Portugal é um dos países mais fracos da União Europeia (UE) a gerar valor acrescentando para a economia com os fundos para a digitalização da Economia e do Estado atribuídos no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), indica a Comissão Europeia, num novo estudo apresentado esta semana.
Das verbas dedicadas pelo PRR à chamada "transformação digital", cerca de 4,6 mil milhões de euros (valor quase integral da execução já submetida pelo país deste pacote temático que conta com 4,7 mil milhões de euros) geraram um impacto direto de 3,5 mil milhões de euros na economia, mais 680 milhões de euros de efeito de contágio positivo ("spillover") noutras economias parceiras, as que, por exemplo, fornecem tecnologia de ponta a Portugal, um país que produz pouco neste domínio e que, por isso, tem de comprar muito lá fora.
As contas do DN/Dinheiro Vivo confirma a avaliação da Comissão. Portugal está a ir mais ou menos, regista alguns "sucessos" nesta corrida digital, tem potencial para subir no ranking europeu, mas precisa de acelerar bastante a partir de agora para isso.
Até agora, quando faltam apenas 100 milhões de euros para executar a totalidade do PRR digital, o impacto total ascende a 4,1 mil milhões de euros (soma de impacto direto e efeito spillover). A taxa de impacto ascende a 89,8%, a sexta mais fraca entre os 27 países da UE.
O ranking é liderado por países como Luxemburgo e Irlanda que conseguiram multiplicar por mais de dez vezes (taxas de impacto de 1800% e 1500%, respetivamente) o valor que lhe foi atribuído em PRR digital.
A taxa de impacto europeia média é bem superior à portuguesa, é três vezes superior, superando os 300%. Isto é: um euro de PRR digital aplicado gera quatro euros em valor acrescentado na economia.
Como referido, Bruxelas reconhece o empenho do país e do governo, mas diz que falta fazer mais nalgumas áreas, designadamente maior afirmação no campo da Inteligência Artificial (IA), aproveitando a posição geográfica "estratégica" a nível global. Faz o mesmo reparo a Grécia e Lituânia.
O pacote global do PRR, desenhado há seis anos para ajudar a erguer a Europa da destruição provocada pela pandemia covid-19, supera os 22 mil milhões de euros, verbas que têm de ser validadas pela CE até meados deste ano (agosto), caso contrário, perdem-se.
De acordo com o estudo apresentado ao mais alto nível em Bruxelas, Portugal está bem nuns pontos, menos bem noutros.
A "lentidão" a progredir "na computação em nuvem e na inteligência artificial" reflete-se na taxa de impacto apurada até agora.
Uma das críticas diz respeito ao atraso que o país mostra na área dos centros de dados. Um dos maiores da Europa, o Start Campus, em Sines, deve começar a operar em pleno daqui a um ano ou dois.
Um dos pilares mais afetados com esta "lentidão", termo usado pela CE, é a "capacidade de computação" do país, em relação ao qual a CE avançou agora com um primeiro exercício de avaliação.
No governo, esta área, que agrega "Estratégia Digital Nacional, Agenda Nacional de Inteligência Artificial e Pacto para as Competências Digitais", tem a tutela de Gonçalo Matias, ministro adjunto e da Reforma do Estado.
Segundo a Comissão, "Portugal tem apresentado progressos consistentes no seu ecossistema de inovação digital e de crescimento empresarial, ao mesmo tempo que implementa iniciativas para reforçar a sua soberania tecnológica".
"No entanto, os esforços das autoridades portuguesas neste domínio podem ser condicionados pela lenta adoção da computação em nuvem e da inteligência artificial pelas empresas".
Bruxelas avisa que "esta baixa adoção poderá comprometer a competitividade digital do país, uma vez que as empresas com baixos níveis de digitalização não conseguem tirar partido dos potenciais ganhos de produtividade proporcionados pelas ferramentas digitais, que lhes permitem aceder a novos mercados online".
O ministro Matias disse, esta semana também, na Grande Conferência Anual do DN, que na área digital, o governo tem a decorrer "três estratégias digitais: uma giga fábrica de inteligência artificial, um plano nacional de centro de dados, um plano de cloud [nuvem de dados] soberana, onde pode correr a aplicação de inteligência artificial na saúde".
É justamente na questão das clouds ou nuvens que a CE envia mais críticas nesta nova avaliação.
"Grécia, Portugal e a Lituânia apresentam níveis muito baixos de capacidade atualmente e poderão beneficiar da conversão de posições geográficas estratégicas e da conectividade por cabos submarinos (nomeadamente as ligações atlânticas de Portugal e o papel da Grécia no Mediterrâneo oriental) em capacidade doméstica e autonomia estratégica".
Na medição que faz a essa capacidade dos centros de dados", a CE ressalva que tal avaliação pode não estar a refletir "grandes projetos em construção ou investimentos anunciados, como o centro de dados da Microsoft, em Ática, na Grécia, ou o campus de centros de dados de Sines, em Portugal", cujo nome é Start Campus. Este investimento deve iniciar operações em 2027, 2028.
A CE diz que os resultados desta sua avaliação devem ser vistos à luz desses investimentos em curso, mas insiste que "são uma base útil para identificar eventuais lacunas de capacidade e necessidades de políticas públicas" nos países referidos.