Carlos Cabeleira é o coordenador da NEXT, porque foi pensada para ajudar “depois” de uma vida profissional já estruturada.
Carlos Cabeleira é o coordenador da NEXT, porque foi pensada para ajudar “depois” de uma vida profissional já estruturada. FOTO: Gerardo Santos

Carlos Cabeleira: “Preparamos executivos para aplicarem o conhecimento avançado logo no dia seguinte”

O coordenador da NEXT by Universitas, revela ao DN/Dinheiro Vivo os fatores que a tornam disruptiva. A nova escola de formação executiva nasce focada no impacto da Inteligência Artificial no ecossistema de negócios e na urgência de Portugal atrair e reter o melhor talento de gestão.
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Num mercado de formação executiva maduro e dominado por marcas históricas, a recém-lançada NEXT by Universitas quer agitar as águas. Em entrevista, o Coordenador Executivo, Carlos Cabeleira, explica ao DN/DV como pretende atrair o tecido empresarial mais conservador e desmistifica o uso da Inteligência Artificial na gestão. Com uma carreira moldada na indústria e na consultoria internacional antes de chegar à academia, o responsável defende que a formação avançada não pode ser um custo, mas sim o motor para criar empresas robustas e capazes de travar a fuga de talento em Portugal.

Oficialmente apresentada em março deste ano, a escola entra agora plenamente em “velocidade de cruzeiro”. Com foco absoluto em profissionais no ativo – que não precisam obrigatoriamente de licenciatura, ainda que a esmagadora maioria a tenha –, a NEXT destina-se a quem já lida, no dia a dia, com as exigências da liderança, gestão e administração de empresas.

O nosso tecido empresarial é quase totalmente composto por micro, pequenas e médias empresas, conhecidas por serem muito conservadoras. Como pretende a NEXT atrair as lideranças das PME para lhes dar formação?

A NEXT pretende precisamente ocupar um espaço nessa matéria. As PME que estão mais expostas ao mercado internacional já perceberam a urgência da formação e aí não temos problemas, elas sentem a necessidade de investir. O grande desafio está no perfil do gestor tradicional da PME portuguesa. Nestas empresas, a fronteira entre a estratégia e a operação diária é muito ténue. O líder de uma PME toma decisões estratégicas ao mesmo tempo que lida com tesouraria, conformidade regulatória, recursos humanos...

Mas consegue quebrar esse conservadorismo familiar e captá-los?

A nossa estratégia passa por demonstrar o retorno imediato da formação. Não lhes vendemos teorias académicas; oferecemos-lhes ferramentas práticas para que os seus líderes deixem de ser “limitadores” do crescimento da própria empresa e passem a ser agentes de capacitação das suas equipas. Queremos que ele perceba que a formação não é um custo, mas um investimento produtivo direto.

Passemos à Inteligência Artificial. Todas as escolas dizem integrar a IA nos seus programas, mas ficam-se quase sempre pela teoria. Como é que a NEXT a aplica na prática?

Nós não nos limitamos a ensinar a usar a Inteligência Artificial de forma mecânica. O nosso foco está em preparar os alunos para fazerem um uso crítico dessas ferramentas. Gosto de fazer um paralelismo com o que aconteceu há umas décadas com a introdução das calculadoras nas escolas. Havia o receio de que os alunos deixassem de saber fazer contas. A calculadora é útil, mas o utilizador precisa de compreender os princípios matemáticos para saber se o resultado que a máquina apresenta faz sentido. Com a IA é a mesma coisa. O gestor tem de ter a capacidade crítica de analisar, auditar e validar o que a IA produz. A NEXT foca-se em desenvolver o pensamento crítico dos executivos para que saibam usar a IA como uma ferramenta de suporte à decisão e não como um substituto do julgamento humano.

Como garantem que o plano de estudos não fica obsoleto com a rápida evolução tecnológica?

Esse é o grande desafio. As tecnologias mudam ao mês. Por isso, a NEXT foca-se menos na componente mecânica da ferramenta e mais no desenvolvimento de pensamento crítico e adaptabilidade dos alunos. Se ensinarmos apenas a carregar nos botões de um software específico hoje, esse conhecimento estará obsoleto amanhã. Mas se ensinarmos a lógica, o pensamento crítico e a capacidade de auditar o output da IA, os alunos estarão preparados para qualquer ferramenta que surja no futuro.

A vossa proposta refere a atração e retenção de talento. Com tantas barreiras salariais e fiscais em Portugal, que papel real pode ter uma escola na retenção de talento?

É um ciclo que temos de transformar de vicioso em virtuoso. O papel de uma escola executiva aqui é capacitar os gestores para criarem empresas mais competitivas, com maior valor acrescentado e maior escala. Só com empresas mais robustas e globais é que conseguiremos pagar melhores salários e oferecer projetos de carreira estimulantes que fixem cá as pessoas. A formação executiva deve focar-se em preparar líderes que saibam gerir e motivar o talento, criando ambientes de trabalho saudáveis e desafiantes, em vez de lideranças autocráticas que frustram e empurram os profissionais qualificados fora do país.

Qual é a principal lacuna dos gestores portugueses face aos parceiros europeus?

Penso que a principal fraqueza estrutural está na visão estratégica de longo prazo. E isto não se deve a uma incapacidade pessoal dos gestores, mas sim à forte instabilidade do contexto nacional – fiscal, regulatório e económico. Quando as regras do jogo mudam constantemente, torna-se extremamente difícil planear a essa distância de cinco ou dez anos. Isto faz com que os gestores portugueses se tornem excelentes na reação rápida, no “apagar fogos”. No entanto, essa gestão puramente reativa prejudica o crescimento sustentável. Precisamos de dar aos gestores as ferramentas para que consigam planear o futuro, mesmo em cenários de incerteza.

“Viemos responder a nichos que não estavam cobertos. Portanto, somos muito orientados pela procura real das empresas e não por uma lógica de empurrar programas genéricos para o mercado”

Agora sobre a escola. O panorama da formação executiva em Portugal está amplamente consolidado e é muito competitivo. O que traz a NEXT de tão disruptivo para não ser apenas mais uma marca num setor sobrelotado?

Estamos a falar aqui de quatro ou de cinco principais aspetos que consideramos distintivos relativamente àquilo que já existe no mercado. Primeiro, a NEXT nasceu para responder à velocidade da mudança. Sabendo nós que temos a Universitas, uma universidade tradicional, a NEXT surge para responder a essa velocidade. Permite aos profissionais e aos organizações acompanharem a velocidade a que o mundo e os negócios mudam... Portanto, isto já não é um complemento, é uma necessidade permanente para estar em igualdade com outros players internacionais. Não é só a formação de jovens. Hoje em dia, os profissionais no ativo precisam de continuar a adquirir novas competências ao longo da vida.

Mas as outras escolas não oferecem o mesmo?

Sim, as novas escolas também não vão inventar tudo. Aquilo que nós pretendemos fazer de forma distintiva é focarmo-nos na aplicação prática, que é talvez muito mais evidente na nossa oferta relativamente à das outras escolas. No fundo, esse primeiro ponto, da velocidade de mudança, entronca naquilo que se define como um subponto, que é, se quisermos simplificar, a parte da “menos teoria e mais impacto”. E esse talvez seja, até, o nosso principal elemento diferenciador.

Como se traduz essa dinâmica nas aulas?

Vamos sempre promover que os próprios estudantes possam trazer os seus casos reais - das empresas onde estão - para as aulas, para que os trabalhos funcionem numa lógica de mentoria, onde se discute e se resolvem problemas concretos. Além disso, os nossos docentes não ensinam apenas aquilo que estudaram ou para o qual se prepararam academicamente; ensinam o que praticam no seu dia a dia. Os nossos docentes são ativos nas suas profissões, além do percurso académico e pedagógico que têm. Esse elemento é muito importante para nós.

Que outros fatores diferenciam a vossa oferta?

A formação foi toda ela construída para este mercado, não há nenhum programa que tenha sido construído sem interagir com as empresas ou instituições às quais se dirige. Viemos responder a nichos que não estavam cobertos. Portanto, somos muito orientados pela procura real das empresas e não por uma lógica de empurrar programas genéricos para o mercado.

“É,se quisermos simplificar, a parte da ’menos teoria e mais impacto’. E esse talvez seja até o nosso principal elemento diferenciador”

Que meios físicos e humanos tem a NEXT e onde está sediada?

Internamente, temos um espaço próprio, mas privilegiamos nesta formação que os nossos alunos prefiram gerir o seu tempo de forma mais assíncrona. O Grupo Universitas tem 35 anos de existência no Ensino Superior Politécnico e, por isso mesmo, já tem uma vertente muito orientada para a prática. Historicamente, as nossas escolas têm uma grande tendência em que o politécnico seja procurado por pessoas que já estão a trabalhar, que sentiram a necessidade de investir na sua formação superior sem deixar a sua carreira profissional. Respondendo a isto para a realidade da NEXT, aquilo que acontece é ir ainda mais longe. O ensino é maioritariamente online e assíncrono, embora isto dependa de programa para programa. Há conteúdos formativos que são muito difíceis de transmitir de forma assíncrona: aquilo que necessita de interação, tipicamente, não funciona bem quando não há uma interação síncrona, isto é, quando não se está a dar uma aula em direto com o aluno. Portanto, dependendo de caso para caso, nós normalmente o que propomos é formação online, assíncrona, e uma mentoria para ajudar a resolver os problemas.

Quantos docentes ativos têm?

São cursos muito curtos, normalmente temos um, dois, no máximo três docentes por programa. Nalguns casos, os programas podem ter 10 horas, noutros, o maior de que tenho recorde tem 60 ou 70 horas. São ao todo cerca de 15 docentes para os programas ativos da NEXT, embora nós possamos contar com o corpo docente do Grupo Universitas que ronda os 150.

Os vossos cursos, no fundo, podem ser customizados de acordo com as necessidades que vão sendo detetadas no mercado.

Exatamente. Nós temos a capacidade de desenhar programas à medida, temos essa indicação no nosso site. Cada organização tem desafios diferentes, e por isso, além dos programas pré-estruturados que oferecemos, temos recursos para os desenhar à medida. O mais importante é a capacidade de desenhar as formações em função das necessidades da empresa. Reunimos com a empresa, percebemos que têm um departamento jurídico que precisa de formação nesta ou naquela área (por exemplo, com as questões do PRR a necessitar de contratação pública), e aí desenhamos à medida, com o calendário e objetivos formativos que a organização tem.

Para fechar, num soundbite: o que faz a NEXT de melhor?

Preparamos os gestores e executivos para aplicarem o conhecimento avançado logo no dia seguinte, nas suas organizações. É a isso que chamamos NEXT.

Perfil: Carlos Cabeleira

Gerardo Santos

Formação

Engenheiro Químico pelo Instituto Superior Técnico.

Pós-graduações em Prospetiva, Estratégia e Inovação

Doutorado em Gestão pelo Instituto Superior de Economia e Gestão

DNA Empresarial

Conta com mais anos de experiência no terreno industrial e corporativo do que propriamente no ambiente académico.

Carreira

Especializou-se em prospetiva estratégica, gestão da inovação e redes industriais.

Roteiro Internacional

Geriu projetos industriais e avaliou investimentos em Espanha e em Itália.

Missão Atual

Coordenador Executivo da NEXT by Universitas, onde aplica a sua bagagem prática para estreitar a ligação entre a academia e as empresas.

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