Estudo do BdP indica que crise da habitação não se resolve com políticas "do lado da procura"

Choques da procura refletem-se de forma mais intensa "no valor da habitação enquanto ativo do que no custo de arrendamento".
Estudo do BdP indica que crise da habitação não se resolve com políticas "do lado da procura"
Foto: José Mota
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O aumento da procura conduz a subidas nos preços, nas rendas e no rácio preço-renda das casas, demonstrando que a crise habitacional não se resolve "através de políticas do lado da procura", segundo um estudo divulgado esta quinta-feira, 15 de outubro.

A análise, publicada na Revista de Estudos Económicos do Banco de Portugal (BdP), assinala também que os choques da procura refletem-se de forma mais intensa "no valor da habitação enquanto ativo do que no custo de arrendamento".

"É particularmente importante o facto de o efeito sobre os preços da habitação ser consideravelmente maior do que o efeito sobre as rendas, sugerindo que os choques positivos da procura são capitalizados de forma mais intensa no valor da habitação enquanto ativo do que no custo de arrendamento", lê-se no estudo assinado por João Amador.

Este resultado indica que "as políticas destinadas a melhorar a acessibilidade à habitação deverão prestar particular atenção ao aumento da capacidade de resposta da oferta".

Ainda de acordo com o estudo do banco central, o aumento de 1% na procura de habitação "aumenta os preços das casas em cerca de 0,69% e as rendas em cerca de 0,37%, aumentando também o rácio preço-renda".

São os municípios com menos oferta de habitação os que registam "aumentos substancialmente maiores dos preços e das rendas", com destaque para Lisboa e Porto, em comparação com os concelhos com menos habitantes, "onde a oferta consegue ajustar-se mais facilmente" ao aumento da procura.

Segundo o estudo, a procura de habitação é incentivada por fatores demográficos como a migração, os agregados familiares, o rendimento, as condições de financiamento, a fiscalidade, o turismo e as alterações nas preferências habitacionais.

O aprofundamento destes fatores, assim como as suas interações com o ordenamento do território e com as restrições de solos é, para o autor do estudo, "essencial para a conceção de políticas de habitação eficazes".

Exemplo disso é a região do Algarve, "onde uma oferta inelástica se depara com procura proveniente de fontes não residentes e orientadas para o investimento".

Face ao aumento acentuado dos preços e das rendas dos imóveis residenciais, sobretudo a partir de 2022, o estudo conclui que "a construção de habitação manteve-se comparativamente contida, o que suscita preocupações quanto a eventuais restrições de oferta estarem a amplificar os efeitos do aumento da procura".

É ainda referido no estudo que a escassez de dados estatísticos sobre o mercado da habitação condicionou esta análise sobre preços da habitação, rendas, parque habitacional e número de novas famílias nos municípios portugueses entre 2017 e 2024.

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