

O presidente da Reserva Federal (Fed) norte-americana defendeu esta sexta-feira que a inteligência artificial (IA) deverá alterar profundamente a forma como os bancos centrais conduzem a política monetária, ao melhorar a análise económica e impulsionar a produtividade.
Durante uma conferência organizada durante as Reuniões Anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, em Banguecoque, Kevin Warsh classificou a ascensão da IA como "provavelmente a mudança mais consequente para a economia dos Estados Unidos e para a economia global" ao longo da sua vida.
O FMI elevou a projeção de crescimento da economia global para 3,1% em 2026, impulsionada principalmente pelos investimentos massivos em IA.
Do ponto de vista da política monetária, o responsável pelo banco central dos EUA argumentou que a IA deverá inicialmente impulsionar a procura económica antes de produzir plenamente os ganhos de produtividade associados ao aumento da oferta.
“Para qualquer banqueiro central, cujo trabalho é garantir estabilidade de preços e pleno emprego, é preciso reconhecer que isto é um choque”, afirmou.
Contudo, ao contrário de choques provocados por guerras ou conflitos geopolíticos, Warsh considera que a IA representa, a prazo, um “choque positivo da oferta”, capaz de elevar a capacidade produtiva da economia.
“Creio fundamentalmente que este será um choque positivo da oferta no médio prazo”, disse, acrescentando que os benefícios para a economia norte-americana e mundial poderão ser significativos.
Segundo Warsh, uma das maiores mudanças ocorrerá na própria forma como os bancos centrais analisam a economia.
"Atualmente, as autoridades monetárias dependem de estatísticas oficiais e de modelos económicos tradicionais para tentar identificar tendências subjacentes da inflação e da atividade económica. No futuro, os bancos centrais terão acesso, na ponta dos dedos, a toda a informação do mundo", destacou Walsh.
Com novas ferramentas analíticas baseadas em IA, acrescentou, será possível processar enormes quantidades de dados em tempo real e distinguir com maior precisão sinais económicos genuínos de flutuações temporárias ou erros de medição.
“Vai mudar fundamentalmente a condução da política monetária”, sustentou.
Warsh admitiu, contudo, que subsistem dúvidas sobre o impacto imediato da tecnologia na economia real, sobretudo no emprego. “Não sabemos qual será o efeito sobre o emprego nos próximos 12 ou 18 meses”, afirmou.
Ainda assim, disse acreditar que os países que conseguirem utilizar a IA de forma eficaz se tornarão mais produtivos, gerando mais riqueza e melhores níveis de vida.
O responsável alertou, porém, que a transição dificilmente será linear, e "provavelmente muito acidentada", apontando para as incertezas sobre os modelos de negócio que prevalecerão, quem beneficiará economicamente da tecnologia e quais serão as consequências para empresas e investidores cujas apostas não correspondam à evolução do mercado.
Segundo o presidente da Fed, os bancos centrais e outras entidades públicas devem começar desde já a preparar-se para esse novo cenário, destacando que a Fed criou recentemente um "grupo de trabalho dedicado a estudar os impactos da tecnologia sobre a produtividade e o emprego".
"Esperamos que as conclusões desses trabalhos possam ser úteis não apenas para os Estados Unidos, mas também para outras instituições internacionais e bancos centrais do G20. O melhor desempenho deles significa também um melhor desempenho para nós”, concluiu.