EUA e Japão fazem intervenção cambial histórica para estabilizar o iene

Operação conjunta rara nas últimas três décadas visa travar a desvalorização acentuada da moeda nipónica, proteger o mercado de dívida americano e afastar o risco de instabilidade financeira global.
Trump com a nova primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi, em outubro.
Trump com a nova primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi, em outubro.EPA-JAPAN POOL VIA JIJI PRESS
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Numa rara demonstração de coordenação monetária e intervencionismo financeiro, os Estados Unidos e o Japão confirmaram esta quarta-feira (5 de agosto) a realização de uma ação conjunta nos mercados de câmbio internacionais.

O objetivo central passou por deter a depreciação acelerada do iene japonês, numa operação que apanhou os mercados mundiais de surpresa pela sua dimensão e pelo envolvimento direto de Washington.

A ação foi espoletada após a moeda japonesa ter atingido o seu nível mais fraco em 40 anos, roçando a fasquia dos 164 ienes por dólar no final de julho. A intervenção direta do Tesouro norte-americano e da Reserva Federal de Nova Iorque, atuando em sintonia com o Ministério das Finanças japonês e o Banco do Japão, permitiu uma rápida recuperação da divisa nipónica, que regressou ao intervalo de flutuação entre os 155 e os 157 ienes por dólar.

Ofensiva coordenada nos mercados

A estratégia desenhada pelas autoridades monetárias combinou uma injeção substancial de capital no mercado cambial com mensagens políticas calculadas ao pormenor. Do lado norte-americano, uma nota manuscrita de Scott Bessent sugeria compras entre 5 e 10 mil milhões de dólares, embora o montante final da operação não tenha sido oficialmente divulgado. Na operação, o Tesouro recorreu também a reservas em euros. Em simultâneo, as autoridades japonesas alocaram entre 4 biliões e 5 biliões de ienes (aproximadamente 25,5 mil milhões a 32 mil milhões de dólares) numa única sessão de negociação.

Para assegurar que o Japão dispunha de liquidez imediata sem necessidade de desfazer as suas posições em títulos da dívida pública americana, Washington reforçou o acesso de Tóquio à linha de crédito FIMA Repo Facility da Reserva Federal. Este mecanismo permitiu ao Banco do Japão obter dólares frescos entregando títulos do Tesouro dos EUA como colateral, evitando assim a venda forçada desses ativos no mercado secundário.

A dimensão operacional foi reforçada por uma intensa sinalização verbal. Declarações simultâneas de Scott Bessent e da Ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, garantiram que ambas as nações estão preparadas para intervir novamente caso a especulação persista. O Presidente Donald Trump sublinhou igualmente o apoio inequívoco a Tóquio, afirmando que a estabilização da moeda japonesa salvaguarda a economia global e os interesses estratégicos norte-americanos.

As razões estratégicas de Washington

A decisão dos EUA de utilizarem as suas reservas cambiais em defesa da moeda de um parceiro estrangeiro constitui um gesto de exceção fundamentado em três pilares estratégicos decisivos.

Segundo analistas, a operação visou, em primeiro lugar, proteger o próprio mercado de dívida dos Estados Unidos. O Japão é o maior credor externo do governo norte-americano e uma intervenção unilateral por parte de Tóquio exigiria a liquidação em grande escala de títulos do Tesouro dos EUA. Uma venda massiva dessa natureza faria disparar as taxas de juros (yields) da dívida soberana americana, aumentando de forma imediata os custos de financiamento do Estado e das famílias nos Estados Unidos.

A intervenção pretendeu também travar os receios de colapso das operações de carry trade — em que um investidor pede dinheiro emprestado numa moeda com taxas de juro muito baixas (como o iene) para aplicar esses fundos noutro país com rendimentos mais elevados (como o dólar) — e a consequente contaminação financeira global.

Ao longo de anos de taxas de juro ultra-baixas, o iene consolidou-se como a moeda de eleição para financiar investimentos de risco em todo o mundo. A volatilidade extrema e a desvalorização descontrolada da divisa japonesa ameaçavam espoletar chamadas de margem e liquidações forçadas em cadeia nas bolsas e nos mercados de obrigações internacionais.

Por último, a ação conjunta procurou corrigir desequilíbrios comerciais graves e evitar dinâmicas de desvalorização competitiva. O enfraquecimento excessivo do iene não só encarecia as importações vitais de energia e alimentos para a população japonesa, como também expandia o défice comercial dos Estados Unidos face ao Japão, gerando atritos nas relações bilaterais.

Outras intervenções do género na era moderna

As intervenções cambiais internacionais entre grandes potências são acontecimentos excecionais na história económica recente, reservados para momentos de particular turbulência financeira. Analisando os episódios mais marcantes da história moderna, ordenados da intervenção mais recente para a mais antiga, destaca-se a relevância de tais mecanismos de cooperação.

A intervenção multilateral imediatamente anterior ocorreu em março de 2011, na sequência do terramoto, tsunami e desastre nuclear de Fukushima. Perante a incerteza, os investidores e seguradoras japonesas repatriaram massivamente capitais, o que provocou uma apreciação especulativa e indesejada do iene até ao valor recorde de 76,25 ienes por dólar. Temendo o impacto destrutivo dessa subida sobre os exportadores nipónicos num momento de crise nacional, os países do G7 atuaram de forma conjunta nos mercados vendendo ienes para travar a escalada da moeda.

Anteriormente, em setembro de 2000, os principais bancos centrais do mundo uniram forças para defender a credibilidade do euro recém-criado. Após o seu lançamento em 1999, a moeda única europeia sofrera uma depreciação contínua de cerca de 30% face ao dólar, cotando abaixo dos 0,85 dólares. Numa operação surpresa, o Banco Central Europeu, a Reserva Federal dos EUA, o Banco do Japão, o Banco de Inglaterra e o Banco do Canadá intervieram nos mercados comprando euros, estabilizando a divisa e consolidando o projeto monetário europeu.

Em junho de 1998, no auge da Crise Financeira Asiática, os Estados Unidos e o Japão realizaram uma operação bilateral direta semelhante à atual. Com a economia japonesa em recessão e o sistema bancário sob fortíssima pressão, o iene caíra para os 146 por dólar. Temendo um efeito dominó de desvalorizações competitivas em toda a Ásia, a Reserva Federal de Nova Iorque adquiriu massivamente ienes no mercado internacional em coordenação com Tóquio para travar a especulação e estabilizar a região.

O Acordo do Louvre, assinado em fevereiro de 1987 em Paris, marcou outra intervenção fundamental. Depois de a moeda norte-americana ter caído acentuadamente nos dois anos anteriores, as potências do G6 (EUA, Japão, Alemanha Ocidental, França, Reino Unido e Canadá) concordaram em travar a depreciação desordenada do dólar e estabelecer bandas implícitas de flutuação para garantir a estabilidade das taxas de câmbio.

Em setembro de 1985, o Acordo de Plaza permanece como o marco fundador do intervencionismo cambial moderno. Perante uma valorização de 50% do dólar na primeira metade da década de 80 — que sufocava a indústria transformadora americana —, os ministros das Finanças do G5 reuniram-se no Hotel Plaza, em Nova Iorque, para vender dólares de forma massiva. A intervenção coordenada reduziu o valor da moeda americana em cerca de 40% nos anos seguintes, embora tenha desencadeado efeitos secundários na economia japonesa ao impulsionar o corte de juros que alimentou a bolha financeira nipónica do final dos anos 80.

Trump com a nova primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi, em outubro.
Donald Trump confirma apoio dos EUA à moeda japonesa após forte desvalorização
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