

Esta será lembrada como a semana em que a Apple decidiu abrir as portas do seu ecossistema ao “resto do mundo”. Durante anos, os produtos da marca foram, por muitos, vistos como objetos de desejo quase inalcançáveis - ou apenas mediante algum sacrifício - protegidos por uma barreira de preço que raramente baixava dos mil e alguns euros. Mas a estratégia parece ter mudado. Na quarta-feira, 4 de março, a maçã apresentou o MacBook Neo, um portátil que, para os parâmetros da marca, é “barato”, capaz de competir com a maioria da oferta de computadores Windows. E na segunda (2) tinha já sido anunciada a chegada do iPhone 17e, o novo modelo médio de smartphone.
A Apple não está assim apenas a apresentar novos produtos; a tecnológica de Cupertino faz o assalto ao mercado de gama média e aos consumidores com orçamentos mais limitados, potenciando assim que milhões de novos clientes entrem nos seus serviços.
O grande protagonista desta revolução pode bem ser o MacBook Neo. Com um preço de lançamento de 699 euros em Portugal, este é o portátil mais acessível da história da marca. E a Apple não reciclou um design antigo. O Neo é uma máquina moderna, equipada com o chip A18 Pro - o mesmo que move a elite dos smartphones - e um design que pisca o olho ao público jovem e universitário.
A mensagem é clara: o Mac já não é apenas para profissionais ou utilizadores com orçamentos folgados. Ao colocar um portátil novo abaixo da barreira psicológica dos 700 euros (para 8GB de RAM), a Apple ataca diretamente o domínio dos portáteis Windows de gama média, oferecendo a experiência macOS a uma fatia de mercado que até agora se ficava a olhar pela vitrina.
No mundo dos smartphones, o iPhone 17e (lançado por 739€) surge com um hardware renovado mas, essencialmente, com a integração profunda da Inteligência Artificial potenciada pelo Gemini da Google. O utilizador de gama média passa, desta forma, a ter acesso a ferramentas que, há apenas seis meses, eram exclusivas dos modelos “Pro”.
Esta democratização da IA é estratégica. Ao oferecer um smartphone com 256GB de base e capacidades de processamento de linguagem natural avançadas a um preço competitivo (quando comparado com os outros modelos de iPhone), a Apple passa a ideia de que ninguém fica para trás na “corrida ao ouro” da Inteligência Artificial.
E porquê agora? A resposta reside na expansão do ecossistema. Um utilizador que compra o seu primeiro Mac “barato” ou um iPhone focado no valor é um utilizador que, muito provavelmente, assinará a iCloud, a Apple Music e a Apple TV+.
Para continuar a crescer, a Apple precisa de volume. O luxo continua lá, representado pelos novos MacBook Pro com chips M5 Pro e Max que podem ultrapassar os 4000 euros - que foram também lançados na quarta-feira. Mas a base da pirâmide é agora muito mais larga.
A perceção da marca começa assim a mudar. A Apple já não é apenas a empresa do iPhone de 1500 euros - é uma empresa que oferece um ecossistema completo para (quase) todas as classes que queiram entrar e viajar no grande comboio da maçã.