Startup do Porto vence prémio mundial de cibersegurança e resolve problema com 20 anos na banca americana
Num único dia, em Las Vegas, Nevada, uma startup com apenas dois anos de vida e raízes no Porto conseguiu vencer a final norte-americana e a final global do Startup Spotlight na Black Hat, nada menos do que a mais prestigiada conferência de cibersegurança do mundo. A final global reuniu os vencedores das edições regionais da Europa, Ásia, Canadá, Médio Oriente e EUA, colocando a tecnologia criada em Portugal no topo do ecossistema mundial de cibersegurança.
A vitória adquire ainda maior relevância quando se olha para quem julgou a competição: o produto da Opnova esteve a ser demonstrado e escrutinado minuciosamente por diretores de segurança (os CISO - Chief Information Security Officers) dos maiores bancos e grupos mundiais e por parceiros dos principais fundos de capital de risco de Silicon Valley.
"Existem muitos concursos de startups no início, a avaliar o seu potencial. No caso da Black Hat é diferente. Todas as startups têm de ter produtos lançados no mercado e em utilização por clientes institucionais", explica ao DN/DV Pedro Saleiro, cofundador e Chief AI Officer (CAIO) da Opnova. "É o reconhecimento de que estamos a trabalhar num problema relevante e que trazemos uma solução inovadora para dar resposta a um desafio com mais de 20 anos que continuava em aberto."
Para compreender o que faz e o impacto da solução técnica da Opnova é preciso entrar nos bastidores tecnológicos de um grande banco. Uma instituição financeira de grande dimensão opera facilmente mais de 800 aplicações informáticas diferentes. E quando um novo colaborador entra para o banco, ou alguém muda de departamento, é necessário dar-lhe acesso a dezenas de sistemas específicos, com permissões e prazos muito bem definidos. Para agravar o panorama, muitos desses sistemas informáticos não “conversam” uns com os outros (muitas vezes, por questões de segurança; outras porque os sistemas em que são criados são incompatíveis entre si, seja pelo formato, arquitetura ou simplesmente, idade...).
Resumindo: as plataformas tradicionais de gestão de acessos só conseguem ligar-se automaticamente a uma pequena fração desse enorme ecossistema. Tudo o resto fica dependente de um trabalho manual, lento e altamente dispendioso. A solução? "Ou os bancos contratam grandes consultoras, como a Deloitte ou a Accenture, para desenvolverem software à medida que conecte esses sistemas – o que exige constantes atualizaciones e gera novas despesas –, ou têm equipas de IT a gerir quem tem acesso a quê em folhas de Excel", descreve Pedro Saleiro.
Em muitos casos, quando entra um novo pedido de alterações de acessos, um técnico de IT tem de abrir manualmente cada aplicação, criar o utilizador, atribuir a palavra-passe e definir os privilégios... Isto pode demorar semanas ou mesmo meses até estar concluído, além de que acarreta elevados riscos de segurança e falhas em auditorias.
Espaço para os "agentes que usam o computador como nós"
É aqui que entra a inovação da Opnova. Em vez de tentar reprogramar os sistemas antigos dos bancos ou criar ligações complexas entre programas (as chamadas API), a empresa desenvolveu agentes de IA do tipo computer-use – agentes de utilização da máquina.
Na prática, a regra é: se um humano consegue operar a aplicação no ecrã, a IA da Opnova, depois de ver como se faz, aprende e passa a conseguir governá-la.
"O agente [da Opnova] usa o computador tal e qual como um operador humano: observa o ecrã, vê a interface do sistema, e usa o teclado e o rato para interagir", explica o CAIO. "Seja um sistema moderno no browser ou terminais antigos tipo 'ecrã verde/azul' [como os históricos IBM AS/400], o agente abre a aplicação, clica e cria a conta", descreve. Isto "a trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana, com muito menos propensão para erros operacionais" e a criar um log permanente, valioso para poder ser auditado.
Para que a IA aprenda o processo, basta que um funcionário humano grave um vídeo a realizar a tarefa uma única vez. A partir daí, o agente analisa o vídeo e assume o trabalho de forma autónoma.
A "Memória Reflexiva" que elimina falhas e corta custos em 85%
Um dos grandes receios da banca na utilização de IA generativa é a imprevisibilidade – as conhecidas "alucinações", onde os modelos inventam respostas ou tomam decisões erradas. A Opnova resolveu este problema através de uma arquitetura proprietária e patenteada a que chamou Reflexive Memory (Memória Reflexiva).
A lógica é inspirada no cérebro humano. Por exemplo, quando conduzimos diariamente no mesmo trajeto para casa, não precisamos de analisar conscientemente cada detalhe da estrada; funcionamos em piloto automático procedimental. Mas se um animal se atravessar na via, o cérebro reage imediatamente. A IA da Opnova faz o mesmo. Ao analisar o ecrã, o sistema esconde as informações dinâmicas (como os nomes das pessoas) e memoriza a estrutura estática da página (menus e botões).
"Quando o agente reconhece que já esteve naquele ecrã, ele não consulta o modelo de IA. Vai diretamente à base de dados de ações anteriores e clica no botão certo. Isto garante um comportamento 100% determinístico e reduz os custos de processamento computacional em 85%", revela Pedro Saleiro. "Mas se surgir um pop-up inesperado ou uma falha de sistema, o agente recorre de imediato ao modelo de IA para se recalibrar e resolver o problema."
Toda esta operação decorre dentro do próprio sistema informático do banco, o que garante que os dados sensíveis nunca saem do controlo da instituição. Outro dos fatores que ajuda a tornar o sistema único a nível de segurança.
Do Porto para Silicon Valley
Apesar de ter a operação comercial sediada nos Estados Unidos (em São Francisco e Boston), o centro nevrálgico de engenharia, IA e investigação da Opnova está localizado no Porto. Três dos quatro fundadores são portugueses — incluindo Pedro Saleiro, ex-responsável de investigação em IA na Feedzai e uma referência internacional em IA responsável, criador da ferramenta open-source Aequitas. O CEO e cofundador é o norte-americano Sinan Eren, veterano de cibersegurança em Silicon Valley. Os outros dois cofundadores são José Luís Pereira e Pedro Saleiro, dois veteranos da engenharia informática. Ambos cruzam a investigação de ponta em IA -- Saleiro é ex-Feedzai -- com a sólida experiência de José Luís Pereira na arquitetura e fundação de startups de cibersegurança.
Neste momento, cerca de 80% dos clientes da startup são bancos regulados nos EUA, incluindo um dos 40 maiores bancos americanos – onde a tecnologia da startup vai permitir poupar mais de 11.500 horas anuais em trabalho manual de IT, garante a empresa.
Com 5 milhões de dólares angariados na fase inicial (pre-seed) e uma equipa de 20 pessoas, a Opnova está atualmente a recrutar no Porto nas áreas de engenharia de sistemas, IA, frontend e cloud. Para atrair os melhores talentos num mercado hipercompetitivo, a empresa aplica a cultura de Silicon Valley: todos os trabalhadores recebem pacotes de ações (equity) da empresa, diz Pedro Saleiro.
Para os próximos 18 meses, a fasquia está elevada. "Vejo a Opnova com pelo menos um cliente no top 10 dos bancos americanos, uma equipa expandida no Porto, clientes na lista Fortune 500 fora do setor bancário, e a ser olhada como a solução de referência para a gestão de identidades em grandes empresas", afirma Pedro Saleiro. Pelo menos.

