Aumento do custo da energia provoca quebra "significativa" de poder de compra em quase 70% dos portugueses
O aumento do custo dos produtos energéticos (gás, combustíveis, gasóleo para aquecimento e eletricidade) reduziu “significativamente” o poder de compra de quase sete em cada dez portugueses, em rigor 68%, nos últimos doze meses. E em 23% (mais de dois em cada dez) o impacto foi considerado “muito significativo”, revela o oitavo Inquérito sobre Clima do Banco Europeu de Investimento (BEI), publicado esta quinta-feira, 5 de novembro.
No total da União Europeia (UE), 60% da população afirmou sentir uma forte quebra do poder aquisitivo devido à crise energética, agravada no início deste ano com o conflito que opõe EUA/Israel ao Irão.
Para responder à subida do custo de vida, 34% dos portugueses optaram por reduzir as despesas diárias com alimentação ou saúde e 24% cortaram no aquecimento. Houve 13% que admitiram ter contraído dívidas, pedido ajuda financeira ou adiado o pagamento de uma fatura de energia, indica o inquérito, realizado junto de 23.000 pessoas nos 27 Estados-membros da UE.
Com menos capacidade financeira para responder aos encargos mensais, 65% dos portugueses mudaram os hábitos de utilização do carro. Segundo o estudo, 23% passaram a utilizar o automóvel apenas para cumprir necessidades básicas, como compras ou consultas médicas, 33% abdicaram de uma escapada de fim de semana, de férias ou de uma visita a familiares e amigos, 28% afirmaram conduzir agora mais devagar para poupar combustível e 22% substituíram as viagens individuais de automóvel por boleia organizada, transportes públicos ou bicicleta.
Uma larga maioria de portugueses acredita que a solução para diminuir os preços da energia está na transição energética. Mais de oito em cada dez portugueses (85%) consideraram a transição urgente para o país e fator para uma menor dependência da importação de petróleo e gás. Também 84% defenderam que permitirá uma estabilização dos preços, ou mesmo uma descida, e 79% alegaram que será relevante para a atenuação das alterações climáticas.
O oitavo inquérito sobre ação climática e transição energética revela que o agravamento da crise energética originou uma mudança na hierarquia dos três principais benefícios esperados pela transição energética. Em 2022 (ano do início da guerra na Ucrânia), a atenuação das alterações climáticas era o benefício mais referido em Portugal e em mais 18 Estados-membros, enquanto a redução das importações de petróleo e gás era mencionada em apenas oito países e a estabilização ou a descida dos preços em nenhum. Atualmente, a redução da dependência ocupa o primeiro lugar em Portugal e em mais 15 Estados-membros, seguida dos preços em oito países da UE e das alterações climáticas em três.
Para uma mudança de paradigma energético, quase nove em cada dez portugueses (88%) defenderam que se dê prioridade à energia hipocarbónica. A energia solar ocupa o primeiro lugar (64%), seguida da energia eólica (49%). A maioria dos portugueses (59%) apoia o desenvolvimento de uma indústria europeia das tecnologias limpas competitiva, mesmo que demore mais tempo (na UE são 55%). Já 30% preferem apostar numa implementação mais rápida, recorrendo a equipamento importado (UE, 29%). O desenvolvimento na Europa é a solução preferida em todos os 27 Estados-membros.
Para a presidente do BEI, Nadia Calviño. “Portugal tem vindo a desempenhar um papel de liderança na transição da Europa para as energias limpas”. Segundo afirma no comunicado de apresentação das conclusões do inquérito, o país tem boas fontes de energia renovável, o que constitui uma oportunidade para “reduzir a dependência da Europa em relação aos combustíveis fósseis importados, reforçar a nossa autonomia energética e a nossa segurança energética e reduzir os custos energéticos para as empresas e para os cidadãos”.
No mesmo comunicado, a instituição de financiamento da UE, que tem por acionistas os 27 Estados-membros, realça que está a apoiar cerca de metade dos projetos de redes e interligações da Europa, uma em cada cinco centrais solares, um em cada três parques eólicos terrestres e a maior parte da capacidade de produção de energia eólica marítima.
