Guerra ameaça sobrevivência das empresas de aluguer de carros
FOTO: Sara Matos/GI

Guerra ameaça sobrevivência das empresas de aluguer de carros

Aumento dos custos energéticos e da inflação está a pressionar empresas de aluguer de automóveis. O setor do rent-a-car, que enfrenta quebra nas tarifas há dois anos pelo recuo na procura e aumento da concorrência, alerta que operadores de menor dimensão estão em risco.
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Os impactos da guerra do Médio Oriente, que tem adensado a instabilidade nos mercados energéticos e pressionado os preços do petróleo, estão a colocar em causa a sobrevivência das empresas de aluguer de carros no país. O alerta é dado pela Associação dos Industriais de Aluguer de Automóveis sem Condutor (ARAC), que explica que "o risco é mais elevado entre os operadores de menor dimensão, menos capitalizados e com menor escala operacional”.

A escalada do conflito e o aumento dos custos veio adensar os desafios do negócio das rent-a-car, que têm enfrentado uma queda nos preços nos últimos anos devido ao aumento da concorrência, ao excesso de frota e à quebra da procura. Só em 2024 as tarifas cobradas aos clientes recuaram cerca de 30%, cenário que o setor não conseguiu inverter em 2025.

Com as margens de rentabilidade fragilizadas, o atual quadro económico veio comprimir ainda mais a operação destas empresas. “A subida dos combustíveis, a inflação e os custos de financiamento agravaram a pressão sobre um setor que já vinha a operar com margens apertadas. Como a concorrência continua intensa, esse aumento não pode ser passado de forma automática para os preços. O efeito mais direto sente-se nos custos de operação e numa nova compressão da rentabilidade”, refere ao DN o presidente da ARAC.

Joaquim Robalo de Almeida explica que as locadoras ainda estão a conseguir absorver parte desse impacto através de uma melhor gestão da frota, mas assegura que “essa capacidade é limitada e tende a esgotar-se rapidamente”, sobretudo para as empresas menos robustas.

“O aumento dos preços refletiu-se, sobretudo, nos custos operacionais suportados pelas empresas, como entregas e recolhas, reposicionamento de frota, deslocações internas, assistência e preparação de viaturas, além de ter agravado, de forma indireta, o custo geral da operação num contexto de maior instabilidade económica”, enquadra.

O responsável ressalva que o combustível consumido durante o aluguer é, regra geral, pago pelo cliente e, ao contrário de outros setores de atividade, o efeito nas locadoras "sente-se diretamente no combustível suportado pela empresa e, sobretudo, no agravamento global dos restantes custos operacionais e financeiros".

A elasticidade para repercutir os custos nos preços finais é pouca e apenas uma franja das empresas tem conseguido fintar esta fatura mais pesada. “Segmentos premium, épocas de maior procura, balcões em aeroportos, taxas acessórias, políticas de combustível, coberturas adicionais e pricing dinâmico permitiram absorver parte da pressão. Mas não houve margem para uma transferência integral e linear desses custos para toda a tabela de preços”, ilustra.

As empresas estão a responder, sobretudo, pela "via da eficiência", reforçando a gestão de frota, reduzindo os quilómetros improdutivos, apostando numa maior digitalização e automatização de processos e utilizando de ferramentas de gestão e telemática e simplificação contratual para ganhar tempo e cortar custos. "A reação tem sido menos comercial e mais operacional: fazer melhor, com menos margem para desperdício", justifica o presidente da ARAC.

Turistas gastam menos e estão mais cautelosos

Olhando para o perfil do cliente, os turistas representam o principal segmento de negócio das rent-a-car, com um peso de 60% na operação global. Apesar de Portugal continuar a bater recordes na atividade, os visitantes estrangeiros estão a gastar menos em serviços secundários, priorizando o alojamento e a alimentação.

Para segundo plano ficam as despesas com atividades de lazer e a redefinição do orçamento para férias tem gerado uma quebra na procura dos serviços de aluguer de automóveis. O início do conflito no Médio Oriente também já trouxe alterações ao comportamento dos clientes. “Sobretudo ao nível da prudência. As pessoas estão mais cautelosas, reservam mais em cima da hora, têm uma maior sensibilidade ao preço e querem mais flexibilidade”, indica o presidente da ARAC.

A subida dos preços dos combustíveis irá pesar nas decisões de mobilidade dos turistas que, de acordo com o líder da associação, irão fazer uma escolha mais criteriosa do meio de transporte. “Em destinos urbanos isso pode favorecer transporte público, transfers ou soluções partilhadas. Já nas regiões onde a flexibilidade pesa mais, o rent-a-car deverá continuar a ter um papel relevante”, perspetiva.

No leque dos mercados emissores,  preocupação paira sobre os clientes europeus que serão “os mais sensíveis ao custo de vida, à energia e à confiança no consumo”.

“Os turistas do Reino Unido, da França e da Alemanha são os que merecem maior vigilância. O Reino Unido continua a ser o principal mercado emissor para Portugal, mas o próprio Turismo de Portugal enquadra 2026 num contexto marcado pelo impacto dos conflitos no Médio Oriente e pelos custos da energia. Já França deu sinais mais frágeis, com quedas em 2025 nos hóspedes e nas dormidas em Portugal, e com previsões de tráfego aéreo para Portugal em baixa no arranque da época. Por fim, na Alemanha, a debilidade económica e a maior exposição ao choque energético continuam a pesar”, justifica Joaquim Robalo de Almeida.

ARAC pede respostas ao Governo

Face ao atual contexto e a um ano “particularmente exigente”, a ARAC defende ser imperativo que o Executivo adote medidas. “O setor dificilmente dirá que tem tido apoio suficiente. Houve uma resposta do Governo no ISP, com caráter temporário, para travar parte da subida dos combustíveis ligada ao conflito no Médio Oriente. Mas, do ponto de vista das rent-a-car, isso fica aquém de uma resposta estrutural num ano particularmente exigente, marcado por pressão fiscal, aumento dos custos operacionais e menor margem para ineficiências", critica Joaquim Robalo de Almeida. Para o presidente da associação é preciso ir mais longe.

“Queremos maior previsibilidade fiscal e energética para reduzir a exposição a novos choques, a simplificação regulatória e alívio dos custos de compliance, sobretudo para as PME, e apoio ao investimento na modernização das frotas, digitalização e gestão eficiente dos ativos. É aí que o setor está a procurar ganhar resiliência, mas também é aí que precisa de condições públicas mais estáveis para não continuar a absorver sozinho a pressão sobre custos e margens”, pede.

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Rent-a-car. Excesso de frota e quebra na procura de turistas pressionam preços
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