

Diferentes análises apontam que o aumento da dívida pública chinesa está a limitar a capacidade para lançar novos estímulos económicos, numa altura em que o consumo interno permanece débil e o setor imobiliário atravessa uma crise prolongada.
Os pagamentos de juros da dívida deverão absorver este ano 19,2% do orçamento geral do Governo central, contra 12% em 2014, de acordo com um estudo recente do centro de investigação económica norte-americano Conference Board.
O problema é particularmente grave ao nível das administrações locais, onde os encargos com juros aumentaram, em média, 16% ao ano durante o mesmo período.
No conjunto, os pagamentos de juros da dívida dos governos central e locais deverão atingir 1,4 biliões de yuan (cerca de 187 mil milhões de euros) em 2026, contra aproximadamente 348 mil milhões de yuan (46,5 mil milhões de euros) em 2014.
"O serviço da dívida está a tornar-se uma restrição significativa à margem de manobra orçamental ao nível local", afirmou Yuhan Zhang, economista principal do Centro para a China do Conference Board.
A dívida pública chinesa cresceu rapidamente nos últimos anos, em resultado de um modelo de desenvolvimento assente no investimento, que depende de empréstimos estatais e incentivos a projetos favorecidos pelas autoridades.
Segundo analistas do banco norte-americano Morgan Stanley, a dívida pública deverá atingir 122% do produto interno bruto (PIB) no final de 2026, mais 48 pontos percentuais do que antes da pandemia de covid-19.
O agravamento do endividamento surge numa altura em que Pequim procura estimular a procura interna, afetada por cinco anos de crise no setor imobiliário, que reduziram a riqueza das famílias e as receitas das administrações locais.
O crescimento da economia chinesa abrandou para 4,3% no segundo trimestre, abaixo do objetivo oficial de expansão anual, fixado entre 4,5% e 5%, num contexto de enfraquecimento das vendas a retalho e de forte queda do investimento em ativos fixos.
No final de setembro, as autoridades chinesas anunciaram novas medidas de estímulo, incluindo subsídios aos juros dos empréstimos à habitação e uma redução dos juros de uma linha de financiamento disponibilizada pelo banco central.
As medidas surgiram poucos dias depois de o Conselho de Estado (Executivo chinês) ter apelado à intensificação dos esforços para aplicar ajustamentos anticíclicos na política macroeconómica.
Pequim reforçou também a cobrança de impostos sobre juros e dividendos obtidos através de estruturas fiduciárias ('trusts') no estrangeiro, numa tentativa de aumentar as receitas fiscais, sobretudo junto dos contribuintes mais ricos.
Vários analistas questionam, porém, a eficácia das medidas anunciadas.
O banco britânico Barclays descreveu o pacote como "um pequeno impulso, não uma mudança decisiva", enquanto o banco de investimento norte-americano Goldman Sachs estimou que os subsídios fiscais poderão atingir, no máximo, 100 mil milhões de yuan (13,3 mil milhões de euros) ao longo de cinco anos.
"Na nossa opinião, é provável que esta política fique aquém das expectativas dos investidores", afirmou John Lam, responsável pela investigação sobre o setor imobiliário da China e de Hong Kong no banco suíço UBS.
Apesar da fraqueza da procura interna, Pequim tem sinalizado que pretende continuar a privilegiar o investimento em tecnologias avançadas, em detrimento de um programa de estímulo generalizado ao consumo.
A estratégia reflete também o forte crescimento das exportações chinesas, sobretudo de produtos eletrónicos relacionados com a inteligência artificial (IA), numa altura em que o país disputa com os Estados Unidos a liderança nas indústrias emergentes.
"Devemos continuar a expandir e a reforçar a indústria transformadora avançada e melhorar o nível de autossuficiência", afirmou o Presidente chinês, Xi Jinping, numa mensagem transmitida em setembro a uma conferência sobre indústria avançada, em Pequim.