Gol: Uma companhia aérea que aposta em Lisboa depois da quase insolvência

Empresa que anunciou quatro voos semanais entre o Rio de Janeiro e a capital portuguesa só agora começa a recuperar, depois de grave crise em 2024 que a levou a pedir proteção judicial nos EUA.
Gol: Uma companhia aérea que aposta em Lisboa depois da quase insolvência
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A mesma Gol Linhas Áreas Inteligentes que anunciou com pompa, no icónico Copacabana Palace na noite de quinta-feira, 12, a definitiva internacionalização da marca, com quatro voos semanais do Rio de Janeiro para Lisboa, a partir de 16 de setembro, além de rotas para Nova Iorque, Paris e Orlando, é a mesma que em 2024 vivia uma das mais sérias crises da história da aviação do Brasil.

Entre 2024 e 2025, dados os prejuízos elevados, ainda fruto da pandemia, a Gol teve de recorrer à proteção judicial nos Estados Unidos, o Chapter 11, para reorganizar as finanças. No momento mais crítico da crise, a dívida total ultrapassava 31 mil milhões de reais (cerca de 5,1 mil milhões de euros). 

E, mesmo após o início da reestruturação, os números continuavam pressionados: em abril de 2025 a dívida líquida ainda rondava aproximadamente os mesmos números, com resultados operacionais preocupantes: receitas de cerca de 1,7 mil milhões de reais (em torno de 280 milhões de euros), mas prejuízo líquido de cerca de 440 milhões de reais (cerca de 73 milhões de euros). 

Para garantir a sobrevivência da companhia e financiar a reorganização, foi necessário captar novos recursos no mercado, incluindo um financiamento de cerca de 1,375 mil milhões de dólares, equivalente a aproximadamente 1,26 mil milhões de euros, além da conversão de parte das dívidas em participação acionária.

Em 2025, os primeiros indicadores de melhoria: a dívida bruta caiu para cerca de 25,5 mil milhões de reais, ou seja, 4,2 mil milhões de euros, após renegociações com credores e mudanças na estrutura financeira da empresa.

É neste contexto que a Gol procura “conquistar novas fronteiras”, “encurtar distâncias” e “cruzar oceanos”, conforme disse Celso Ferrer, CEO da empresa, no evento no Copacabana Palace. Mas o CEO da Gol recordou as citadas dificuldades recentes da empresa e a forma como se recuperou. “Saímos de um processo de recuperação, em 2025, mais fortes e mais consistentes e somos há cinco anos consecutivos a companhia aérea mais pontual do Brasil, reconhecimento da Anac [Agência Nacional de Aviação Civil]”.

A recuperação faz escala na capital portuguesa. “Lisboa, sem dúvida, está no topo do ranking, sempre, de potenciais mercados para a Gol, a ligação de Portugal com o Brasil e o Rio de Janeiro, especialmente, é incrível, vê-se isso na arquitetura, nos sabores, nas relações até familiares”, sublinhou Ferrer. 

Além disso, “somos os maiores parceiros da TAP no Brasil e a TAP foi com quem fizemos questão de falar primeiro, até por sabermos dos problemas no aeroporto local”, sublinhou. “Em relação ao Porto, conseguimos slots, e vamos tentar, numa fase posterior, os voos”, acrescentou o executivo.

Até agora, a Gol operava principalmente em voos domésticos no Brasil e para alguns destinos na América do Sul, Caribe e Estados Unidos. 

Quem quisesse viajar entre Portugal e Brasil, sem conexões, teria de usar as brasileiras LATAM Airlines ou Azul Linhas Aéreas ou então a portuguesa TAP Air Portugal, que tem no país sul-americano o seu maior mercado fora da Portugal. 

Novidades a bordo

No anúncio dos novos voos, a Gol anunciou ainda a criação das classes Magno e Business Insignia By Gol, cujos atributos vão de assentos, que se tornam camas, a auriculares com cancelamento ativo de ruído, passando por check-in exclusivo, possibilidade de antecipar, remarcar ou cancelar voos (24 horas por dia) e gastronomia a cargo de um chef, Felipe Bronze.

O investimento inclui, por outro lado, a incorporação à frota de cinco aeronaves da Airbus A330-900, modelo com capacidade para 300 assentos e até 15 horas de alcance, sinalizando uma nova estratégia de diversificação de uma companhia que, por 25 anos, só operou com o modelo 737 da Boeing.

Na última semana, a empresa lançou um novo hub internacional no Galeão com a presença do presidente da República, Lula da Silva, e do ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho.

A Gol faz parte do Grupo Abra, com alianças com a Avianca, a American Airlines e a Air France-KLM, que resultam em 60 acordos de codeshare e interline, os acordos entre companhias aéreas para facilitar viagens com conexões entre diferentes empresas.

Fundada pelo empresário Constantino de Oliveira Júnior, a Gol iniciou operações comerciais em 15 de janeiro de 2001 com a proposta de operar no modelo de baixo custo, algo ainda pouco difundido no mercado brasileiro naquele momento. 

A empresa começou por estar ligada ao Grupo Áurea, tradicional conglomerado brasileiro do setor de transporte rodoviário, e rapidamente ganhou espaço no mercado doméstico, ao apostar em passagens mais acessíveis.

Durante a década de 2000 a expansão foi rápida e incluiu a aquisição, em 2007, da tradicional companhia aérea Varig, um negócio que ampliou rotas e presença internacional, mas trouxe, também, fortes desafios financeiros e operacionais, devido às diferenças entre os modelos de gestão das duas empresas.

A crise económica brasileira de 2014 a 2016 e a pandemia de 2020 e 2021 também afetaram todo o setor aéreo brasileiro, incluindo a Gol. A recuperação está agora em marcha e com Lisboa no caminho.

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