ouvir. No verão de 2024, a Orléans Métropole propôs a compra do terreno e dos edifícios da fábrica de vidro para ajudar os trabalhadores a relançarem a atividade através de uma sociedade cooperativa e participativa, proposta que foi aceite pelo Tribunal Comercial de Orleães. O próprio Estado Francês apoiou a decisão - bem como os sindicatos - e deu um apoio de 750 mil euros à organização. Tudo parecia correr bem: pouco tempo depois, os novos responsáveis anunciavam um crescimento superior a 300% nas encomendas diretas à fábrica.
No entanto, a realidade nem sempre deixa contar a história mais feliz: a concorrência chinesa e uma conta energética esmagadora, revelaram-se um obstáculo estrutural insuperável que nenhum modelo cooperativo, por si só, poderia neutralizar. Gerir uma cooperativa de trabalhadores com mais de 200 empregados-acionistas é um exercício diário de equilíbrio e diálogo que implica ainda o assumir de todos os riscos empresariais (custos energéticos, concorrência internacional, aumento dos preços das matérias-primas). E estes chegaram sem dó nem piedade para dar aquela que, parece, poderá ser a machadada final numa empresa que resistiu a 80 anos de vicissitudes, mas talvez não consiga chegar ao centenário.
A 22 de maio passado, o Ministério da Economia confirmou que está em curso uma auditoria ordenada pelo Estado na Duralex, na sequência de preocupações relativas à sua situação de fluxo de caixa, numa altura em que o antigo diretor-executivo da empresa e o filho, que era diretor-financeiro, contestam nos tribunais a sua demissão - foram dispensados em abril, alegadamente sem qualquer justificação.
Este é o quinto processo de recuperação judicial em 20 anos que a Duralex atravessa. Se o superar, pode dizer-se que faz, verdadeiramente, jus à inspiração do seu nome - Dura lex, sed lex. A lei é dura, mas é a lei. Ou seja, permanece.