Portugal pode perder até 370 milhões com as tarifas de Trump

Incerteza volta a pairar na economia, após ameaça dos Estados Unidos taxarem importações em 15%. Em Portugal já há setores a perder dinheiro. Recuo de Trump fixa tarifa de 10% durante 150 dias.
Portugal pode perder até 370 milhões com as tarifas de Trump
FOTO: EPA/ JIM LO SCALZO / POOL
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Bolsas instáveis, países a pedirem explicações, e setores económicos inteiros na incerteza sobre que tarifas aduaneiras vai, afinal, Donald Trump impor ao mundo. Só em Portugal podem custar até 370 milhões de euros por ano. Este é o resultado do anúncio feito pelo presidente norte-americano, no último sábado, de passar para 15% a sobretaxa aduaneira às importações, na sequência do Tribunal Supremo dos EUA ter declarado ilegal a fixação arbitrária de tarifas por razões de emergência em 2025, ao abrigo da qual foi selado o acordo comercial com a União Europeia.

Esta terça-feira, 26, justamente no dia em que entram em vigor as tarifas então acordadas, e após o anúncio de Trump, a União Europeia anunciou também que iria suspender a implementação do acordo, enquanto o Reino Unido disse ponderar contra-medidas. Mas o presidente já fez saber que os países europeus não deverão suspender o acordo. E perante o revés judicial, a Casa Branca recorreu, esta terça-feira, a outra base legal para instituir uma taxa temporária universal não de 15%, mas de 10%, com duração prevista de 150 dias. A taxa aplica-se a bens introduzidos para consumo ou retirados de entreposto entre as 05h01, em Portugal, no dia 24 de fevereiro de 2026 e as 04h01 de 24 de julho de 2026, salvo isenções específicas.

Mas, apesar de ser temporária por cinco meses, e do aparente recuo de Donald Trump, fontes da Casa Branca, citadas pela imprensa internacional dizem que os 15% serão mesmo para avançar. A concretizar-se a ameaça de Trump, isso fará disparar a taxa média em três pontos percentuais, para 20%, um máximo histórico desde 1911.


Quebras nas exportações


Como ficam as exportações portuguesas neste cenário? Segundo um estudo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP), tendo por base o cenário de 15% para a taxa alfandegária base nas vendas de bens para o território norte-americano, previsto no acordo UE/EUA, tal terá um impacto negativo anual de entre 300 milhões e 370 milhões de euros anuais nas exportações. Isso significa uma quebra percentual entre os 6% e 7,5%, estima o estudo promovido pela Câmara de Comércio e Indústria da Asociação Comercial do Porto.

Em Portugal, já em 2025, alguns setores sentiram uma quebra na sua relação comercial com os Estados Unidos na sequência da instabilidade tarifária. As empresas portuguesas de calçado, por exemplo, sofreram uma quebra de 12,3% nas vendas para este destino, num rombo de 84 milhões de euros. Mas, fechar a porta ao mercado dos EUA não é opção. "O poder aquisitivo é muito alto", justificou o secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira, esta semana na feira de calçado em Milão.  "Exportamos produtos de alto valor acrescentado" para este destino e é nesse segmento "onde está muitas vezes a rentabilidade, o valor acrescentado do setor”, disse o governante.


Os setores económicos nacionais mais afetados pelas tarifas de Trump, particularmente as medidas protecionistas dos EUA, são o têxtil e vestuário, agroalimentar (especialmente vinhos), metalomecânica, vidro e cerâmica. Estas indústrias enfrentam perdas de competitividade e riscos de exportação para o mercado americano, que é o quarto principal destino das exportações de Portugal.

Um estudo europeu aponta mesmo Portugal como sendo o 12.º país da UE que deverá sofrer maior agravamento nas tarifas, tendo em conta a situação anterior e a que se perspetiva, após a onda protecionista da administração norte-americana.

Os próximos dias serão decisivos para esclarecer a que países e produtos Trump está disposto a aplicar a tarifa de 15%. E são esperadas várias movimentações diplomáticas. Do lado português, o secretário de Estado defendeu que "a posição do Governo português em termos de direitos aduaneiros tem de ser concertada ou pelo menos alinhada com a Comissão Europeia". O órgão máximo da UE "já deu uma nota clara de que o acordo que foi alcançado é para ser mantido" e quer " manter a vantagem competitiva que conseguiu em julho", disse. "Aquilo que menos queríamos agora era mais instabilidade em cima de um processo que parecia ter ganho alguma estabilidade", afirmou.

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