

O antigo governador do Banco de Portugal pediu esta quarta-feira “paciência” para a recuperação do setor da construção de habitação e considerou que os Estados Unidos “estão a falecer” devido às políticas económicas da administração de Donald Trump.
Mário Centeno falava na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, durante a conferência “Economia: Autonomia ou Dependência?”, na qual participou com a presidente da IL, Mariana Leitão.
“A crise da habitação em Portugal é um problema típico de crise de congestão. Nós não temos oferta suficiente e temos muita procura”, afirmou o antigo ministro das Finanças, que relacionou o aumento da procura de casas com a subida dos salários em Portugal.
Centeno salientou que os salários em Portugal duplicaram nos últimos dez anos e que no setor privado o valor global de salário pagos passou de 32 mil milhões de euros em 2015 para cerca de 64 mil milhões de euros em 2025, embora ressalvando que este aumento não aconteceu ao mesmo ritmo para todos os trabalhadores.
Segundo o antigo governante, este crescimento “gera uma pressão” da procura que a que um setor da construção “aniquilado durante o programa de ajustamento” financeiro ainda não consegue responder.
“2014 e 2015 são os anos de menor construção e de menor licenciamento em Portugal isto não foi há muito tempo”, apontou, acrescentando que “quando, em economia, trazemos um setor quase para o zero, temos de ter alguma paciência, infelizmente, para que ele se desenvolva”.
O antigo governador do Banco de Portugal enfatizou ainda que a recuperação é particularmente difícil por se tratar de um setor “altamente alavancado em dívida num país altamente endividado”, em particular durante o período de intervenção da ‘troika’.
Na mesma conferência, Mário Centeno também comentou os resultados das eleições intercalares norte-americanas de terça-feira, considerando que os resultados demonstraram o descontentamento dos eleitores com as políticas da administração de Donald Trump.
“Ontem nos Estados Unidos fez-se luz sobre o que são políticas económicas erradas, que prejudicam os países”, afirmou, considerando que “quase todas as políticas dos últimos dois anos dos Estados Unidos estão profundamente erradas”, nomeadamente em matéria de imigração, tarifas, gestão de serviços públicos e impostos.
“A despesa pública americana, depois da motosserra e daquele doido que entrou pela administração pública nos Estados Unidos, cresceu 6% entre outubro deste ano e outubro do ano passado”, atirou.
Centeno defendeu ainda que Portugal deveria ser um dos principais impulsionadores do aprofundamento da integração europeia, argumentando que, num mundo globalizado, “as nações sozinhas falecem”.
“A maior delas, que são os Estados Unidos, está a falecer. Se os Estados Unidos não mudarem as políticas, vai falecer”, considerou.
Centeno deixou ainda críticas aos discursos contra a imigação, que disse serem incompatíveis com o desenvolvimento económico.
“Não é possível haver discursos contra a imigração como aqueles que temos assistido em outros países. Felizmente eles foram derrotados ontem nos Estados Unidos. Eu espero que tenhamos a coragem de os derrotar aqui”, frisando que Portugal não será diferente “se tiver as fronteiras fechadas”.