

A mais recente ronda de resultados em Silicon Valley, na quarta-feira à noite (em Lisboa), trouxe um choque de realidade para os mercados financeiros: na era da inteligência artificial, o crescimento acelerado de receitas já não basta se não vier acompanhado de conversão em tesouraria. A apresentação simultânea de contas da Alphabet e da Microsoft traçou um contraste evidente entre a penalização severa pelo consumo de liquidez e o prémio atribuído a quem consegue expandir a nuvem com disciplina de caixa.
A dona da Google viveu uma das suas sessões mais duras do ano. Apesar de a faturação global ter avançado 25% no terceiro trimestre, para 127,58 mil milhões de dólares (114,27 mil milhões de euros), o resultado por ação ajustado de 2,67 dólares falhou o consenso do mercado, arrastado por uma perda contabilística de 8,66 mil milhões na carteira de títulos e por um abrandamento na publicidade de pesquisa. Mas o dado que verdadeiramente assustou os investidores foi o fluxo de caixa livre negativo em 9,07 mil milhões de dólares, o segundo consecutivo no vermelho, reflexo de uma despesa de capital trimestral de 51,36 mil milhões. Reação: as ações desabaram perto de 10%.
O revés da Alphabet ilustra a mesma encruzilhada que ensombra os preparativos de entrada em bolsa da Anthropic. Tal como a criadora do modelo Claude — cujo prospeto preliminar de dispersão revelou compromissos massivos de computação e prejuízos que levantam reservas quanto a uma avaliação astronómica —, a Alphabet depara-se com a impaciência de investidores que recusam passar cheques em branco para financiar centros de dados, mesmo numa altura em que a Google Cloud duplica de dimensão (+103%).
Microsoft a subir
Em sentido oposto, a Microsoft soube contornar a desconfiança. A tecnológica liderada por Satya Nadella registou receitas de 92,28 mil milhões de dólares (82,66 mil milhões de euros), uma subida de 19% face ao período homólogo, e lucros por ação de 4,89 dólares, impulsionados pela força da divisão de computação em nuvem. A receita do Azure acelerou 48%, batendo as metas internas da empresa.
O segredo da receção favorável esteve na rentabilidade: mesmo desembolsando quase 40 mil milhões em investimento, a Microsoft gerou 18,6 mil milhões de dólares de liquidez disponível, premiando o título com ganhos de cerca de 3% a 4%.
O veredito do mercado ficou claro: quem gera caixa lidera; quem consome sem freio é punido.