No rescaldo da tempestade Kristin e com nova PAC no horizonte, suinicultura quer atrair jovens e criar fundo para catástrofes
A idade dos produtores, um fundo para catástrofes e a descentralização da produção são algumas das principais preocupações da nova estratégia do setor da suinicultura, que vai ser apresentada na Feira Nacional do Porco, que tem início esta quinta-feira, no Montijo.
Ao Diário de Notícias, o presidente da Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores (FPAS) e da Organização Interprofissional da Fileira da Carne de Porco (FILPORC), David Neves, contou que a estratégia estabelece as prioridades do setor para a nova Política Agrícola Comum, que está a ser negociada e irá durar de 2028 até 2034.
Todo a fileira da carne de porco representa um valor de quatro mil milhões de euros para a economia, cerca de 25% do PIB no setor agroalimentar português, e emprega “diretamente cerca de 18 mil pessoas”, indicou o representante, tendo esta estratégia a seis anos um orçamento de 340 milhões de anos.
E uma das prioridades definidas envolve mesmo os trabalhadores na fileira do porco, nomeadamente a idade média destas pessoas que trabalham no setor, que “está nos 65 anos”. “Importa trazer gente nova”, afirma o representante do setor, que pretende fazê-lo ao criar “um prémio” para incentivar ao “abandono” das pessoas mais idosas, já em idade de reforma, e criar uma “bolsa de terras” para estabelecer novas produções.
A suinicultura, como outros setores, ainda vive no rescaldo dos efeitos da tempestade Kristin, que afetou várias zonas do país e deixou um rasto de destruição. Ao todo 40% da capacidade produtiva foi afetada e, face a períodos homólogos, “há uma diminuição de efetivo superior a 220 mil animais”.
O impacto da tempestade Kristin também pôs a cru uma realidade que não era bem conhecida: “Nós percebemos, com a catástrofe de 28 de janeiro deste ano, que uma parte significativa das explorações não têm seguros. E não têm seguros porque as companhias de seguros não fazem seguros para esta atividade”, acrescentou.
E foi por essa realidade que o setor propôs a criação de um Fundo de Catástrofes para ajudar quem foi e quem será afetado por futuras tempestades com um impacto tão destrutivo e que permita à fileira “negociar com as companhias de seguros”, para “aliviar a carga e o prémio do seguro”. O financiamento, explicou, seria dividido entre 25% proveniente do setor, 25% do orçamento do estado e 50% do orçamento da União Europeia.
Ainda na proteção ambiental, um dos objetivos da nova estratégia é avançar na sustentabilidade da produção de carne de porco, especialmente no que toca à questão dos resíduos produzidos. “Existe um potencial de produção de energia, nomeadamente de biogás que pode ser transformado em biometano”, explica David Neves, sublinhando a importância disto numa altura em que a Europa e Portugal têm tanta dependência energética”.
Por fim, outra das prioridades definidas pela indústria da carne de porco assenta na descentralização da produção, atualmente concentrada nas zonas de Lisboa e Vale do Tejo. "O Interior está a ficar deserto e temos uma estratégia para fixar pessoas nessas zonas”, sublinhou o responsável, apontando a deslocação de “algumas partes da produção” para “outras zonas do país”, com a condição de que haja terra e água disponíveis.
Uma feira para mostrar a vitalidade do setor após a catástrofe
Esta Feira Nacional do Porco, que foi criada em 1979 e cumpre agora a sua 27ª edição, vai ser diferente até porque esteve para não acontecer. Normalmente, este evento bienal ocorre em maio, tendo sido considerado o cancelamento devido ao impacto das tempestades.
“Apesar de todas as contrariedades e apesar do impacto da tempestade neste setor, entendemos que era importante dar um sinal de vitalidade para o setor e mostrar o que estamos a fazer”, contou o presidente das associações, referindo que a feira é “aberta ao público” e não é “uma feira profissional”.
“É perceber que se faz o melhor que existe no mundo e, portanto, permite mostrar as novas tendências, os novos desafios para o setor da agricultura em matéria de bem-estar animal, de segurança ambiental, em matéria de produtividade”, acrescentou.
E "o melhor que existe no mundo" serve também para exportar, uma oportunidade que se tem aberto cada vez mais para a suinicultura. Desde 2019, mercados do Leste asiático como o Japão, a Coreia do Sul, o Vietname ou a China.
"Nós competimos, no fundo, nos mercados mais exigentes do mundo, com o valor de exportações do ano passado rondou os 174 milhões de euros", sublinhou o responsável pelo setor.
"Este ano estimamos que possam ir dentro dos mesmos valores", acrescentou David Neves, mesmo com o impacto do comboio de tempestades do início do ano.

