Carolina Almeida Cruz (esq.) e Carina Abreu (as C-C...) fundaram a C-More em 2023.
Carolina Almeida Cruz (esq.) e Carina Abreu (as C-C...) fundaram a C-More em 2023.FOTO: Leonardo Negrão

Os bastidores da C‑More: A máquina de IA que quantifica o risco invisível das empresas

Com margens brutas de tecnologia acima de 90%, uma equipa 100% remota com o cérebro tecnológico na África do Sul e uma aliança com a maior auditora do mundo, a tecnológica portuguesa navega o labirinto regulatório global.
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A C-More não é uma empresa de consultoria verde com verniz digital: é uma plataforma de dados não‑financeiros focada em risco operacional, que avalia objetivamente, com recurso a IA, fatores que escapam às análises das auditorias tradicionais. “A nossa empresa percebeu claramente que os clientes utilizavam a nossa solução para gerir risco”, afirma a CEO, Carolina Almeida Cruz.

Carolina Almeida Cruz (esq.) e Carina Abreu (as C-C...) fundaram a C-More em 2023.
“O vocabulário conta. Na Europa diz-se sustentabilidade; nos Estados Unidos tem de se dizer risco operacional”

A par do carisma de Carolina, há o produto da C-More, que é desenhado por Carina Abreu, cofundadora e Chief Product officer (CPO) da tecnológica. Engenheira de Telecomunicações com um percurso inicial na Nokia, Carina fez em 2020 uma especialização em Gestão de Sustentabilidade Corporativa pela Universidade de Cambridge. É esta fusão entre a Engenharia de Sistemas de Carina e a visão de risco de Carolina que permitiu à empresa passar de um Excel com fórmulas matemáticas complexas para uma plataforma de IA à escala industrial.

Sem escritórios físicos, a empresa opera com 30 profissionais espalhados pelo mundo, 90% dedicados ao desenvolvimento técnico. O head of AI, Michael Struwig, lidera a arquitetura de dados a partir da África do Sul. Para garantir a confiança dos bancos e multinacionais, a tecnológica é certificada pela ISO 27001 e validada como B Corp – quer isto dizer que a empresa cumpre os mais altos padrões globais de desempenho social e ambiental, responsabilidade e transparência.

Ao contrário de soluções que funcionam como “wrappers” de modelos de linguagem, a C‑More construiu internamente todo o seu pipeline de dados. Usa modelos de fronteira de OpenAI, Anthropic e Google, mas a lógica e orquestração são proprietárias. “A nossa solução não alucina. Se não encontra evidências, avisa o utilizador”, sublinha Carolina. Esta precisão permite operar 35 vezes mais rápido do que auditorias humanas, com mais 10% de acerto na extração de dados.

O modelo de negócio assenta em licenças anuais e taxas de utilização, com margens tecnológicas “imbatíveis”. A meta para consolidar o EBITDA está nos 10 milhões de euros de receita anual recorrente. Os seus maiores clientes estão em Portugal e nos Estados Unidos, mas a C-More é verdadeiramente multinacional, e a escalabilidade assenta em três pilares. O primeiro é a parceria global com a suíça SGS: a IA identifica “bandeiras vermelhas” e aciona auditorias físicas in loco. “Não temos a arrogância de dizer que substituímos o humano; somos a lupa que indica onde está o risco”, diz Carolina.

O segundo pilar é o ecossistema bancário português, via integração com a SIBS, que permite às PME acederem gratuitamente a uma calculadora de emissões e a um scoring de taxonomia, facilitando o cumprimento das exigências da Autoridade Bancária Europeia (EBA). O terceiro é o Turismo de Portugal, que financia o acesso de mais de mil PME hoteleiras à plataforma para relatórios VSME (Voluntary Sustainability Reporting Standard).

A expansão para o Brasil ilustra a volatilidade regulatória. A empresa previa faturar 45 milhões de reais até 2026 com a obrigatoriedade dos relatórios ISSB, que divulgam o impacto e os riscos corporativos ESG, fazendo a conexão da sustentabilidade com o desempenho económico das organizações. Mas a 29 de maio de 2026, a Comissão de Valores Mobiliários (do Brasil) recuou e publicou a Resolução 244, tornando os relatórios voluntários. Em vez de travar, Carolina mudou de rumou para o agronegócio exportador e a mineração, que precisam cumprir regras europeias para manter clientes. A tecnológica conquistou um dos maiores gigantes da mineração mundial, que integra mais de 1000 empresas na plataforma. Como resume a CEO: “O Brasil é um mercado no qual eu não estou a apostar; invisto, mas não aposto. Não é a mesma coisa.”

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