Nathalie Hellard-Lambi
Nathalie Hellard-Lambi

“20 dos 87 milhões em encomendas à cadeia de abastecimentos da Airbus Portugal já são da área da Defesa”

A gestora francesa Nathalie Hellard-Lambic revolucionou as operações da Airbus em Portugal, hoje um centro nevrálgico do grupo que emprega 1.700 pessoas. Em entrevista ao DN, levanta o véu sobre os desafios do gigante da aviação no nosso país.
Publicado a

Nathalie Hellard-Lambic tem um sorriso aberto e uma gargalhada franca, que soltou mais do que uma vez, por exemplo quando o Dinheiro Vivo quis saber novidades sobre os projetos mais secretos da Airbus Portugal. Há mais de 30 anos na Airbus, a gestora francesa confessa-se uma apaixonada por Portugal, país onde não tem parado de fazer crescer a operação da gigante de aviação. O grupo emprega hoje 1.700 funcionários em Portugal, distribuídos por Santo Tirso, Coimbra e Lisboa, produzindo, entre outros, partes da fuselagem dos aviões de corredor único da Airbus. Os planos imediatos envolvem o alargamento das operações em Santo Tirso. Por outro lado, em cima da mesa está ainda a possibilidade de o Governo português vir a escolher o Eurofighter para equipar as suas esquadras de caça. Seja ou não escolhido, a Airbus Portugal já é, hoje, um fornecedor de relevo na cadeia de abastecimento de material militar. Com o prato cheio de temas, Nathalie Hellard-Lambic recebeu o DV envergando a Légion d’honneur, condecoração que recebeu este ano.

Que planos existem atualmente para a operação da Airbus em Portugal?

O principal desafio é o crescimento, em particular da Airbus comercial, mas não só. Em todas as divisões da Airbus temos de ter crescimento, por causa da procura. Aplica-se a tudo na Airbus em Portugal. Temos crescido muito no passado e isso foi para acompanhar o desafio geral de crescimento da Airbus. Há cinco anos havia zero e agora temos mais de 1.700 funcionários em Santo Tirso, em Coimbra e em Lisboa.

Continuamos a crescer. Veja-se Santo Tirso, que faz a montagem de uma parte da fuselagem, o casco dos aviões de corredor único, que também precisa de ser entregue. Também o A350, um avião flagship, para o qual eu contribuí para o seu desenvolvimento. De certa maneira também é o meu bebé!

Muito trabalho nessas estruturas...

Por isso estão a alargar as fábricas em 30%, o que deve ser entregue este ano. Estão a crescer muito também, atualmente com 550 funcionários. Bem, quando os visitei no primeiro ano em que cheguei, havia 300. O ritmo é muito rápido. No segmento de Global Business Services (GBS) também contribuímos para o crescimento. No GBS fazemos o procurement (seleção de fornecedor e compras); Recursos Humanos; Finanças; toda a contabilidade. Mas também o digital, trazendo a automação, melhorar ainda mais a performance e entregando mais rápido. No GBS somos mais de 1.300 e continuamos fortes também. E nós contribuímos para isso. Contribuímos de uma forma que não é negligenciável.

O CEO da Airbus enalteceu recentemente a dupla finalidade de algumas das áreas da empresa: civil e militar. Considera que as atuais infraestruturas civis da Airbus em Portugal poderiam ser alteradas para produzir mais equipamento do setor da defesa também?

Hoje já temos uma cadeia de abastecimento que fornece peças com finalidade dupla: comercial e militar. Apenas para lembrar, temos algo como 87 milhões de euros encomendados à cadeia de abastecimento em Portugal. Dos quais cerca de 20 milhões já são para a defesa. Já temos uma presença abrangente em Portugal e essa presença está a continuar a crescer, e bem, para acompanhar, obviamente, a escalada que queremos fazer em todos os setores.

Esse é o número do ano passado. Mas no futuro este número será mais alto, com certeza. Essa rota que pergunta está a acontecer, de qualquer forma, já hoje.

Essa estratégia passa por um reforço das parcerias com empresas portuguesas? Estão à procura de mais, além das que já têm?

Do lado da defesa, sabe que tivemos um Memorando de Entendimento (MOU, na sigla em inglês) e estamos a trabalhar com muitos fornecedores. Muitas equipas estão já a operar para discutir esse futuro juntos.

Do lado civil, estamos atualmente a expandir as nossas duas parcerias mais recentes. Em resumo: uma é a Flytech, que é uma joint-venture, uma parceria forte, muito próxima. Precisamos de crescer para o que está planeado: 300 pessoas a trabalhar nessa área de software, para todos as áreas de negócios da Airbus. Estamos a meio caminho. Consideramos que é um bom progresso num curto espaço de tempo. E isso vai continuar.

E a segunda?

Também estamos a ir pelo lado da formação. Se quisermos vender mais aeronaves, as nossas companhias aéreas precisam de mais pilotos. E para acompanhar o treino de pilotos, a Airbus criou uma academia de voo. Porque não podemos fazê-lo sozinhos.

E associámo-nos a algumas empresas de formação que têm a mentalidade correta, adequada. Porque o que mais importa não é ir rápido, em detrimento de qualquer qualidade ou segurança do produto. É por isso que quando selecionamos parceiros, como a Critical Software ou a Sevenair, procuramos mesmo com muita atenção esta mentalidade, esta cultura para desenvolver o futuro dos produtos. Então, o futuro está aberto a quaisquer perguntas.

A Airbus é fornecedora de aviões comerciais para a companhia aérea portuguesa, a TAP. O relacionamento pode melhorar com grande grupo europeu como accionista privado na TAP?

A TAP tem sido um parceiro-cliente, realmente, há muito tempo. Já era cliente há 50 anos. Na verdade, começamos o nosso relacionamento com Portugal através desse relacionamento com a TAP. Foram um cliente de lançamento no A330 Neo. Um cliente de lançamento é um cliente específico, porque são os primeiros a comprar um novo tipo de aeronave. E isso envolve uma espécie de parceria, porque enquanto está a desenvolver um novo produto, vamos descobrindo mais coisas com os primeiros voo desse produto. Portanto não é um cliente que compra um produto que está há muito tempo na prateleira, mas sim um parceiro para o lançamento de um dos teus novos produtos. Então, isso mostra a relação que temos com a TAP no país. Não estou nada certa de que a entrada de um novo acionista altere o que quer que seja nesse relacionamento no futuro.

Nem com um grupo franco-neerlandês como a Air France-KLM?

Somos uma empresa internacional. E tentamos manter esse ADN em toda a nossa pegada e cultura de funcionários. Estamos em todo o mundo, em 180 locais diferentes. Aqui trabalham 50 nacionalidades diferentes e é importante para nós ter essa mentalidade internacional. E também queremos incorporar todas essas culturas diferentes nas nossas maneiras diárias de trabalhar.

Não importa então [quem possa vir a comprar a TAP]?

Não, de certa forma (risos). A diversidade faz parte do nosso ADN.

Qual é o projeto mais interessante que tem em cima da sua mesa atualmente na Airbus Portugal?

(Risos) São todos aqueles de que não é suposto eu falar. O que realmente desejamos é continuar a desenvolver as relações com o país. Temos muitas coisas que que podemos oferecer. E sem mencionar um produto específico, porque queremos continuar nas três divisões, mas gostaríamos de continuar a desenvolver o relacionamento que é bem sucedido hoje no país. Portanto, gostaríamos de disponibilizar ainda mais produtos nossos para que possamos desenvolver este ecossistema.

Qual seria a maior conquista para si na Airbus Portugal?

Já estou muito feliz com o que fizemos até agora. Muitas pessoas estão a vir até nós para nos perguntar: ‘Bem, como é que geriu esse crescimento?’ Acho que esse crescimento tem sido muito íngreme nestes cinco anos, perto de 2.000 pessoas. Não é comum. Estou muito orgulhosa por o termos feito de forma bem-sucedida. E em toda a transição que fizemos até agora, tanto em Santo Tirso como na GBS, não houve interrupção nos negócios. Foi uma rampa íngreme, mas sólida.

Eu diria que podemos estar orgulhosos de toda a relação e ecossistema que temos no país, porque não é apenas uma empresa, não é só a instalação de uma cadeia de abastecimentos ou um produto. Temos um ecossistema completo aqui, em que fazemos crescer o talento e mantemos o talento.

A área civil da Airbus poderia ser uma moeda de troca para que Portugal escolhesse o Eurofighter no concurso para os caças da Força Aérea Portuguesa?

É verdade que no lado civil temos uma boa pegada, um bom relacionamento nas aeronaves comerciais. Temos muitos helicópteros civis também. Podemos disponibilizar produtos muito bons nessa área. E como disse, é de utilização dual, por isso também poderiam ser transformados numa proposta militar.

O que Portugal teria a fazer para ter mais uma fábrica da Airbus em Portugal?

Precisamos de continuar as discussões que iniciámos no quadro do nosso MOU e todas as discussões que temos com a cadeia de suprimentos e com a indústria, localmente. Baseado nisso, com base no que poderíamos construir no futuro, se Portugal quiser desenvolver a sua frota no país, podemos certamente olhar para coisas diferentes.

Em termos globais, acredita que há um crescimento na procura por mais e mais aviões por parte das companhias aéreas?

A previsão do mercado global mostra uma forte procura ainda nos próximos 20 anos. E atualmente vemos uma procura de aparelhos wide-body, que está a crescer bem também. O crescimento está planeado, a partir desta previsão do mercado global e da IATA, não nos falta, de forma nenhuma, potencial de crescimento para o futuro. Bem, quanto à geopolítica, ninguém pode prever isso com toda a certeza. O que precisamos é de ter adaptabilidade em todas as divisões para lidar, para enfrentar essa volatilidade. Mas prevemos um grande crescimento, sim.

Como vê a evolução das empresas chinesas de aviação? Serão uma ameaça para a supremacia da Airbus e Boeing no futuro próximo?

Se olharmos para o crescimento dessas empresas, vamos precisar de mais do que dois players! Há espaço para mais players. A Embraer [Brasil] vai ser um player, a COMAC (Commercial Aircraft Corporation of China) vai ser potencialmente um player também. Os chineses produzem aviões de corredor único para o seu mercado, mas não posso comentar sobre o seu crescimento. De qualquer forma, nós estamos confiantes que o mercado reserva um lugar para a Airbus no futuro.

Nathalie Hellard-Lambi
As armas da Airbus para vender caças a Portugal: soberania e presença reforçada no ecossistema industrial
Nathalie Hellard-Lambi
Caças Eurofighter em Portugal? "A solução da Airbus garante soberania", diz CEO do grupo
Diário de Notícias
www.dn.pt