

A cibersegurança entrou numa nova fase de automatização. No primeiro semestre de 2026, os atacantes aumentaram a escala e a eficiência das suas operações, explorando a confiança crescente dos utilizadores em ferramentas de Inteligência Artificial (IA) e nas rotinas digitais. O novo relatório global de ameaças da ESET (H1 2026), a que o DN/DV teve acesso em primeira mão, traça esta tendência internacional — e dados inéditos revelados pela empresa mostram como ela já se faz sentir em Portugal.
Enquanto a telemetria internacional aponta para uma pressão global generalizada, os números nacionais fornecidos pelo responsável de comunicação da ESET Portugal, Ricardo Neves, revelam que o país está particularmente exposto a ameaças contra o ecossistema Apple e a uma forte incidência de fraude através de correio eletrónico.
De acordo com o relatório global da ESET, que analisa dados recolhidos entre dezembro de 2025 e maio de 2026, as deteções de ameaças em sistemas macOS cresceram 38% a nível mundial. Mas Portugal destaca-se: o aumento no indicador normalizado de deteções em computadores Apple atingiu os 65%, quase o dobro do ritmo global.
A ameaça mais frequente em sistemas macOS no país foi o trojan OSX/PSW.Agent, focado no roubo de credenciais, representando 31,6% de todas as deteções na plataforma. Seguiram-se ferramentas potencialmente inseguras como o OSX/Keygen (17,3%) e programas indesejados como MacBooster e MacKeeper, ambos com 8,2% dos casos detetados.
“Estes dados mostram que o crescimento resulta de uma combinação de programas destinados ao roubo de informação e de software potencialmente indesejado ou inseguro. É também importante esclarecer que estamos a falar de deteções, não necessariamente de infeções bem-sucedidas”, salienta Ricardo Neves. “O aumento confirma, sobretudo, que o macOS é cada vez mais contemplado nas campanhas dos atacantes e que não deve ser encarado como um ecossistema imune a ameaças.”
Além do panorama Apple, o responsável da ESET Portugal avança em exclusivo os dados de vetores de ataque no país. O phishing representa atualmente perto de quatro em cada dez deteções, fixando-se nos 40% das ocorrências travadas pela empresa no território nacional. Já os acessos remotos e bases de dados das empresas portuguesas continuam sob forte pressão: as tentativas de exploração dirigidas a serviços SQL subiram 15,5%, as focadas no protocolo SMB cresceram 13,6% e os ataques a ligações RDP aumentaram 11,6% no mesmo período.
O relatório global da ESET destaca também um marco relevante no ecossistema móvel: o surgimento do PromptSpy, o primeiro malware Android conhecido a integrar IA generativa em tempo real durante a execução.
Ao contrário do que se poderia supor, o Google Gemini não estava instalado no sistema operativo. O malware comunicava com o modelo através de uma ligação externa via API, usando a IA para interpretar os elementos apresentados no ecrã e decidir que ações executar. O bloqueio à remoção não era causado pela IA, mas sim pelo abuso das permissões de acessibilidade do Android, que permitiam ao malware simular toques, navegar na interface e impedir que o utilizador o desinstalasse.
A ESET registou apenas uma deteção desta ameaça — na Ucrânia — e, até ao fecho do relatório, não identificou outras variantes Android com IA generativa integrada diretamente no fluxo de execução. Ainda assim, o caso não foi apenas uma prova de conceito: o PromptSpy estava associado a uma campanha real, distribuída como uma aplicação falsa do JPMorgan Argentina.
Segundo Ricardo Neves, este é um sinal precoce do que poderá vir a ser uma nova geração de malware mais flexível, capaz de adaptar o comportamento ao dispositivo e ao contexto, em vez de depender apenas de instruções pré-programadas. No curto prazo, é mais provável que a IA seja usada para acelerar o desenvolvimento de malware e tornar as campanhas mais dinâmicas, mas o PromptSpy demonstra que a utilização de IA em runtime já é tecnicamente possível — e deve ser acompanhada de perto.
Paralelamente ao cenário móvel, o estudo internacional da ESET alerta para o rápido crescimento da superfície de ataque associada à IA agêntica. A empresa analisou cerca de 900.000 skills — pequenos módulos que dão autonomia aos assistentes virtuais — identificando 25.000 instâncias suspeitas e mais de 3000 maliciosas a nível mundial.
Estes números resultam do rastreio de repositórios públicos globais e não representam vítimas ou incidentes diretos, nem equivalem a 28 mil ataques em Portugal. Ainda assim, o especialista alerta que o perigo reside nas permissões excessivas atribuídas aos assistentes autónomos nas empresas, que podem ser aproveitadas por skills maliciosas para consultar dados sensíveis ou executar ordens não autorizadas.
Perante o avanço da automação ofensiva, a indústria de cibersegurança responde com IA defensiva. Ricardo Neves revela que a ESET anunciou um investimento europeu de 40 milhões de euros no desenvolvimento de tecnologias de segurança baseadas em IA independente. A aplicação prática desta automação permitiu à empresa reduzir o tempo médio de resposta dos seus serviços geridos (MDR) de 20 para até seis minutos, demonstrando eficácia na contenção de incidentes a alta velocidade.
Outro dos grandes destaques do relatório internacional da ESET é a subida do quishing, designação dada ao phishing através de códigos QR, que atingiu uma média global de 100.000 deteções mensais no início de 2026.
Ricardo Neves explica o mecanismo por trás do ataque: “O código QR oculta o endereço de destino e impede o utilizador de avaliar a ligação antes de o ler. Além disso, transfere frequentemente a interação do computador da empresa para um telemóvel pessoal, que pode não ter os mesmos controlos de segurança.”
“Um código QR recebido por email deve ser tratado como qualquer ligação desconhecida. Se a mensagem for inesperada, o colaborador não deve ler o código antes de confirmar o pedido por outro canal. Depois da leitura, deve verificar cuidadosamente o endereço no telemóvel e nunca introduzir credenciais se o domínio não corresponder ao serviço esperado.”
Se a tecnologia avança para patamares complexos, o tecido empresarial português continua a lutar com os básicos. Ricardo Neves cita dados do Centro Nacional de Cibersegurança para ilustrar o fosso de maturidade no país: 95,1% das pequenas empresas nacionais adotam pelo menos uma medida de segurança, mas apenas 4,3% aplicam o conjunto completo de medidas avaliadas. Além disso, apenas 36% utilizam autenticação multifator e 37% realizam gestão ativa de risco.
Para a segunda metade de 2026, o responsável da ESET Portugal fixa a prioridade para os gestores de TI nacionais: “A prioridade número um deve ser reduzir a exposição das organizações e limitar o impacto de um sistema comprometido.”
Para as PME portuguesas, isto implica evoluir da proteção básica para soluções integradas com gestão de patches, segurança de email e MFA. Já as grandes organizações devem apostar em monitorização centralizada através de arquiteturas XDR ou serviços MDR — essenciais para relacionar sinais dispersos, investigar incidentes e responder rapidamente a ameaças.