O "hub pessoal inteligente", como 'vendido' pela Apple, será manifestamente reduzido na UE.
O "hub pessoal inteligente", como 'vendido' pela Apple, será manifestamente reduzido na UE.Apple

Toda a nova IA dos iPhones que a Europa fica a ver ao longe

A estreia de John Ternus aos comandos da maçã trouxe o primeiro dobrável da marca e colocou a Inteligência Artificial no centro do ecossistema. Mas o braço de ferro com Bruxelas vai privar o consumidor português do novo "cérebro" digital da Siri.
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A estreia de John Ternus na liderança executiva da Apple assinalou uma viragem estratégica determinante em Cupertino. Em Apple Park, o sucessor de Tim Cook ressuscitou na quarta-feira o emblemático "One More Thing" para apresentar o iPhone Duo — o primeiro e poderoso smartphone dobrável da marca —, mas também colocou a Inteligência Artificial (IA) no centro de todo o ecossistema. Contudo, para os consumidores portugueses (e europeus em geral), a revolução prometida pela empresa norte-americana terá um alcance gravemente amputado.

Durante a apresentação, Ternus rejeitou a ideia de que a IA seja acessória, descrevendo-a como a trave-mestra de uma experiência de utilização assente em hardware capaz. Nas palavras do novo presidente executivo, "a IA torna possíveis tipos de experiências totalmente novos e torna-se ainda mais útil quando junta a sua vida às aplicações, serviços e produtos que usa todos os dias", consagrando o iPhone como um "hub pessoal inteligente".

Para acelerar o passo e colmatar o atraso face à concorrência, a Apple selou uma aliança pragmática com a Google: os modelos Gemini operam nos bastidores dos servidores de Cupertino para viabilizar as tarefas mais pesadas da nova Siri. De resto, Ternus afiançou que a confidencialidade se mantém intocada: o processamento local e o sistema Private Cloud Compute garantem que ninguém acede aos dados dos utilizadores.

Porém, nas letras miudinhas da transmissão oficial surgiu a informação que quem acompanha o mundo da tecnologia já esperava: a nova Siri AI não vai atravessar o Atlântico (também não irá para a China, naturalmente). Na prática, quem adquirir em Portugal um iPhone 18 Pro, um Max, o dobrável Duo ou os mais recentes Apple Watch ficará privado das principais inovações que são uma das razões para o salto geracional de software.

Fica barrada a nova Siri AI, capaz de compreender o contexto pessoal ao cruzar dados entre mensagens, emails e mais de 300 mil aplicações (como WhatsApp ou Outlook), além da sua integração no visor da câmara. Da mesma forma, os utilizadores europeus não terão acesso às ferramentas de redação no iOS 27, à nova aplicação Siri nem aos automatismos contextuais no Safari e nos Atalhos.

Salvaguardados ficam os melhoramentos de IA na edição na app Fotos — como o preenchimento de cenários e o reenquadramento espacial —, processada localmente no silício A20 Pro, mas amputa-se a componente conversacional que transformaria o telemóvel num assistente autónomo capaz de ligar os dados de apps diferentes para dar respostas exatas e completas.

A exclusão atinge igualmente o pulso. Funcionalidades do Apple Watch Series 12 e Ultra 4 como o Audio Intelligence — que recorre ao chip S11 para transcrever os últimos 15 segundos de conversa (Live Rewind) ou produzir atas de reuniões (Siri Recap) — exigem expressamente a Siri AI e ficam inativas na região da UE. Já as novas métricas da app Saúde, como a pontuação de prontidão (Readiness) e a idade biológica, uma vez que são calculadas no próprio dispositivo, escapam ao bloqueio comunitário, enfrentando para já apenas a habitual espera pela disponibilização do idioma português.

Em causa não está uma questão tecnológica mas estritamente regulatória: o Regulamento dos Mercados Digitais (DMA) da União Europeia impõe regras rigorosas de interoperabilidade aos gigantes tecnológicos (gatekeepers). A Apple recusa abrir a sua arquitetura nos moldes que Bruxelas exige alegando salvaguarda da privacidade. No momento, o resultado para o consumidor português que opta pelos produtos da marca da maçã é o de pagar o preço integral por um artigo que vem com o cérebro lobotomizado.

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