Apenas um quarto dos prejuízos do “comboio de tempestades” estão cobertos por seguros
Apenas 26% dos prejuízos provocados pelo “comboio de tempestades”, que atingiu Portugal entre janeiro e fevereiro de 2026, estavam cobertos por seguros. As perdas económicas são estimadas em cerca de 5,3 mil milhões de euros, enquanto os danos protegidos por contratos de seguro rondam 1,4 mil milhões, segundo um relatório da Autoridade de Supervisão de de Seguros e Fundos de Pensões (ASF).
A diferença corresponde a uma lacuna de proteção próxima de 74%. Ou seja, cerca de três quartos dos prejuízos terão de ser suportados diretamente por famílias, empresas e pelo Estado, através dos danos no património público e dos mecanismos de apoio à recuperação.
O documento salienta que o episódio constituiu “um dos mais significativos episódios de fenómenos meteorológicos extremos registados no país” e “um dos mais exigentes testes alguma vez enfrentados pelo setor segurador nacional”.
Com processos complexos ainda em regularização e estimativas das perdas económicas não totalmente consolidadas, os dados são provisórios e permanecem sujeitos a revisão.
Habitação e empresas concentram perdas
O conjunto de tempestades originou cerca de 218 mil participações de sinistros. A maior parte ocorreu nos seguros de incêndio e outros danos, sobretudo nos segmentos de habitação e de comércio e indústria. Na habitação foram contabilizados 179 mil sinistros, com um custo estimado de 661,5 milhões de euros. No comércio e indústria registaram-se cerca de 20 mil participações, às quais correspondem perdas seguras de aproximadamente 633,8 milhões. O seguro automóvel somou pouco mais de 17 mil sinistros e um custo estimado de 36 milhões. O relatório sublinha que as perdas seguras se concentraram nos seguros de incêndio e outros danos, que se confirmaram como “o principal segmento de exposição do setor segurador aos riscos climáticos”. O impacto teve também uma forte concentração territorial. O distrito de Leiria representou quase 40% dos sinistros e cerca de 60% dos custos estimados. Só os concelhos de Leiria e Marinha Grande concentraram, aproximadamente, 25% das participações e 44% das perdas seguras.
Apesar do volume excecional de participações e das dificuldades iniciais de acesso, circulação, abastecimento de energia e telecomunicações nas zonas mais afetadas, a ASF faz um balanço globalmente positivo da resposta das seguradoras.
“O setor segurador demonstrou uma capacidade global de resposta adequada”, conclui o relatório. O setor mobilizou cerca de 900 peritos. As empresas reforçaram as equipas e os horários de atendimento, recorreram à externalização de serviços. Foram também utilizados canais digitais, sistemas de comunicação por satélite, teleperitagem, autoperitagem e procedimentos documentais simplificados. Em julho, mais de 99% dos sinistros estavam peritados ou dispensados de peritagem e cerca de 85% dos processos encontravam-se encerrados. No segmento da habitação, as seguradoras já tinham pagado mais de 80% dos custos estimados. A situação era diferente nos processos empresariais, tendencialmente mais complexos. Entre as pessoas singulares, a taxa de regularização atingia 90% e a taxa de pagamento 80%. Nas pessoas coletivas e entidades equiparadas, os valores eram de 85% e 34%, respetivamente.
“O principal desafio identificado não foi a inexistência de mecanismos de resposta, mas a dificuldade de aumentar rapidamente a capacidade operacional perante volumes extraordinários de sinistros concentrados no tempo e no espaço”, assinala a ASF. A escassez de peritos, empresas de reparação, mão de obra especializada e materiais atrasou alguns processos. O aumento da procura na construção dificultou ainda a obtenção de orçamentos e pressionou os custos das reparações.
As seguradoras recorreram também a adiantamentos para assegurar liquidez às famílias e às empresas antes da conclusão das avaliações. Nos processos empresariais de maior dimensão, esses pagamentos permitiram financiar reparações urgentes e apoiar a recuperação da atividade, enquanto prosseguia a quantificação integral dos danos.
Resseguro suportou a maior parte do impacto
O resseguro foi determinante para limitar o impacto financeiro sobre as seguradoras portuguesas. Cerca de 91% dos custos, sobretudo no segmento de incêndio e outros danos, foram transferidos para resseguradores internacionais. “O resseguro desempenhou um papel determinante na absorção do impacto deste evento”, refere o documento, que associa este resultado a práticas prudentes de transferência e dispersão do risco.
A ASF não antecipa uma deterioração preocupante da solvência do setor. O rácio agregado de cobertura do requisito de capital de solvência das empresas que operam nos ramos Não Vida passou de 202,8%, no final de 2025, para 187,4%, em março de 2026, permanecendo acima dos requisitos regulamentares. O relatório adverte, contudo, para a necessidade de reavaliar periodicamente os programas de resseguro, considerando cenários com várias tempestades sucessivas, acumulação geográfica de perdas e alterações na frequência e severidade dos fenómenos meteorológicos.
Metade dos alojamentos afetados sem cobertura do edifício
“A resiliência financeira das seguradoras” contrasta com a insuficiente proteção de uma parte significativa da população e das empresas. De acordo com dados do relatório, nos 68 concelhos que se encontravam em estado de calamidade em 9 de fevereiro, apenas 49% dos alojamentos tinham cobertura do edifício contra tempestades. A cobertura de conteúdos, habitualmente designada por recheio, abrangia cerca de 45%. “Estes valores indicam que, aproximadamente, um em cada dois alojamentos nas zonas afetadas não dispunha de cobertura de edifícios à data da ocorrência, sendo que mais de metade não possuía cobertura de conteúdos”, assinala a ASF.
No segmento empresarial, estima-se que 49% das unidades tivessem cobertura dos edifícios e 67% proteção dos conteúdos. A cobertura de perdas de exploração, destinada a compensar os efeitos financeiros da interrupção da atividade, abrangia apenas cerca de 8% das unidades empresariais, tanto nas zonas afetadas como no conjunto do país.
O relatório identifica, igualmente, edifícios ou conteúdos sem seguro, coberturas desadequadas e situações de subseguro, nas quais os capitais contratados não eram suficientes para cobrir o valor dos bens ou da reconstrução.
Até ao início de julho, a ASF tinha aberto cerca de 260 processos de reclamação relacionados com as tempestades. Nos seguros de incêndio e outros danos, este número correspondeu a, aproximadamente, 1,2 reclamações por cada mil sinistros. Considerando as reclamações apresentadas diretamente às seguradoras, o rácio foi de 4,5 por mil sinistros no primeiro trimestre de 2026, abaixo dos valores registados em 2024 e 2025. A intervenção da ASF contribuiu para um resultado favorável aos reclamantes em cerca de 38% dos casos analisados.
As reclamações incidiram sobre atrasos, dificuldades de contacto, valores das indemnizações e recusas relacionadas com infiltrações, danos em elementos exteriores, alegada falta de manutenção ou mau estado de conservação.
Segundo o relatório, “uma parte significativa das reclamações resultou não de atrasos na regularização, mas de expectativas desalinhadas relativamente ao âmbito efetivo das coberturas contratadas”. A ASF considera necessário simplificar a documentação, explicar melhor as exclusões e fundamentar de forma mais detalhada as decisões de recusa. Propõe ainda que seja ponderado um dever de disponibilização dos relatórios de peritagem aos segurados, especialmente quando as decisões se baseiem em conceitos como “falta de manutenção” ou “mau estado de conservação”.
ASF propõe sistema nacional para catástrofes
A principal recomendação estrutural é o desenvolvimento de um sistema nacional de proteção contra catástrofes naturais, baseado na partilha de responsabilidades entre cidadãos, empresas, seguradoras, resseguradores internacionais, mercado de capitais e Estado.
Tendo em conta a dimensão da lacuna de proteção, o organismo entende que a essa justifica uma solução “capaz de assegurar uma cobertura alargada, previsível e financeiramente sustentável”. As bases apresentadas ao Governo incluem um seguro obrigatório para riscos catastróficos, abrangendo sismos e riscos climáticos, apoiado por um mecanismo de solidariedade destinado a assegurar a universalidade do acesso.
O relatório recomenda igualmente planos de resposta a catástrofes previamente testados, exercícios conjuntos de simulação, modelos prospetivos de avaliação do risco climático, maior utilização da georreferenciação, reforço das redes de peritagem e reparação e criação de mecanismos harmonizados de reporte.
Para a ASF, o episódio demonstrou simultaneamente “a robustez financeira e a capacidade de adaptação do setor segurador português”, mas também a necessidade de preparar o país para um contexto em que os fenómenos meteorológicos extremos “tendem a tornar-se mais frequentes, severos e economicamente relevantes”.
