

Paulo Gonçalves, diretor executivo da APICCAPS (associação do setor do calçado) – e que está por trás do slogan “a indústria mais sexy da Europa”, lançado no final de 2010 e que catapultou a fileira a nível internacional –, fala-nos nesta entrevista da reinvenção da indústria, do valor do sapato português, da aposta nos EUA e até da sucessão nas empresas.
No primeiro semestre, o setor registou uma quebra de 2,1% nas exportações. É um sinal dos tempos? Como irá terminar 2026?
Estão a suceder profundas transformações a nível internacional. Por um lado, há uma redução do consumo. Por outro, o que nos afeta particularmente, verifica-se o desaparecimento de algum retalho independente. Nós trabalhamos para o retalho, para as sapatarias de todo o mundo. Na Alemanha, em 2023, desapareceram mais de nove mil sapatarias independentes. Muitos dos nossos clientes tradicionais desapareceram. E depois verifica-se o crescimento das vendas online.
O comércio online pressupõe uma estratégia de marca própria. Nós temos algumas marcas portuguesas que são conhecidas internacionalmente, mas não temos marcas, infelizmente, de dimensão internacional. Esse é um problema que afeta praticamente todos os setores da economia portuguesa. Faltam-nos marcas de grande reputação internacional. O país, há uma semana, que anda a discutir a saída de Cristiano Ronaldo da seleção. A grande marca internacional que temos é Cristiano Ronaldo.
As exportações de calçado cresceram 1% em 2025. Fomos um dos poucos players internacionais que cresceu no último ano. A quebra no primeiro semestre deste ano insere-se num contexto em que a quebra das exportações da China, que assegura 55% da produção mundial de calçado, foi de 5%. A Turquia teve um decréscimo de 12%. O Brasil caiu 17%. Portugal, Itália e Espanha estão a cair 2%.
Nós vivemos um cenário de duas guerras. A Rússia representava 50 milhões de euros nas nossas exportações. Havia um conjunto de países no Médio Oriente que estavam a comprar calçado português, nomeadamente nos segmentos alto e de luxo. Nos últimos quatro anos, perdemos dois mercados importantes. Há também as dificuldades que estão associadas ao estreito de Ormuz. Condicionam a atividade económica, aumentam os combustíveis, aumentam a inflação e aumentam o custo de vida. As pessoas têm menos dinheiro para gastar no que consideram menos relevante. É normal que não chegue ao final de 2026 em terreno positivo. Mas tenho a expectativa que o ano de 2027 será um ano positivo para a indústria do calçado a nível internacional.
O que está a fazer a APICCAPS para contrariar esta conjuntura?
Não temos feito grandes alterações face ao que definimos no último plano estratégico. Mais do que estudar mercados, nós procuramos estudar cidades. Elegemos 145 cidades, dois terços estão nos Estados Unidos e na Europa. Olhámos para um conjunto de indicadores, como a evolução do consumo, a taxa de crescimento demográfico, o crescimento do PIB per capita, e identificámos essas cidades. E é aí que está a nossa prioridade. Este ano, nos Estados Unidos, tivemos ações em Atlanta, Chicago, Las Vegas, Nova Iorque. Este ano, os EUA ascenderam, pela primeira vez, a 5º mercado de destino do calçado português. Na primeira metade do ano, as exportações cresceram 12% para os EUA.
As tarifas alfandegárias são uma barreira?
São iguais às tarifas dos nossos colegas espanhóis e italianos. Estamos em igualdade de circunstâncias. Se compararmos as nossas tarifas com as da China , Brasil, Vietname, Índia... Portugal fica bem na fotografia. Não temos dúvidas que este é o nosso momento nos Estados Unidos. Estamos a fazer investimentos em comunicação e na área comercial. O calçado português está a crescer nos EUA, mas ainda muito longe de atingir o potencial. No ano passado, exportámos 84 milhões de euros. Itália, que é o nosso grande concorrente internacional, exportou mais de 1500 milhões de euros. Não há nenhum mercado a nível internacional em que a diferença entre Portugal e Itália seja tão significativa. Temos ali um espaço de crescimento muito interessante. Temos dado muitos passos nos EUA e, do ponto de vista da reputação, Portugal está hoje a viver um bom momento nos EUA.
O setor tem enfrentado dificuldades nos dois principais mercados de exportação, Alemanha e França. O que está a acontecer?
Estamos a procurar novos mercados exatamente porque o europeu tem vivido uma situação relativamente anémica, em particular a Alemanha e a França. Mas não deixam de ser dois mercados estratégicos para nós. Temos conseguido novos clientes, com novas marcas alemãs a produzir em Portugal. Já não acontece o mesmo na França. Em França, a queda do retalho independente está a penalizar-nos. Estamos a procurar novas abordagens, novos públicos, novas tipologias de produto, porque França é um mercado natural para as nossas empresas.
O preço médio do calçado português aumentou 2,4%, para cerca de 27 euros. É uma vantagem ou desvantagem?
É relevante poder dizer que estamos entre os grandes produtores mundiais de calçado, que temos o segundo preço médio de exportação, só ultrapassado por Itália. Significa que o calçado português ganhou reputação internacional. As pessoas já estão disponíveis para pagar mais pelo calçado que sabem que é feito em Portugal. O preço é alto porque nós somos especializados em calçado em couro, que é o segmento mais valorizado pelo mercado. Mas o preço médio não é um fim em si mesmo. Até é natural que nos próximos anos o preço médio do calçado português venha a diminuir. E se isso acontecer curiosamente é uma boa notícia. É sinal que nós estamos a conseguir diversificar a nossa oferta. Até há bem pouco tempo uma das grandes lacunas do setor era o excesso de concentração no segmento do calçado em couro. Chegou a ser 90%. Hoje representa menos de 60%. Estamos a introduzir novos materiais para que a oferta seja muito mais abrangente. E, dessa forma, vamos conseguir chegar a mais mercados.
Estamos a migrar a produção para segmentos com maior valor acrescentado. Eu trabalho na APICCAPS há 28 anos. Há 28 anos nós já trabalhávamos para marcas internacionais. A diferença é que trabalhávamos para marcas do segmento médio e, em alguns casos, médio baixo. Também havia marcas relevantes e segmentos mais altos que trabalhavam em Portugal, mas eram em exceção. Hoje, nós trabalhamos, fundamentalmente, para marcas internacionais de primeiríssima linha. Nos segmentos premium e de luxo.
O setor investiu mais de 100 milhões de euros nos últimos anos, com apoios do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Esses investimentos permitiram à indústria dar um novo salto?
Estamos a reinventar a indústria. Investimos 110 milhares de euros. Permitiu-nos desenvolver novos produtos, nomeadamente na área da sustentabilidade. Abordar outros segmentos do mercado, como o calçado profissional, de segurança e de defesa, que é um mercado que pode ter um potencial de crescimento muito grande. E, depois, dar prioridade a mercados que nós consideramos, efetivamente, estratégicos.
O projeto FAIST – Fábrica Ágil, Inteligente, Sustentável e Tecnológica, com investimentos em automação e robótica, permitiu-nos ganhar alguma escala. No passado, éramos especialistas na resposta a pequenas séries e na resposta rápida. Não perdemos essa capacidade, mas hoje, através das linhas automatizadas, conseguimos responder a clientes de alguma dimensão. Podemos atuar em dois segmentos de mercado completamente distintos. Nunca estivemos tão bem preparados para o mercado americano como estamos hoje.
No BioShoes4All, juntámos cerca de 80 parceiros, entre universidades, centros tecnológicos e empresas da fileira e de setores como têxtil e a cortiça. Portugal é, seguramente, uma das grandes referências internacionais ao nível do desenvolvimento de produtos sustentáveis. Somos mais eficientes e rápidos, reduzimos o uso de água, energia e de resíduos. Desenvolvemos um conjunto de novos produtos. Tínhamo-nos comprometido a desenvolver 59 produtos, quadruplicamos. Foram mais de 200 novos produtos que introduzimos no mercado. E temos que transformar estas inovações em atividade comercial, temos que rentabilizar estes investimentos. Transformar inovação industrial em sucesso comercial.
Como estão a fazer essa promoção?
Uma área que para nós é crítica, e temos vindo a trabalhar muito nessa área, é a formação avançada para as empresas no domínio comercial. Nestes últimos 15 anos muito mudou na área comercial e precisamos que os nossos profissionais estejam preparados. Passamos a contratar serviços especializados no exterior na área comercial. Quando chegamos a um novo mercado, precisamos que nos ajudem a cruzar a oferta e a procura. Temos agências de comunicação em diversos países ao serviço do setor, ao serviço das empresas. Fizemos parcerias com escolas de moda em Londres, em Nova Iorque e em Paris. Organizamos conferências no exterior. Estamos a trabalhar com grandes plataformas internacionais de moda, como o grupo Condé Nast, que representa a Vogue. Temos trabalhado com o Business of Fashion. Estamos a participar em várias Semanas da Moda. Desde o início do ano, estivemos em praticamente 20 desfiles em Nova Iorque, Paris, Milão e Londres. Estamos a apostar forte no marketing digital. Nós temos nove milhões de contatos que interagem connosco regularmente. Não queremos que a nossa indústria deixe de ser sexy.
Dentro da sustentabilidade da fileira, está pensada uma certificação do percurso do couro?
O couro é a melhor matéria-prima que existe no mercado. Nós reciclamos uma matéria-prima que foi desprezada pelo indústria alimentar. O calçado em couro tem maior qualidade do que os produtos concorrentes e é durável. Não é sustentável é que produzam 24 mil milhões de pares de sapatos no mundo. Não é sustentável que 88% desses sapatos sejam feitos na Ásia. E que muito do calçado que chega ao grande público não tenha qualidade.
No âmbito dos projetos da bioeconomia, é muito importante para nós a rastreabilidade. Nós queremos informar os consumidores sobre o que estão a comprar. Queremos que saibam que quando compram um par de sapatos feitos em Portugal estão a comprar matéria-prima portuguesa, qualidade, respeito pelas normas sociais e a preço justo.
Nós somos apologistas de um selo, uma certificação, mas a nível europeu. Gostaríamos que existissem condições de comércio livre, justo e equilibrado. A Europa tem um discurso um bocado esquizofrénico. Fala-nos de reindustrialização, defesa da indústria europeia, defesa da soberania, mas, no mesmo momento, o que faz é escancarar as portas da Europa. Nós pedimos aos centros tecnológicos internacionais que adquirissem produtos das grandes plataformas - das Temu, das Aliexpress e outras da mesma natureza. A conclusão a que chegamos é que mais de 40% do calçado destas plataformas que chegam à Europa não correspondem às diretrizes comunitárias. A Europa abre as fronteiras numa perspectiva de proteger os consumidores, mas o que está a fazer é negligenciar milhares e milhares de postos de trabalho.
Este discurso, que existe no setor têxtil, vestuário, calçado há dezenas de anos, começa a ter maior repercussão, porque está a afetar a indústria alemã. Os burocratas europeus começam a perceber a dimensão do problema.
Tivemos uma iniciativa inédita em Portugal chamada Portuguese Shoes Green Pact. Foi subscrito por 140 empresas que representaram mais de 50% da nossa produção. Passamos a auditar as empresas, o consumo de água, de energia, olhamos para a rastreabilidade, para o eco design, para a embalagem. Nós estamos preparados para as regras. Para quem não quiser usar sapatos feitos de pele de animais, nós fabricamos sapatos veganos.
O setor tem muitas empresas familiares. As novas gerações (e as antigas) estão preparadas para o futuro?
Há referências ao setor do calçado desde o início do século passado, mas o grande boom foi nos anos 80/90. É agora que está surgir a questão da sucessão. Em muitas das empresas esse caminho está a ser feito. A segunda geração ou, às vezes, a terceira geração, já está muito mais bem preparada. Têm educação superior, muitos deles até já estudaram no exterior. Mas, em todo caso, a sucessão deve ser planeada. Contratámos o professor Luís Todo Bom, que reuniu com dezenas de empresas e realizou dezenas de visitas, e identificou-se um modelo de sucessão na indústria do calçado. Uma sucessão bem-sucedida demora no mínimo seis anos. Nós temos vários conselhos que damos aos empresários, uma metodologia de trabalho. Nós quisemos preparar, antecipar. Nós tivemos algumas empresas que ficaram pelo caminho porque não havia sucessão. Se os empresários tiverem consciência disso, tiverem uma metodologia para seguir nos próximos anos, vamos conseguir atuar a tempo em dezenas e dezenas de empresas. A sucessão pode ser uma para uma gestão profissionalizada. Não tem que ser familiar. Tem que ser familiar se houver competências internas.
A indústria do calçado ressente-se de falta de mão de obra?
A indústria tem tido a capacidade de realizar investimentos em tecnologia de ponta. O setor quer fábricas mais produtivas, com empregos mais qualificados. No futuro, queremos menos profissionais inqualificados e cada vez mais engenheiros de produto. As pessoas tendem a afastar-se da indústria. Fiz parte de um grupo de trabalho promovido pela Comissão Europeia sobre a atratividade dos jovens para os setores têxtil, restauração, calçado e joalharia. Nos próximos cinco anos, na Europa, serão precisas grosso modo 500 mil pessoas. Um dos principais problemas que hoje é identificado na China é também a falta de pessoas para trabalhar no setor industrial.
Nós estamos a promover um roteiro de conhecimento nas escolas. Nos últimos dois anos, contactámos com mais de quatro mil alunos. Falámos com professores, com alunos e, no final do ano, com os pais. Queremos combater os estigmas, melhorar as condições de trabalho nas nossas empresas e tornar mais apetecível trabalhar nos setores industriais, com os investimentos que vamos fazendo no domínio tecnológico
O setor tem dois grandes centros de formação, um em São João da Madeira e o outro em Felgueiras. O centro tecnológico ministra formação para técnicos superiores e empresários. A Universidade Católica fez um mapeamento da qualificação no setor. Está na altura de definirmos um plano estratégico para a qualificação das empresas e dos trabalhadores. Vamos querer contribuir para a reformulação da formação profissional e da qualificação no setor do calçado e em Portugal. Só havendo uma estratégia comum, um conjunto de objetivos mensuráveis, é que conseguiremos obter resultados. Associado a isso, vamos continuar a ir às escolas primárias, secundárias e às universidades falar do setor e do seu potencial.