Portugal entre os países com inflação mais baixa, mas cabaz alimentar volta a encarecer
O Eurostat anunciou esta quarta‑feira que a taxa de variação homóloga do índice de preços na zona euro acelerou para 3,2% em maio, acima dos 3,0% registrados em abril. No agregado da União Europeia, o índice de preços no consumidor (IPC) aumentou para 3,3%, uma décima a mais do que no mês precedente, e deslocando-se em sentido contrário relativamente ao caso português, onde houve recuo de 3,1%.
A inflação subjacente — que exclui os itens mais voláteis, nomeadamente energia e alimentos não processados — também subiu, passando de 2,1% em abril para 2,3% em maio, indicando que as pressões de base se estão a intensificar.
Por rubricas, a energia manteve a maior taxa homóloga, em 10,8% (sem variação face a abril). Os alimentos não processados arrefeceram para 4,0% (eram 4,6% em abril), os serviços aceleraram para 3,5% (mais 0,5 pontos percentuais), a categoria alimentação, álcool e tabaco situou‑se em 1,1% (ante 1,6% em abril) e os bens industriais não energéticos subiram ligeiramente para 0,9% (de 0,8% em abril).
Em termos de contributos para a taxa anual na zona euro, os serviços acrescentaram +1,61 pontos percentuais, a energia +0,98 p.p., os alimentos, bebidas alcoólicas e tabaco +0,36 p.p. e os bens industriais não energéticos +0,23 p.p., o que evidencia o papel preponderante dos serviços e da energia na composição da inflação.
Os contrastes entre países são acentuados, sendo que as menores taxas homólogas foram observadas na Suécia (1,1%), Dinamarca e Chéquia (ambas 1,8%), enquanto as mais elevadas apareceram na Roménia (9,7%), Bulgária (6,3%) e Lituânia (5,1%).
Portugal, por sua vez, integrou o conjunto de 11 Estados‑membros onde a inflação medida pelo Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC) recuou em maio face a abril, passando de 3,3% para 3,1%, posição que o coloca entre as taxas mais baixas do bloco — na nona posição entre os 27.
De notar ainda que em 16 países do conjunto comunitário a inflação cresceu face ao mês anterior.
Na comparação mensal, o IPC registou uma subida de 0,1% tanto na zona euro como no conjunto dos países que compõem a União Europeia, refletindo um incremento moderado dos preços entre abril e maio.
A recuperação da inflação subjacente é relevante para os decisores monetários, pois aponta para pressões inflacionistas que não decorrem exclusivamente de choques temporários nos preços da energia ou dos alimentos.
O peso elevado dos serviços, cuja contribuição foi a maior, tende a sinalizar uma componente mais persistente da inflação — ligada a salários e procura interna — e poderá influenciar as futuras decisões do Banco Central Europeu sobre a política de taxas de juro.
Centrando a análise no caso português, a subida dos preços fez-se sentir novamente no cabaz alimentar monitorizado semanalmente pela DECO PROteste, que se fixou esta semana em 257,68 euros, representando um aumento de 2,11 euros face à semana anterior, que interrompeu a tendência ascendente verificada nas semanas que estão para trás.
Composto por 63 produtos de consumo corrente — desde frescos a enlatados e produtos de higiene — o cabaz volta assim a encarecer depois de uma queda acumulada que havia aliviado parcialmente o preço final para o consumidor.
Apesar da subida semanal, o custo do cabaz permanece inferior ao registado no início do ano: comprar hoje os mesmos 63 artigos custa 15,86 euros a menos do que em janeiro, o que traduz uma redução de 6,56% no acumulado desde o início do ano. Em comparação com o mesmo período do ano anterior, o consumidor paga mais 14,90 euros pela compra dos produtos (+6,14%), mas a diferença torna‑se dramática quando recuamos ao arranque da série da DECO PROteste, já que em janeiro de 2022 o cabaz custava 69,98 euros menos, o que corresponde a uma variação de 37,28% até hoje.
Na semana analisada, entre 10 e 17 de junho, os maiores aumentos percentuais foram observados nos flocos de cereais — que subiram 18% para 2,83 euros —, no carapau, cujo preço subiu 16% para 6,25 euros/kg, e na alface frisada, que aumentou 12% para 2,63 euros/kg. Estes saltos refletem movimentos pontuais que podem dever‑se a variações sazonais, roturas de stock ou oscilações na procura e oferta local.
No plano anual, comparando com o mesmo período de 2025, destacam‑se subidas expressivas em produtos alimentares específicos. O carapau, por exemplo, regista um incremento de 64% (custando agora 6,25 euros/kg), a couve‑coração sobe 40% (1,78 euros/kg), o robalo aumentou 31% (10,38 euros/kg) e a alface frisada apresenta uma subida de 25% (2,63 euros/kg).
A série histórica desde o início da monitorização da DECO PROteste, a 5 de janeiro de 2022, revela quais os produtos com aumentos acumulados mais pronunciados. Evidencia-se a carne de novilho para cozer, que apresenta um aumento de 126% e custa atualmente 13,14 euros/kg, os ovos que ascenderam 84% para 2,10 euros a caixa e a couve‑coração subiu 79% para 1,78 euros/kg. Estas variações sublinham mudanças estruturais nos preços de certos bens alimentares básicos ao longo dos últimos anos, com implicações para orçamentos familiares — sobretudo dos agregados mais vulneráveis.
Embora o cabaz continue mais barato que no início do ano e que há um ano, a subida semanal de 2,11 euros e os aumentos acentuados em determinados produtos mostram que a estabilidade de preços ainda não está assegurada e que os custos alimentares permanecem suscetíveis a variações significativas.

