As energias renováveis relativamente baratas e o facto de já ser ponto de entrada de dados para o mundo dá já a Portugal uma elevada competitividade na Inteligência Artificial.
As energias renováveis relativamente baratas e o facto de já ser ponto de entrada de dados para o mundo dá já a Portugal uma elevada competitividade na Inteligência Artificial.Ilustração: RSF / Gemini AI

IA. Energia verde e conectividade de Portugal e Espanha são chave para fechar o "buraco" de 480 mil milhões na produtividade europeia

O bloqueio da Anthropic pelos EUA expôs a fragilidade tecnológica do continente e expôs a urgência por uma "IA Soberana". Estudo da consultora McKinsey revela que a Península Ibérica está posicionada na linha da frente para liderar a computação de hiperescala que tem potencial para valer quase meio bilião de euros por ano até 2030
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Para o velho continente europeu, a Inteligência Artificial (IA) já não é uma mera questão de inovação tecnológica, é mesmo uma questão de sobrevivência económica e soberania política. Durante duas décadas, o motor económico europeu tem vindo a perder rotação, com o crescimento da produtividade do trabalho a registar uma quase estagnação de 0,2% nos anos mais recentes (2022-2025), como revela o novo relatório da McKinsey & Company, Accelerating Europe’s AI Adoption: The Role of Sovereign AI, a que o DN teve acesso em primeira mão. O estudo aponta caminhos para que bloco consiga evitar o atraso em que se viu cair face aos seus concorrentes diretos EUA e asiáticos, bem como releva as vantagens competitivas únicas que tanto Portugal como Espanha hoje têm face aos seus parceiros do norte e centro da Europa.

Desde logo, a McKinsey aponta que uma adoção acelerada de IA, sustentada por soluções soberanas, pode acrescentar nada menos que 480 mil milhões de euros por ano ao PIB europeu até 2030. Desse bolo, a fatia de leão — cerca de 416 mil milhões de euros — virá diretamente de ganhos de produtividade nas organizações que utilizam estas ferramentas, dizem os especialistas. É no fundo o fecho do "buraco" digital que hoje separa a Europa do resto do mundo tecnologicamente mais desenvolvido.

O caso Anthropic: a IA tratada como um míssil

Este estudo surge num momento crucial: a 12 de junho de 2026, o Departamento de Comércio dos EUA emitiu uma diretiva de controlo de exportação sem precedentes, ordenando à tecnológica Anthropic que bloqueasse o acesso aos seus modelos de fronteira mais avançados — o comercial Fable 5 e o ultra-especializado em cibersegurança Mythos 5 — a qualquer cidadão que não tenha nacionalidade norte-americana. Alegando preocupações de segurança nacional e o risco de "jailbreaks" que pudessem revelar vulnerabilidades de software críticas. A decisão de Washington teve um efeito global imediato: impossibilitada de filtrar a nacionalidade de centenas de milhões de utilizadores em tempo real (e até dos seus funcionários), a Anthropic viu-se forçada a desligar os modelos em todo o mundo, relegando os clientes europeus para versões anteriores.

Sem modelos de fronteira próprios, a Europa percebeu da pior forma que a sua infraestrutura de produtividade está à mercê das decisões de segurança interna (e da temperatura geopolítica) de Washington… ou de Pequim.

Entre 2020 e 2024, as empresas americanas investiram cerca de 300 mil milhões de dólares em IA — comparado com apenas 62 mil milhões na Europa, pode ler-se no estudo da McKinsey. Esta assimetria brutal de capital resultou numa dependência quase total de fornecedores externos em áreas críticas da cadeia de valor, como a cloud pública, o hardware e os modelos fundacionais, alerta a consultora.

A receita para mudar o panorama

A forma de responder a esta situação não passa pelo isolamento, mas sim decalcar uma solução já testada no setor aeroespacial, agora sob o nome de "IA Soberana": criar na região competências digitais críticas para garantir autonomia operacional e técnicaa através de uma estratégia industrial coordenada assente num modelo híbrido de investimento público-privado de larga escala:

A McKinsey sugere a criação de um fundo europeu de IA, gerido pelo Banco Europeu de Investimento (BEI) e cofinanciado pelos Estados-membros, capaz de injetar 15 a 20 mil milhões de euros por ano até 2030 em infraestrutura de computação e espaços de dados soberanos. O objetivo deste "capital semente" público é retirar o risco inicial do ecossistema e atrair as profundas reservas de capital privado que existem no continente — evitando assim mais fugas para destinos de elevada rentabilidade potencial, como os EUA.

O Executivo da União Europeia deverá, também, obrigar os Governos a destinar pelo menos 10% dos seus orçamentos de transição digital diretamente para a contratação pública de soluções de IA soberana, estimulando e sustentando a procura interna na fase de arranque, escrevem os especialistas.

Propõe-se ainda a criação de um Mercado Único Digital no bloco, eliminando a fragmentação burocrática dos 27 Estados-membros, o que permitirá que uma startup de IA se registe em apenas uma hora online a nível pan-europeu e ganhe escala continental de forma ágil.

As vantagens de Portugal e Espanha

Tal como referimos, a Península Ibérica surge no panorama europeu com especificidades críticas que lhe traz enormes vantagens, apesar de ter desafios enormes a ultrapassar, nomeadamente a nível da desburocratização. Além disso, numa região onde o tecido empresarial é dominado por Pequenas e Médias Empresas (PME), o investimento em IA de ponta é residual quando comparado com os gigantes de Silicon Valley.

No entanto, o inquérito exclusivo da McKinsey aos líderes tecnológicos europeus — que incluiu diretamente o mercado espanhol — revela um forte incentivo para a mudança: as preocupações com a soberania e a segurança de dados são o principal travão à digitalização. Cerca de 44% dos decisores tecnológicos evitam a cloud pública norte-americana por receio quanto à segurança dos dados, e 31% exigem que os dados fiquem guardados dentro da sua própria geografia.

Quando confrontados com alternativas, a preferência é clara: 54% dos líderes tecnológicos ibéricos e europeus preferem uma nuvem pública europeia para soluções destinadas a clientes (front-end), e as soluções com certificação soberana recolhem a preferência esmagadora para gerir operações centrais (core) das empresas (44%) e serviços de suporte (43%). A procura por soluções locais existe, só que falta escala aos fornecedores europeus para as disponibilizarem.

O trunfo verde ibérico

Para dar resposta a esta procura, a McKinsey estima que a Europa precisa de triplicar a sua capacidade de computação até 2030. Trata-se de um desafio que esbarra diretamente num recurso escasso no centro do continente: a energia. Como tal, diz a consultora, os novos projetos de computação de grande escala devem focar-se estrategicamente em localizações com excedentes de energia renovável.

É precisamente aqui que Portugal e Espanha têm o seu maior trunfo competitivo. Ao contrário do centro da Europa (o saturado eixo Frankfurt-Londres-Amesterdão-Paris, ou "FLAP"), que enfrenta moratórias de rede devido à incapacidade de alimentar novos servidores, Portugal destaca-se positivamente. Dados do Eurostat apontam que a eletricidade industrial em Portugal custa cerca de 13,2 euros por 100 kWh, um valor muito abaixo da média europeia de 19 euros.

Mais do que o preço, a estabilidade fornecida por uma matriz elétrica onde as energias renováveis ultrapassam de forma consistente os 70% do balanço nacional permite que as tecnológicas estabeleçam contratos de fornecimento a longo prazo (Power Purchase Agreements ou PPA), blindando-se contra a volatilidade energética e cumprindo os exigentes critérios corporativos de sustentabilidade.

Além disto, a amarração de grandes cabos submarinos internacionais de alta capacidade — como o EllaLink em Sines, que liga diretamente a Europa à América do Sul — transforma Portugal na "porta de entrada" física dos dados no continente. O megaprojeto do Sines Data Campus (com capacidade planeada de 1.2 GW de computação verde) e o anúncio recente de novos investimentos da Microsoft para servidores de hiperescala focados em IA são provas de que a região já está a ser vista como o motor de infraestrutura que a McKinsey recomenda.

Obstáculo: a burocracia da contratação pública

Se a infraestrutura energética joga a favor da Península Ibérica, a eficácia burocrática e a velocidade de execução legislativa continuam a ser o calcanhar de Aquiles da região.

Para que a proposta da McKinsey de reservar 10% dos orçamentos digitais públicos para soluções de IA soberana se torne realidade, Portugal e Espanha terão de reformar de forma drástica os seus processos de contratação pública. Atualmente caracterizados por extrema lentidão e complexidade jurídica, os concursos públicos locais dificilmente acompanham o ciclo de inovação tecnológica da IA, que se renova em meses, não em anos.

O relatório aponta o exemplo de França, através da sua Direção Interministerial Digital, que atua como incubadora para integrar inovação local diretamente nos serviços do Estado com rapidez. Sem uma simplificação administrativa semelhante nem a criação de zonas de teste regulatório desburocratizadas na Península Ibérica, a excelente infraestrutura de dados que Portugal e Espanha possuem corre o risco de servir apenas de "armazém de dados" para tecnologia estrangeira, em vez de incubadora de inovação soberana local.

Apenas uma estratégia ibérica integrada — que tire partido das renováveis e da conetividade em Portugal e do ecossistema tecnológico em Espanha — permitirá a Portugal e Espanha ajudarem a Europa a deixar de ser uma consumidora dependente e passar a ser uma peça estrutural e soberana na nova arquitetura digital do mundo. Resta saber se os governos, todos, conseguirão mover-se com a velocidade exigida antes que a próxima tensão geopolítica global feche, de vez, as portas de acesso à tecnologia que já mudou o mundo.

Benjamim Vieira, sócio sénior da McKinsey.
Benjamim Vieira, sócio sénior da McKinsey.

3 perguntas a Benjamim Vieira, sócio sénior da McKinsey

"A IA pode dar a Portugal um salto quântico na produtividade e permitir crescer 5% ao ano"

Sócio sénior da consultora defende que o impacto económico na Península Ibérica não depende da criação de gigantes tecnológicos, mas sim da capacidade de difundir a adoção por PME e de colocar o Estado como parceiro de arranque.

Olhando para o fosso de investimento de cinco para um entre os EUA e a Europa apontado pelo estudo, como se posiciona a Península Ibérica dentro deste bolo europeu de 62 mil milhões de dólares? Os tecidos empresariais português e espanhol estão a acompanhar o ritmo das grandes economias europeias ou corremos o risco de ficar com uma dupla desvantagem competitiva?

De uma forma geral, a Península Ibérica segue uma trajetória semelhante à dos seus congéneres europeus, mantendo um nível de investimento em IA proporcionalmente alinhado com o da Europa face aos Estados Unidos, o que resulta num diferencial comparável. Acrescem, contudo, desafios estruturais próprios, particularmente ao nível da produtividade.

Em Portugal, o fosso de produtividade face à média europeia tem persistido ao longo das últimas décadas, tornando a adoção acelerada de tecnologias como a IA particularmente relevante. Mais do que evitar um agravamento desse diferencial, a IA representa uma oportunidade para o reduzir de forma significativa, rápida e sustentada.

Segundo um trabalho recente da McKinsey, Portugal poderá crescer 5% ao ano se conseguir reinventar as suas indústrias tradicionais, afirmar-se como líder europeu em segmentos-chave da cadeia de eletrificação, atrair investimento associado à IA e tirar partido da IA generativa para impulsionar um “salto quântico” na produtividade e na competitividade. Neste contexto, a IA não deve ser vista apenas como uma tecnologia, mas como um dos principais motores da próxima fase de transformação económica do país.

A Península Ibérica é fortemente dominada por Pequenas e Médias Empresas (PME). Como é que o conceito de 'IA soberana' — que exige o controlo de competências críticas e infraestruturas — pode ser aplicado na prática por empresas que não têm a escala ou o capital dos gigantes tecnológicos? Que papel devem ter os Governos ibéricos na criação deste ecossistema local?

O conceito de IA soberana surge, sobretudo, como um facilitador para responder a desafios relacionados com a segurança dos dados, a regulação, a dependência tecnológica e, em certa medida, a própria adoção da tecnologia. No contexto europeu, existe uma discussão relevante sobre a necessidade de os governos e as instituições europeias assumirem este papel - algo que, à escala necessária, não pode ser assegurado apenas pelas empresas.

É fundamental que estas entidades promovam enquadramentos regulatórios adequados, criem mechanismos de incentivo, reforcem a integração dos mercados europeus e facilitem o acesso a soluções de IA a custos competitivos. Adicionalmente, devem assumir-se como utilizadores destas tecnologias nos seus próprios processos de transformação digital, contribuindo para a criação de massa crítica, aumentando a previsibilidade da procura e acelerando o desenvolvimento do ecossistema.

Estas iniciativas são particularmente relevantes em economias com um tecido empresarial dominado por PME.

Existe aqui uma ligação clara com a realidade portuguesa, onde o principal desafio tende a residir menos no acesso à tecnologia e mais na sua adoção efetiva pelas organizações, nomeadamente na integração da IA nos processos, nas equipas e na forma como o trabalho é realizado.

A McKinsey estima que, de um impacto potencial de 480 mil milhões de euros anuais, a esmagadora maioria (416 mil milhões) virá de ganhos de produtividade nas organizações que utilizam IA. O estudo defende que a Europa não precisa de liderar toda a cadeia de valor da IA, mas sim focar-se em aplicações e modelos especializados que tragam ganhos rápidos de produtividade. Quais são os setores económicos em Portugal e Espanha (turismo, banca, energia...) que estão mais bem posicionados para liderar essa especialização e capturar uma fatia desses 416 mil milhões de euros?

Um dos principais insights do estudo é que a maior parte do potencial de ganhos económicos da IA na Europa está associada aos aumentos de produtividade das organizações que adotam e conseguem capitalizar esta tecnologia.

Para países como Portugal e Espanha, esta conclusão é particularmente relevante, pois reforça a ideia de que o impacto da IA não depende apenas da criação de grandes players tecnológicos, mas também da capacidade de difundir e escalar a sua adoção em toda a economia.

Setores com elevada intensidade de dados, como a banca, os serviços financeiros, as telecomunicações e as utilities, bem como outros setores relevantes, como a indústria e o turismo, deverão integrar a IA de forma consistente para reforçar a eficiência operacional, melhorar a qualidade da tomada de decisão e aumentar a competitividade. Existem já setores onde a adoção da IA se encontra mais avançada, como a banca, e onde o potencial de escala é mais imediato.

Esta combinação de setores tradicionais, com uma forte base operacional, e de setores mais digitais e orientados por dados cria condições favoráveis para capturar ganhos de produtividade de forma relativamente rápida, sobretudo em processos críticos e na tomada de decisão.

(Entrevista concedida por email)

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