Após a queda da Unbabel, a IA nacional resiste e prepara 150 milhões em exportações

Coordenação do Center for Responsible AI transitou para a Sword Health e o consórcio de Inteligência Artificial responsável contornou assim o colapso do seu principal parceiro
Paulo Dimas, CEO do Center for Responsible AI, revela números positivos do investimento em tecnologia portuguesa.
Paulo Dimas, CEO do Center for Responsible AI, revela números positivos do investimento em tecnologia portuguesa.FOTO: Leonardo Negrão
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O colapso financeiro da Unbabel, ditado em grande parte pela disrupção brutal que a própria Inteligência Artificial causou no mercado global da tradução – "O valor da tradução baixou 10 vezes, 100 vezes... fomos, na prática, apanhados com esta quebra", diz ao DN/DV Paulo Dimas – parecia ameaçar o futuro da maior Agenda Mobilizadora do PRR dedicada à tecnologia em Portugal. No entanto, o consórcio do Center for Responsible AI, liderado por Dimas, provou ter uma estrutura à prova de choque. Sob a nova liderança da Sword Health, o consórcio não só estabilizou a sua execução, como prevê atingir, já no final deste ano, um volume de negócios de 150 milhões de euros, maioritariamente destinado a exportações globais, revela o CEO.

A transição de poder aconteceu nos bastidores, muito antes de vir a público, em outubro de 2025. Em agosto do ano passado, quando se consumou a aquisição de ativos da Unbabel por parte de capital norte-americano, os parceiros reagiram de imediato. "Na segunda-feira de manhã já estávamos reunidos com a Sword Health para fazer uma passagem de testemunho a nível de liderança do consórcio", revela Paulo Dimas. O técnico e gestor salienta que o consórcio foi desenhado preventivamente com esta robustez. "A lição é: como é que desenhas um consórcio resiliente? Tens de ter redundância nos grandes líderes. No início era para vir a Farfetch, mas esta acabou por não entrar e entrou a Sword Health. E resultou. É importante ter dois gigantes, assim como a redundância ao nível dos produtos", diz.

A saída da tecnológica da área da tradução foi gerida de forma a proteger o investimento público do PRR. "A Unbabel terminou os produtos que tinha a seu cargo dentro do consórcio, comercializou-os e eles mantêm-se em Portugal, apesar de a empresa agora ser detida por uma entidade norte-americana", assegura Dimas.

Com uma taxa de execução global do consórcio que “ronda os 87% a 88%”, os receios de metas falhadas parecem dissipados. A consolidação dos resultados apoia-se num rácio financeiro muito favorável: para um investimento público de cerca de 49 milhões de euros (aos quais se somaram 27 milhões de investimento privado, totalizando 76 milhões de euros em três anos e meio de agenda), o volume de exportações previsto, só para este ano, quase duplica o investimento total público, realça o CEO.

A saúde financeira do projeto não depende apenas da Sword Health, estendendo-se a startups nacionais que cresceram do zero. "Temos o caso de empresas mais pequenas que foram do zero a um milhão de euros de faturação recorrente este ano, na área da pesquisa jurídica, como o caso da LegalSifter e da LegalAi", exemplifica Paulo Dimas.

Outra solução prática de relevo foi desenvolvida pela Primavera (Grupo Cegid), que "tem estado a poupar milhares de horas aos médicos codificadores nos hospitais públicos, automatizando a codificação de episódios clínicos através do sistema internacional ICD".

Ainda assim, o principal rosto do sucesso do consórcio continua a ser a saúde digital. O "Holo", uma solução de voz inteligente nascida desta parceria, já está no mercado a permitir a doentes com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) continuarem a comunicar com o mundo.

Paralelamente, o sistema de fisioterapia digital da Sword Health (que permite aos pacientes fazerem fisioterapia em casa) já “revolucionou o SNS”, nomeadamente no norte do país: "Foi provado, no Hospital de São João, que conseguimos reduzir o tempo de acesso à fisioterapia de dois anos para dez dias, com uma taxa de adesão de 97% dos doentes em casa. Isto está a transformar o SNS com IA", orgulha-se Dimas.

O balanço final do projeto demonstra, segundo Paulo Dimas, que o modelo de inovação cooperativa é o caminho certo para fixar valor no país. "As startups mais pequenas aprendem com as maiores a tornarem-se globais, e partilham o risco em consórcio de forma transparente. Se um pilar falha, a rede aguenta", conclui.

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