ECCO encerra fábrica em Portugal e deixa 632 trabalhadores sem emprego

O grupo dinamarquês encerra mais de 40 anos de presença no país com o fecho da fábrica em Santa Maria da Feira. Anúncio foi feito esta segunda-feira aos trabalhadores.
ECCO encerra fábrica em Portugal e deixa 632 trabalhadores sem emprego
Salomão Rodrigues
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Reorganização global, excesso de capacidade produtiva, adaptação ao mercado. Estas foram as razões invocadas pela administração da ECCO, grupo dinamarquês de calçado, quando anunciou o encerramento da fábrica em Santa Maria da Feira. A unidade, inaugurada em 1984, foi a primeira a nascer fora da Dinamarca e criou uma extensa comunidade na região e emprega, ao dia de hoje, mais de 600 funcionários.

A decisão afeta, assim, diretamente 632 trabalhadores e integra um plano global de reestruturação do grupo dinamarquês, que inclui também o encerramento de uma unidade no Vietname e a eliminação de cerca de 400 postos de trabalho na Dinamarca

O anúncio marca o encerramento de uma das mais antigas e simbólicas ligações entre uma multinacional estrangeira e a indústria portuguesa do calçado. Mas é, sobretudo, o fim de uma presença que ajudou a transformar uma região e a afirmar um setor. A escolha de Santa Maria da Feira não foi por acaso: era um polo de mão de obra especializada, conhecimento industrial e cultura de fabrico que permitia crescer com qualidade e escala. Portugal não apareceu, assim, como extensão periférica da operação, mas sim como um dos pilares da internacionalização da marca.

O impacto imediato será particularmente sentido em Santa Maria da Feira, um dos concelhos mais ligados à fileira do calçado, com o seu encerramento a afetar centenas de famílias e um efeito económico que se estende muito para além dos trabalhadores diretamente envolvidos. Recorde-se que os dados da APPICAPS, a associação do setor do calçado, revelam que a ECCO é a terceira unidade industrial de calçado mais relevante do país, com vendas de 74,3 milhões de euros.

Fornecedores, empresas subcontratadas, serviços de apoio e comércio local serão, assim, inevitavelmente atingidos pela perda de uma das maiores unidades industriais da região, embora ainda não haja contas fechadas ao impacto económico total que este fecho representa. A ECCO revelou ainda que informou as autoridades competentes e a Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, com quem pretende colaborar no apoio aos trabalhadores.

“Este é um dia muito triste para todos nós, e também para mim. Durante mais de 40 anos, os trabalhadores em Portugal foram uma parte importante da família ECCO e contribuíram de forma significativa para o desenvolvimento e o sucesso da ECCO”, referiu Gustavo Kremer, diretor-geral da ECCO Portugal, citado pelo jornal ECO, acrescentando que “esta decisão não é um reflexo do seu trabalho nem da qualidade do que aqui se faz”. “Estaremos sempre gratos por esse contributo. A nossa prioridade, a partir de hoje, é apoiar cada um dos nossos trabalhadores neste momento tão difícil”, conclui.

E agora, Portugal?

Mas este encerramento levanta também questões relevantes sobre a posição de Portugal nas cadeias globais de produção.

Durante décadas, a indústria portuguesa do calçado transformou-se num caso de sucesso internacional, substituindo a competição assente em baixos custos por uma aposta na qualidade, inovação e capacidade técnica. A história da ECCO em Portugal foi, aliás, uma das demonstrações mais visíveis dessa evolução. A unidade da Feira sobreviveu a várias fases de reestruturação precisamente porque conseguiu acrescentar competências que iam muito além da produção tradicional. A unidade portuguesa tornou-se uma referência dentro do grupo, chegando a empregar cerca de 1 700 trabalhadores, produzindo milhões de pares de sapatos por ano e desempenhando um papel central na consolidação internacional da empresa. Em diferentes momentos, foi fábrica, laboratório de inovação, centro de desenvolvimento de produto e plataforma de conhecimento técnico para outras operações do grupo.

E sobreviveu a vários solavancos: em 2008 e 2009, na altura da crise do subprime, a ECCO reduziu drasticamente a produção em Portugal. Mais tarde, quando as cheias na Tailândia afetaram a capacidade produtiva do grupo, a fábrica de Santa Maria da Feira voltou a ganhar relevância e a recuperar atividade.

O anúncio feito agora não foi propriamente uma surpresa, mas tem um impacto significativo numa região cuja economia assenta sobretudo nas fábricas de produção industrial, como é o caso desta. E levanta uma preocupação legítima sobre se Portugal poderá estar a perder relevância no setor industrial do calçado, em termos globais.

É que se durante anos Portugal foi apresentado como um caso de sucesso na transformação da indústria do calçado – menos volume, mais valor acrescentado – este fecho deixa, naturalmente, o país de sobreaviso, ainda que a qualidade da produção nacional continue a ser aplaudida por todo o mundo. Importa, por isso, perceber, se o país está somente a ser alvo da volatilidade de um mercado internacional cada vez mais incerto ou se há algo mais profundo que seja preciso endereçar. 

No curto prazo, o grande objetivo é perceber como vai Portugal conseguir acomodar os mais de 600 trabalhadores que ficam sem emprego, ainda que a empresa garanta que vai cumprir todas as compensações que são devidas à sua força de trabalho, e que vai dar o máximo apoio possível aos trabalhadores nesta transição, seja através de apoios específicos ou de procura por novos postos de trabalho.

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