

A secretária do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas dos Açores desdramatizou os números que apontam para uma quebra do número de visitantes externos, lamentou o fim das operações da Ryanair no arquipélago e responsabilizou a falta de slots no aeroporto Humberto Delgado pelos constrangimentos nas acessibilidades. Berta Cabral falava durante a sessão de abertura do encontro anual das Casas Açorianas — Associação de Turismo em Espaço Rural, que se realiza em Angra do Heroísmo, e cujo tema é "Como voltar ao crescimento?".
Para a secretária do governo presidido por José Manuel Bolieiro, há um assunto que, "talvez por ser mais técnico", é pouco levantado: as consequências resultantes de o aeroporto de Lisboa não ter capacidade para ter mais slots e, com isso, aumentar a sua oferta. "É um problema para o país todo, mas os Açores são os mais afetados", afirmou, tendo realizado diligências junto do executivo de Lisboa, mas também junto da Autoridade Nacional de Aviação Civil, da ANA - Aeroportos de Portugal, e inclusive contactado o presidente da Câmara de Lisboa. "Temos de fazer tudo ao nosso alcance para aumentar os slots para os Açores."
Os turistas portugueses representam 35% das dormidas nos Açores. Como não há meio de, a curto prazo, aumentar as ligações ao continente, Berta Cabral aponta para a aposta no mercado internacional. Além da TAP e da SATA, há mais 14 companhias aéreas a voar para os Açores, três das quais em estreia neste ano, e lembrou que em 2027 haverá duas novas rotas (Bruxelas-Ponta Delgada pela Transavia e Newark-Lajes pela United Airlines).
A saída da Ryanair, consumada no final de março, fez cair a chegada de passageiros, de turistas, e contribuiu para o aumento do preço dos bilhetes, ao que se juntou, em junho, o fim do teto máximo de 600 euros de reembolso aos açorianos que compram passagens aéreas para o continente. "O governo [regional] reconhece que há um excesso no valor das tarifas aéreas", disse a governante em declarações aos jornalistas. Antes, durante a sua intervenção, Berta Cabral não escondeu ter "pena" do sucedido, mas lembrou que é uma empresa privada que "faz as suas opções" e que, para mais, "não se dá bem com as normas europeias".
Para a secretária do Turismo, esta atividade "vive uma fase de ajustamento", dado o seu caráter "muito volátil", tendo identificado a situação internacional, a perda do poder de compra, o aumento do preço dos combustíveis como fatores que contribuem para "uma maior prudência nas escolhas e prioridades". No entanto, crê que "o decréscimo não é alarmante" — é "absolutamente recuperável, desde que seja com sustentabilidade, com qualidade, com uma oferta de experiências autênticas para não descaracterizar os Açores".
Berta Cabral respondia, de alguma forma, às preocupações manifestadas pelo presidente das Casas Açorianas. Gilberto Vieira apelou para a intervenção do governo regional para contrariar a quebra continuada de turistas em 11 meses consecutivos através de mais investimento na promoção turística. "O turismo está a decrescer de forma preocupante nos Açores", considerou Vieira.
Segundo as estatísticas oficiais, os Açores receberam 951 mil visitantes de janeiro a agosto, menos 3,4% do período homólogo em 2025. E em agosto registou-se uma quebra de 4,9%, quando os números globais de Portugal são de aumento. A secretária regional disse que o governo projeta investir no próximo orçamento 17,2 milhões de euros em promoção turística. Aos operadores turísticos, em especial aos do turismo rural e alojamento local, onde a quebra se registou, Berta Cabral sugeriu a criação de pacotes integrados com companhias aéreas os rent-a-car, como se encontra noutros destinos.
Também presentes na sessão inaugural, que decorreu no Centro Interpretativo de Angra do Heroísmo — cujo edifício original foi reconvertido pelo traço de Álvaro Siza Vieira — as autarcas da cidade e da Praia da Vitória, Fátima Amorim e Vânia Ferreira, respetivamente, coincidiram na análise ao sublinharem a importância do turismo rural e de qualidade como um fator diferenciador para recuperar o património, estimular a economia e mitigar a sazonalidade do turismo. Tudo com autenticidade, porque esta, como disse Ferreira, "não se fabrica: protege-se e transmite-se".
O jornalista viajou a convite das Casas Açorianas — Associação de Turismo em Espaço Rural.