CEO da Amazon entrou no capital do Liverpool. Por que razão os americanos investem em clubes europeus?
Jeff Bezos é um dos homens mais ricos do mundo e protagonista do último episódio de uma tendência clara: investidores dos EUA estão a comprar participações em clubes europeus de futebol, com destaque para Inglaterra. Mas o que veem de tão atrativo na Europa que não encontram nos EUA? E podem trazer um novo capítulo na história do futebol?
"Um consórcio norte-americano comprou uma participação no [nome de um clube europeu]" é uma realidade que não é de hoje — começou em 2008 —, mas está mais presente do que nunca. Entre os 20 clubes da liga inglesa, 13 têm sócios dos EUA, dos quais 11 (mais de metade) têm participações maioritárias daqueles investidores.
De notar que, em Inglaterra e noutros países europeus, a larga maioria dos clubes são detidos por investidores privados (algo menos comum em Portugal, mas em expansão). No caso dos EUA, esta é uma vertente visível a 100% na NBA, NHL e NFL, com exceção dos Green Bay Packers.
Ora, a economia norte-americana cresceu, nos últimos anos, a um ritmo mais acelerado do que as congéneres europeias, o que coincide com o surgimento de novos milionários americanos como nunca havia acontecido. Ao mesmo tempo, o interesse pelo futebol está em crescimento, em solo norte-americano: um estudo da Nielsen concluiu que as audiências de futebol atingiram cerca de 80 mil milhões de minutos em 2025.
Isto leva a uma maior procura pela aquisição de participações em clubes desportivos. Ora, fazê-lo nos EUA fica muito mais caro do que na Europa, embora os valores estejam a subir nesta última. O último negócio comprova estas ideias, ainda que seja uma transação entre dois grupos sediados nos EUA.
Um consórcio liderado por Amit Bhatia e que inclui Jeff Bezos, fundador da Amazon, comprou ao Fenway Sports Group uma participação de 38% no Liverpool. O FSG assumiu o comando dos Reds há 16 anos, quando comprou a totalidade do clube por 300 milhões de libras (350 milhões de euros, ao câmbio atual). A "nova" transação avalia o clube em mais de 5,2 mil milhões de libras (6 mil milhões de euros), o que significa uma valorização em flecha.
Em meados de agosto, o Liverpool confirmou a venda de uma "participação minoritária" àquele consórcio. Em causa está a entrada de um grupo de empresários dos EUA no capital de um histórico clube, que dá força a uma tendência recente. É que, dos 20 clubes que competem na Premier League (a liga inglesa de futebol), 11 têm maioria de acionistas dos EUA (há mais dois casos de participações minoritárias) — mais de metade.
De resto, a mesma lógica é vista em clubes de patamares inferiores do futebol inglês e, se abrirmos horizontes a outros países, é relativamente comum na "alta roda" do futebol europeu. Mas por que motivo há tanto capital americano a entrar num desporto que está longe de ser o mais popular naquele país? Primeiro que tudo, importa perceber a necessidade de diversificar face ao desporto dos States.
Porque não investir nos EUA?
Jeff Bezos foi associado, no passado, a tentativas de entrada no capital dos Washington Commanders e dos Seattle Seahawks, dois clubes que atuam na NFL, a liga de futebol-americano. As principais vantagens passam não só por ser um mercado muito maior do que qualquer país europeu, como também pelo facto de não existirem subidas e descidas de divisão. Isto significa que os clubes não arriscam ser despromovidos, nem perante um último lugar na classificação.
A este cenário acresce a enchente de anúncios publicitários que acompanha a transmissão televisiva de todo e qualquer evento desportivo, algo que não acontece na Europa. Tudo somado, os clubes deparam-se receitas garantidas anualmente, o que tem um efeito evidente na avaliação média por clube nas três competições, já que supera largamente aquela que se regista na Premier League, em todas as análises.
O CEO da Amazon é um dos homens mais ricos do mundo (o terceiro, de acordo com o ranking da Forbes a 31 de agosto de 2026), mas acabaria por ver ambas as tentativas caírem por terra, tal como outros milionários norte-americanos no passado. As barreiras passam, sobretudo, pelo património dos donos dos clubes, que não precisam de liquidez. Assim sendo, colocam a fasquia muito alta... ou rejeitam até qualquer proposta de compra.
O empresário seguiu as pisadas de tantos outros norte-americanos que se viraram, a determinada altura, para o futebol europeu, em especial Inglaterra. Por um lado, pela dificuldade em encontrar quem venda nos EUA e pelos preços muito altos (oferta reduzida e procura elevada). Por outro, pelo aumento do interesse dos norte-americanos em futebol (a que chamam soccer), que valoriza o mercado europeu.
Qual o objetivo dos investimentos?
Quando investem em clubes europeus, os norte-americanos esperam fazer do negócio ligado ao estádio e às respetivas redondezas em algo que funciona sete dias por semana, e não apenas quando há jogo naquele recinto. Das vendas nas ruas adjacentes, aos eventos musicais no próprio terreno de jogo, as opções são extensas.
É assim que, apesar de os clubes terem, de forma generalizada, prejuízos anuais (948 milhões de libras na temporada 2024/25, para o total das 20 equipas que competiam naquele campeonato, de acordo com uma análise da consultora Deloitte), acabam por registar um crescente volume de receitas.
É o caso do Tottenham Hotspur FC, que construiu um novo estádio em 2019 (custou 1,2 mil milhões de libras) e viu as receitas comerciais aumentarem de 117 milhões de libras em 2018 para 215 milhões em 2022, de acordo com uma análise.
A isto soma-se a valorização dos clubes (bem evidente no caso do Liverpool), que parece garantir uma eventual venda com grande rentabilidade, num momento futuro. A procura vai muito além do futebl inglês e tudo parece indicar que a "onda" de investimentos não vai parar por aqui.

